



Maggie Shayne
Asas da noite 03
Iluses ao anoitecer






Disponibilizao, Traduo e Pesquisas: Yuna, Gisa, Mare e Rosie
Reviso: Olga Ligia
Reviso Final e Formatao: Eve Dallas















       Durante sculos, a solido os acompanhou do anoitecer  aurora. Mas da escurido surgiu  luz da vida eterna... Do amor eterno

      Damien era o mais perigoso da estirpe dos malditos, mas seu oculto poder ancestral estava em perigo por culpa de uma terrvel debilidade: a paixo que sentia
por uma mulher de carne e osso, uma mortal...



























 Captulo 1

        uma histria antiga,
       Mas que ainda se pode contar
       Sobre um homem que amou.
       E perdeu

      Shannon tomava nota, amaldioando a ineficcia da caneta lanterna para escrever em meio de um teatro escuro. E amaldioava tambm o apertado dos braos da
poltrona, onde mal cabia sua caderneta. Exalou um suspiro enquanto empurrava o carnudo brao que tinha a sua esquerda e sussurrava.
      -Importa-lhe? Estou tentando trabalhar.
      Gostava de estar zangada. O aborrecimento afastava sua mente das imagens que a abrasavam. Tawny, de juba e olhos castanhos, com um rosto como o de uma boneca
de porcelana e um sorriso capaz de iluminar uma habitao. Seus sonhos de converter-se em uma estrela, sua maneira exagerada de expressar-se. Sua ousadia. Shannon
queria recordar a aquela mulher vibrante que tinha sido aspirante a atriz de dia, prostituta de noite e sua melhor amiga sempre. No queria recordar seu corpo nu
sobre os lenis, seu olhar vazio. Nem as duas marcas vermelhas sobre seu branco pescoo.
      Continuou tomando notas, vagamente consciente dos aplausos, do gradual silncio que se fez a seguir e da posterior espera. Tampouco atendia  voz profunda
e melodiosa do homem que estava sobre o cenrio anunciando que necessitava uma voluntria do pblico. Apenas se distraiu antes de ajustar a tnue luz de sua caneta
e continuar escrevendo.

            As mulheres virtualmente babam. Para ele seria muito fcil conseguir que qualquer delas fosse aonde ele quisesse Mas ainda no foi capaz de me dizer
onde estava na quarta-feira de noite entre as...

      De repente deteve a caneta e se sentiu envolta em uma nuvem de ar glacial. Elevou o olhar para o corredor. Ali estava Damien, envolto em uma capa de negro
cetim. Um instante depois, o foco o iluminou, fazendo resplandecer seu cabelo at lhe arrancar brilhos azuis e intensificando a palidez de sua pele. Tinha um brao
estendido e a estava assinalando com a mo. Seus olhos, uns olhos redondos e enormes como os de um mocho, que pareciam encerrar toda a sabedoria dos deuses e a dor
de mil infernos, posaram-se sobre ela.
      -Voc, senhorita.
      Shannon desejou que o corao deixasse de pulsar. Ainda no havia a mais mnima prova de que aquele homem fosse um assassino. S certas circunstncias e suas
prprias suspeitas.
      -Eu o que?
      O homem curvou os lbios em um sorriso. Posou o olhar na caderneta e na caneta lanterna e voltou a fix-lo em seus olhos.
      -Como se chama?
      -Sha... Shannon, mas eu...
      -Um forte aplauso para a encantada Shannon, nossa valente voluntria.
      Disse em voz alta, inclinando-se para ela com um gesto teatral. Os focos o obedeceram imediatamente e banharam  Shannon em um crculo de luz que no servia
absolutamente para aliviar aquele frio glacial que no parecia prenunciar nada de bom. Shannon entrecerrou os olhos enquanto cresciam os aplausos. Damien fechou
sua mo sobre a sua, uma mo grande, quente e forte. Atirou dela sem muita delicadeza. A caneta, a bolsa, tudo caiu ao cho enquanto Shannon se levantava.
      Tentou atirar de sua mo, mas a do homem era mais robusta que o melhor par de algemas que jamais se inventou. O rudo dos aplausos e o acompanhamento da msica
impediam que se ouvissem seus protestos. Damien a arrastou para uns degraus situados  direita do cenrio. Shannon podia continuar resistindo e ficar como uma idiota
ou aceitar aquele fiasco com certa elegncia. Optou pela segunda opo, embora pensasse que a aquele vaidoso canalha no teria sentado mal, uma boa patada em seu
descomunal ego.
      Damien a olhou nos olhos e, uma vez mais, curvou os lbios. No tanto como para que seu gesto pudesse ser considerado um sorriso. Foi algo assim como um "sei
o que est pensando e o encontro  divertido".
      Shannon o fulminou com o olhar; em sua mente se alternavam os olhos negros de Damien com os olhos castanhos do Tawny... Uns olhos abertos, frgeis, cegos para
sempre.
      A presso em seu pulso cessou. O homem a olhou com o cenho franzido e deslizou a mo para estreitar a de Shannon. Detiveram-se no centro do cenrio. Depois
deles, uma cortina de veludo vermelho se elevou to silenciosamente como o teria feito um fantasma. Shannon olhou por cima do ombro e viu um cristal em equilbrio
sobre o encosto de duas cadeiras.
      -A encantada Shannon est a ponto de me ajudar a desafiar as leis da natureza.
      Shannon procurava no deixar que o aborrecimento cedesse o passo, aquela crescente inquietao que to facilmente poderia transformar-se em medo. Fra Damien
ou no o assassino, no podia lhe fazer nenhum dano diante de milhares de espectadores. Ergueu as costas.
      -Se acreditar que vou permitir que me parta pela metade, esquea-o -disse entre dentes.
      O olhou de esguelha e o viu apertar os lbios ao tempo que sentia aumentar a presso de sua mo.
      -A lei da gravidade -continuou dizendo Damien.
      Falava de maneira hipntica. Seus lbios pareciam acariciar cada slaba antes de liber-la.
      -Por aqui, Shannon.
      Conduziu-a para a improvisada mesa de cristal e tomou a mo para que subisse um par de degraus de madeira enquanto aumentava a intensidade da msica.
      -Agora, inclini-se, Shannon.
      Shannon se estremeceu ligeiramente, perguntando-se se utilizaria sempre aquele tom de voz ou somente o fazia quando estava em cena. Inclinou-se sobre o frio
cristal sem apartar em nenhum momento os olhos de seu rosto. Inclusive suas respiraes e suas piscadas resultavam hipnticas, como se todas elas formassem parte
de uma coreografia. Damien a rodeou com um brao estendido, balanando sua capa enquanto se movia. Depois, levou a mo ao pescoo, tirou a capa de um puxo e cobriu
Shannon com ela, cobrindo-a at o queixo.
      Era um tecido groso, forrada de cetim tanto por fora como por dentro. Shannon desejou esfregar a bochecha contra ela. A fragrncia que a invadia era penetrante
e escura. E no tinha cheirado nunca nada parecido.
      O homem levou a mo at sua cabea e foi descendendo at lhe fechar os olhos.
      - Relaxe, Shannon. No se mova. Deixe que seus msculos se relaxem. Quebrar as ataduras de seu corao. Te libere das constries da gravidade.
      Shannon suspirou com fora e pestanejou para apartar as lgrimas de aborrecimento que a imagem de sua amiga tinha levado a seus olhos. Damien Namtar sabia
como montar um espetculo. No seria o mago mais famoso do mundo se no soubesse faz-lo. Damien o Eterno. Embora fosse mais apropriado cham-lo Damien, o Professor
das Iluses pticas. Mas possivelmente pudesse averiguar algo mais sobre ele se prestava ateno. Possivelmente conseguisse deixar de pensar na Tawny o tempo suficiente
para encontrar alguma prova de quem a tinha matado.
      E como. Pelo amor de Deus, como.
      Tentou concentrar-se enquanto permanecia to quieta como Damien lhe ordenava. No queria perder a concentrao e terminar caindo no meio do cenrio.
      No ocorreu nada. Shannon ouviu o grito afogado do pblico e abriu um olho. Damien estava a seus ps, sustentando uma cadeira com a mo. Shannon franziu ligeiramente
o cenho. Era uma das cadeiras que sustentavam o cristal? Mas ela continuava em posio horizontal...
      Damien deixou a cadeira e caminhou at sua cabea. Deteve-se um instante para colocou sua mo com a ligeireza de uma pluma sobre seus olhos e os voltou a fechar.
      Mas Shannon os abriu imediatamente. Ela tinha pagado para ver aquele maldito espetculo. Com os olhos fechados no ia poder ver absolutamente nada.
      Damien estava  cabea daquele leito improvisado, fixando o olhar em seu rosto. Quando viu que tinha aberto os olhos, apertou os lbios, mas Shannon no voltou
a fech-los. O olhar de Damien se fez mais intenso, perspicaz, penetrante. Inclinou-se, e Shannon soube que ia afastar a segunda cadeira de debaixo do cristal. Damien
se endireitou sustentando a cadeira com uma mo, girou com ela e a afastou para a direita.
      Quando Shannon pde v-lo outra vez, Damien levava um aro na mo que passou a seu redor para demonstrar que no havia nada que estivesse sujeitando seu corpo
suspenso no ar.
      Desprendeu-se tambm do aro e se inclinou sobre  Shannon.
      -Agora te concentre comigo, Shannon. No tem nada que temer.
      Com um olhar jubiloso, jogou a capa para lhe cobrir com ela a cabea. Aquilo a ensinaria a manter os olhos fechados, imaginou Shannon que estava pensando.
      Ouviu um murmrio de vozes em um idioma que no reconheceu. Sentiu depois uma vibrao forte; o cristal sobre o que estava apoiada comeou a mover-se. Deslizou-se
para um lado. Ela tentou agarr-lo instintivamente com a mo esquerda, mas Damien lhe agarrou a mo e a sustentou entre as suas. Shannon esteve a ponto de entrelaar
os dedos com os seus, uma coisa completamente absurda. Felizmente, Damien a soltou antes que tivesse tido tempo de faz-lo.
      Sentiu que o cristal se separava para sempre dela. A msica tinha perdido volume, mas o redobrar dos tambores era cada vez mais forte, mais rpido. Shannon
continuou tombada no meio do cenrio. Como diabos...?
      A capa comeou a deslizar-se ao longo de seu corpo. Damien permanecia a vrios centmetros dela, com os braos estendidos e os olhos fechados como se estivesse
concentrando-se. Tinha umas pestanas incrivelmente largas para ser um homem. De fato, tudo nele parecia incrvel. Shannon conhecia a Tawny melhor que ningum e tinha
a impresso de que Tawny jamais teria sado daquele teatro sem oferecer ao menos...
      Damien elevou a mo e os tambores retumbaram freneticamente. Shannon se sentia como se estivesse elevando-se sobre uma almofada de ar. Damien deu um passo
adiante.
      -Vem comigo, Shannon - disse com aquela voz firme e profunda a que no podia opor-se.
      Abaixou os braos e estalou os dedos. A msica se interrompeu e, ao mesmo tempo, Shannon caiu. Durou um instante; pensou que a queda ia doer-lhe de maneira
terrvel, sentiu a necessidade de gritar, mordeu-se o lbio e... Aterrissou em seus braos.
      Pestanejou surpreendida. Damien a olhava e a estreitava contra seu peito. E Shannon experimentou uma sensao estranha. Pensou que depois daquela noite, possivelmente
estivesse mais perto de compreender a capacidade de Tawny para deitar-se com qualquer. Damien inclinou a cabea e lhe roou a cabea com os lbios. Shannon estava
convencida de que tinha marcado com fogo sua pele. Mas era uma estupidez. Eram a msica e a magia que a faziam estremecer-se de prazer. No o contato de um homem.
Jamais o faria o contato de um homem.
      Os gritos do pblico estiveram a ponto de ensurdec-la. Damien apartou o olhar dela para dirigir-se ao pblico. Shannon seguiu o curso de seu olhar, mas quase
imediatamente voltou a prestar ateno ao homem que a sustentava entre seus braos. Seu duro perfil, a elegante linha de sua mandbula, seu nariz aquilino... E a
luz que emergia das profundidades daqueles olhos negros como o azeviche. Damien adorava aquilo. Absorvia a adorao do pblico com a mesma ansiedade que o deserto
absorvia a gua da chuva. Estava em um absoluto xtase. Virtualmente resplandecia.
      O pano de fundo baixou e Damien a deixou no cho. Pousou as mos em seus ombros, a fez voltar-se e a empurrou suavemente.
      -Tirem Shannon de cena -um dos contra-regras se fez cargo dela e Damien se inclinou para lhe sussurrar ao ouvido-: estiveste maravilhosa.
      Depois, o contra-regra a agarrou pelo brao e a tirou do cenrio, antes de desaparecer de sua vista.
      Shannon voltou a fixar o olhar no pano de fundo, que se elevava como se no pesasse apenas. Damien permanecia no centro do cenrio, atando as tiras que sujeitavam
sua capa. Quando o pano de fundo deteve sua ascenso, Shannon pde ver o pblico levantado, sem deixar de aplaudir.
      Damien apontou apenas uma reverncia e elevou as mos pedindo silncio.
      -Obrigado, graas a todos. Temo que Shannon no v poder reunir-se de novo com vocs. Decidi convid-la para jantar.
      As risadas encheram o teatro.
      Damien abriu os braos, sustentando a capa com as mos.
      -Adeus, amigos.
      O corao de Shannon palpitava a toda velocidade. O pblico continuava em p. Damien baixou um brao e se cobriu o rosto com o outro, com um gesto do mais
puro estilo Drcula. Girou em crculo trs vezes.
      Soaram os pratos. O casaco caiu no cho transformou em uma nuvem de cetim. Damien tinha desaparecido. Shannon se levantou e fixou o olhar naquele tecido resplandecente.
Viu que algo se movia e franziu o cenho. Que demnios era esse pequeno...?
      O morcego abandonou o ninho de cetim e bateu suas asas com fora antes de lanar-se sobre o pblico. Voava baixo, provocando no pblico gritos de terror e
expresses de surpresa. Depois retornou sobre o cenrio. O pano de fundo voltou a cair e o teatro estalou em aplausos.
      Os aplausos se prolongaram durante uns minutos antes de comear a apagar-se lentamente. O pblico comeou a mover-se e a atividade se desenvolveu depois do
cenrio. Shannon sacudiu o feitio que a magia parecia ter operado sobre ela e olhou a seu redor. Tinha uma misso a cumprir. Cruzou os dedos e comeou a avanar
em que esperava fosse a direo correta. Ainda no tinha terminado com o Damien Namtar. Tinha muitas perguntas e no ia sair dali at que tivesse obtido algumas
respostas.
      Uma palmada no ombro a fez voltar-se, meio esperando encontrar o mago atrs dela. Mas no era o mago, era o mesmo contra-regra que a tinha tirado de cena.
Levava sua bolsa na mo.
      -Damien me pediu que lhe entregasse isto.
      -Obrigado -Shannon tomou sua bolsa e olhou depois do homem-. Onde est? Preciso falar com ele.
      - impossvel. J se foi.
      - O que? Se foi?
      Sentia-se exatamente como um globo ao que acabassem de cravar.
      -Tem que conduzir at seu palcio. E est chovendo.
      -H dito palcio?
      O contra-regra baixou o olhar e sacudiu a cabea lentamente.
      -Sim, possuir um palcio. Sabe ao que me refiro?
      Sim, sabia. Tinha visto fotografias em algumas revistas que pareciam no ter nunca suficiente informao sobre aquele renomado mago. Algo que lhe ocorria tambm
a sua legio de admiradores. Shannon inclinou a cabea.
      -Ouvi dizer que leva uma vida de ermito. Creio que mantm em segredo o lugar no que vive para evitar a seus admiradores?
      -Todo mundo sabe onde est o palcio, mas  impossvel acessar a ele. Tem um sistema de segurana inviolvel. Ningum pode entrar em seu palcio.
      -Portanto que ningum, n? -colocou a bolsa no ombro e se voltou.


       Damien,
       Escrevo-te uma vez mais esperando sua resposta. E desta vez me esforarei em te explicar com mais detalhe meus motivos, possivelmente assim me perdoe. Sou
um vampiro, igual a voc, e tambm um cientista. Dediquei uma grande parte da minha vida, uns duzentos anos a estas alturas, a estudar aos vampiros, com a inteno
de compreender melhor as peculiaridades de nossa existncia. Por que estamos aqui? Com que propsito? E, alm disso, eu gostaria de poder lutar contra aqueles aspectos
menos agradveis de nossas vidas. Estudo tambm aos Escolhidos, aqueles humanos com os quais mantemos um vnculo inexplicvel, aqueles para os quais nos sentimos
atrados e aos que, instintivamente, tentamos proteger. Os escolhidos podem ser transformados e possuem o mesmo antgeno no sangue que todos ns tivemos em alguns
momentos. Meus estudos me revelaram uma grande quantidade de informao, mas quero mais.
       Mim disseram que voc, Damien,  o mais ancio dos vampiros que ainda existem e que tem habilidades muito superiores s dos imortais jovens como ns. Estou
convencido de que, tambm sua sabedoria excede com muito  nossa. Eu gostaria de te conhecer, falar contigo, aprender algo de sua vasta existncia. Sua sabedoria
pode nos beneficiar a todos. Eu gostaria de muito ser seu amigo.
       Teu na escurido,
       Eric Marquand.


      Damien enrugou a carta e a jogou ao fogo de sua moderna chamin de mrmore. Esse Marquand deveria aprender a escrever como se vivesse no presente. Damien sempre
tinha pensado que o mais importante era tentar adaptar-se a qualquer cultura, mostrar-se como se pertencesse a ela. No chamar de maneira nenhuma a ateno.
      Esboou uma careta ao recordar a ltima frase da carta. "Eu gostaria de muito ser seu amigo". Amigo. Ele no precisava ser amigo de ningum. Tinha sofrido
em uma ocasio quela dor lhe debilitado e no precisava reviv-la.
      Em qualquer caso, aquele Eric Marquand que se definia, a si mesmo como cientista no poderia aprender muitas coisas com ele. Certamente, Marquand tinha aprendido
mais em seus curtos duzentos anos de existncia, que ele durante quase seis mil anos de vida. Damien tinha vivido sempre isolado. No queria ter contato com ningum
dos de sua espcie e, sobre tudo, no queria ter contato algum com os Escolhidos.
     Os Escolhidos. Os Escolhidos o aterrorizavam. Aquele instinto irresistvel e que sabia prprio de todos os vampiros, de cuid-los e proteg-los, sacudia-o at
os ossos. Era uma ameaa para sua solitria existncia. Ele no queria preocupar-se com ningum. Nunca mais. E a nica maneira de evitar a atrao por volta desses
estranhos humanos era evit-los a todos eles. E isso era exatamente o que Damien tinha conseguido. At aquela noite.
      Havia sentido sua presena assim que tinha sado  cena. Havia sentido que estava ali, e tambm seu poderoso magnetismo. Algum demnio lhe tinha urgido a v-la,
a falar com ela, a toc-la. Havia sentido aquela urgncia em ocasies anteriores, quando seu caminho se cruzou com o de algum deles e sempre tinha sido capaz de
resisti-la. Mas aquela noite, no. Tinha desejado toc-la e o tinha feito.
      Muito, possivelmente. Damien mantinha sua mente fechada deliberadamente. No queria abrir-se nem aos pensamentos nem aos desejos dos outros. Os outros no
lhe importavam, no sentia por eles a mais mnima curiosidade. Mas aquela noite, havia sentido a avalanche de sentimentos que emergiam da mente de Shannon, uns sentimentos
to poderosos que o tinham estremecido. Havia sentido sua dor, seu aborrecimento. E, sobre tudo, sua tristeza. Por um instante, no tinha sabido se era a tristeza
de Shannon ou a sua prpria, que ressurgia para paralis-lo uma vez mais. Eram to parecidos... Tinha conseguido reprimir a necessidade de aliviar sua dor fazendo
um grande esforo de vontade para fechar sua mente a de Shannon. Mas o tinha conseguido.
      A partir do ocorrido, devia ter muito mais cuidado. E, sobre tudo, precisava evitar qualquer contato com aquela mulher em particular, que o afetava como no
o tinha feito ningum at ento.


      Shannon levava umas malhas de cor negra, uma camiseta da mesma cor e uma mscara negra de nylon que tinha tirado do disfarce do Cat Woman do ltimo Halloween.
As luvas com que cobria suas mos tambm eram negros,  igual s sapatilhas esporte que calavam seus ps. Inclusive vestia meias trs - quartos negros para que os
tornozelos no pudessem ver-se na escurido.
      Tinha-lhe dado uma oportunidade o Damien. Tinha convidado trs vezes a sua casa. A primeira, tinha respondido o telefone, mas assim que lhe havia dito que
era ela a que chamava, tinha-lhe gritado que no voltasse a incomod-lo. O telefone tinha estado chamando aps e Shannon suspeitava que o ermito o tivesse desligado.
Estupendo. Se queria que fizesse as coisas da maneira mais difcil, assim o faria. Diabos, no tinha nada a perder. E queria averiguar quem tinha matado a sua amiga
e como. Aquele homem lhe tinha parado os ps. Havia tentando control-la. Mas no havia nada que a enfurecesse mais, que a pusesse mais  defensiva, mais disposta
a batalhar. A ltima vez que algum tinha tentado controlar sua vida tinha dezesseis anos e os resultados no tinham sido absolutamente agradveis. Mas no voltaria
a acontecer.
      Estudou a enorme manso com o olhar e se perguntou por que diriam que era to inacessvel. Na taipa que a rodeava no havia nenhum sensor para detectar movimentos
externos. S um alarme que soaria no caso de que tentasse abrir a porta e um par de cmeras de vigilncia.
      Deslizou a corda que levava no ombro e lanou o gancho que tinha a um dos extremos, no ramo de uma rvore que sobressaa prximo. Como era possvel que um
homem to preocupado por sua segurana tivesse passado algo assim por alto? Subiu para subir ao ramo, voltou a lanar o gancho outra vez e descendeu at o cho.
Foi muito singelo. At um menino poderia ter entrado naquela casa.
      Mas nesse momento se acenderam dois focos, apontando diretamente para ela. O corao de Shannon palpitava em seu peito como um martelo pneumtico.
      As luzes continuaram iluminando-h durante alguns segundos antes de apagar-se de novo. Assim havia sensores. Bastaria que algo se movesse para que aquelas
luzes voltassem a ilumin-la outra vez. De acordo, tinha que pensar.
      O sensor tinha que estar dirigido para o lugar no que se produzia o movimento para que se acionasse. Shannon deduziu que no podia estar orientado para o cho,
posto que nesse caso, os focos se acenderiam cada vez que se movia um coelho ou um camundongo de campo. De acordo. Merecia a pena tent-lo.
      Deslizou-se para a casa arrastando-se sobre o estmago. No via virtualmente nada com aquela escurido. Quo nico sabia era que a casa era enorme e que estava
completamente s escuras. No se via uma s luz procedente de seu interior.
      Tentaria entrar pela porta; possivelmente houvesse uma gateira ou uma coisa parecida pela que pudesse entrar. Sempre e quando no houvesse um co dentro da
casa. Cruzou os dedos e se incorporou para subir os degraus de pedra da entrada.
      E justo quando chegou  porta, esta se abriu lentamente e viu um par de botas negras frente a ela.





























 Captulo 2

      -O que est fazendo aqui, Shannon?
      O aborrecimento vibrava em sua voz, mas parecia estar fazendo um esforo para control-lo. Shannon abriu a boca para responder, sem deixar de olhar as reluzentes
botas, mas no saiu uma s palavra de seus lbios.
      -Poderia imaginar todo tipo de coisas sobre sua atual postura, mas acredito que deveria se levantar.
      Shannon obedeceu, ao tempo que sentia seu rosto arder sob a mscara.
      Exato, levava uma mscara. Como demnio tinha adivinhado ento que era ela?
      Tirou a mscara e o fulminou com o olhar.
      -Olhe, tentei falar contigo no teatro, mas voc partiu. Depois chamei e me pendurou no telefone. Assim no me deixaste outra opo.
      -Deixei-te a opo de me deixar em paz.
      Em seus olhos negros parecia arder um autntico fogo. Um fogo negro. Uma luz escura. Shannon pestanejou e se sacudiu mentalmente. Como era possvel que um
homem to atrativo como aquele pudesse lhe dar medo? Ela no tinha medo de nada. Nem sequer da morte. E embora o tivesse, no o admitiria. Em sua situao, no podia
permitir-lhe.
      -Temo que no possa te deixar em paz.
      -Por que no?
      -Me deixe passar e lhe contarei isso -o olhou  cara e, ao ver que no se negava, compreendeu que estava vacilando-.  importante.
      -Sim, deve s-lo -baixou o olhar para seu traje enquanto o dizia.
      A Shannon no passou despercebido seu sarcasmo. E justo quando elevou o queixo e a resposta estava a ponto de sair de seus lbios, Damien assentiu e se fez
a um lado para deix-la passar.
      -Dez minutos, Shannon. Depois ter que ir ou chamarei a segurana.
      Shannon o olhou por cima do ombro, sentindo-se triunfal.
      -E a quem indicar que  levaro, a Mulher Gato ou ao Batman?
      Damien fez uma careta, mas no pde dissimular o sorriso que apareceu apenas a seus lbios. Shannon se perguntou por um instante por que quereria ocult-la.
Mas assim que se voltou para ver por aonde ia, desapareceu de sua mente qualquer outro pensamento.
      O curto vestbulo que acabavam de cruzar dava ligao a uma habitao circular que teria deixado em ridculo ao Salo Oval. Havia uma lareira de mrmore negro
com duas portas em arco, uma para o fogo e a outra para armazenar a lenha. Sobre o suporte da lareira, alinhavam-se diferentes objetos resguardados em cubos de cristal
de bomia. O cho resplandecia enquanto as chamas iluminavam uns tapetes de vvidas cores. Uma delas estava perto da chamin e estava coberta de almofadas. Almofadas
redondas, quadradas, ovais, de cetim, de seda e de veludo em cor negra, vermelho ou dourado. Frente  chamin, uma chaise-longue de couro envelhecido. Havia tambm
um sof, mas sem respaldo, com almofadas em cada um de seus extremos. De todas as paredes penduravam tecidos de cor vermelha com franjas. E a madeira dos ps e as
bordas dos mveis estavam gravadas com formas e smbolos estranhos.
      Shannon pestanejou e sacudiu a cabea.
      -No  o que esperava?
      Shannon tremia como se estivesse soprando a seu redor um vento gelado. Mas no era o frio o que a fazia estremecer-se. Tinha sido um flego quente e cinco
palavras brandamente pronunciadas em sua nuca.
      Conteve a respirao, fechou os olhos e tentou tranqilizar-se. No podia permitir que o estranho comportamento daquele homem a assustasse. Ao fim e a cabo,
formava parte de seu espetculo. Era uma imagem que levava alm do que ela esperava, mas isso no provava que fora capaz de lev-la at o final... Ou sim?
      - o lugar perfeito para manter sua imagem intacta, Damien. Embora... -continuou tentando dissimular o assombro de sua voz-, no sei por que toma tantas molstias.
Tenho entendido que so muito poucas as pessoas que conseguem cruzar essa porta. De modo que, a quem tenta impressionar?
      -Esta habitao  para mim. Eu gosto assim.
      Shannon se aproximou do suporte da chamin e arregalou os olhos ao ver de perto os objetos que encerravam os cubos de cristal. Eram figuras de homens Barbados
com os olhos amendoados. Havia tambm uma figura de uma cabra sentada sobre seus quartos traseiros, aparentemente de ouro, uma pea de cermica com animais e desenhos
perfeitamente simtricos, e uma pedra coberta de linhas com diferentes signos, letras possivelmente?
      -So todos to antigos como parecem?
      -Isso depende do antigo que lhe paream.
      Shannon o olhou com o cenho franzido.
      -So antiguidades, verdade? Coleciona-as. Mas onde as encontraste? Na tumba de um fara?
      -No estaria mau. Mas deveria as buscar um pouco mais ao sul.
      Shannon se mordeu o lbio enquanto se divagava os miolos tentando averigu-lo, mas Damien a cortou.
      -Dei-te dez minutos e j gastaste trs olhando boquiaberto este salo. Vais dizer-me o que te  fez vir at aqui vestida dessa forma to ridcula?
      O aborrecimento retornou e, com ele, a lembrana dos motivos que a tinham levado a aquela casa.
      -Mencionar que  uma tolice, verdade? Que sou uma admiradora obcecada por voc, e que nico quero  um autgrafo ou uma lembrana do Eterno Damien.
      Damien inclinou a cabea para um lado, cruzou os braos e esperou pacientemente que Shannon fora ao gro. Esta abriu o zper da pochete  que levava a cintura
e tirou de seu interior um envelope sem selo.
      -Com quanta freqncia faz o truque da levitao com uma voluntria do pblico, Damien?
      Damien fixou o olhar no envelope e a olhou de novo aos olhos.
      - um nmero novo. Esta noite o tenho feito pela terceira vez.
      -Ento essa foi  terceira vez. E voc lembra da voluntria da semana passada?
      Tirou umas fotografias antes que ele tivesse tempo de responder. Manteve o olhar fixo no Damien em todo momento, tendo muito cuidado de no baixar o olhar
enquanto as tendia.
      Damien a olhou durante extenso momento. Quando tomou as fotografias, roou-lhe o polegar e Shannon se estremeceu. Afastou-se dele, caminhou para aquele mvel
que parecia a cama da Clepatra e se sentou.
      Negava-se a olh-lo e optou por fixar o olhar no fogo da chamin.
      No o ouviu aproximar-se, de modo que se sobressaltou quando Damien a agarrou pelo pulso e atirou dela para obrig-la a levantar-se. Sua mo parecia uma garra
de ferro e a fulminou com um olhar to intenso como perigoso.
      -Que demnios  este lixo?
      -No a reconhece, Damien? Admito que seja difcil reconhec-la com essa pele to branca como a cera e esse olhar vazio. Mas o cabelo segue sendo o mesmo. Despenteado,
sim, mas basicamente o mesmo. Era atriz, sabe? Ou pelo menos queria s-lo.
      Damien aumentou a presso de sua mo.
      -Que suja brincadeira est tentando...?
      -Lembra-te dela. Estupendo. Isto no  nenhuma brincadeira, Damien. Tawny Keller est morta. Morreu em sua cama, umas horas depois de ter participado de seu
espetculo.
      Damien entrecerro os olhos e deixou cair a mo com a que a sujeitava. Sacudiu a cabea e se voltou.
      Shannon procurou de novo na pochete e tirou uns documentos grampeados.
      -No lhe creio isso, verdade? Bom, pois provo com isto -lhe colocou os papis sob o nariz-. So os relatrios do forense, os resultados da autpsia.
      Damien elevou de novo o olhar. Shannon teve a impresso de que se estava rasgando por dentro, mas a sensao se desvaneceu quase to rapidamente como chegou.
      -Como conseguistes todas estas coisas?   da polcia?
      -Polcia no. Detetive privado.
      Shannon deixou os documentos a um lado. As folhas saram voando e terminaram no cho. O silncio se alargava entre o Damien e ela. Mas Shannon no queria voltar
a senti-lo.
      -Eu encontrei o cadver.
      As lembranas a assaltaram apesar de que lutou contra eles com todas suas foras. Recordou-se batendo na porta de Tawny. Estava preocupada porque no respondia
o telefone e sempre falavam na primeira hora da manh. A porta nem sequer estava fechada.
      Shannon sentiu uma mo de ferro ao redor de seu corao enquanto revivia mentalmente o momento no que tinha entrado em sua casa. Tinha sabido, havia sentido
o medo antes de entrar no dormitrio e ver o que ningum deveria ver jamais.
      Voltou-se para ocultar sua dor e se afastou do Damien.
      -Esto tentando mant-lo tudo em silncio. Armar-se-ia um verdadeiro revo se a causa da morte se filtrasse  imprensa. Mas eu o vi. Vendi meu silncio em
troca das fotografias e os informes. Trabalhei com esse forense e se atem sempre escrupulosamente s normas. Se tivesse sido por ele, jamais teria tido acesso a
estas fotografias -fixou o olhar na chamin, batalhando contra as lgrimas-. Ameaaram-me tirar a licena de detetive se me meter nisto, mas no me importa. Era
minha melhor amiga.
      Damien  esclareceu  a garganta.
      -Sinto-o -se aproximou dela, permanecia justo atrs. Aquele homem era to sigiloso como um gato-. Mas ainda no entendo...
      Shannon girou bruscamente e lhe cravou o dedo indicador no peito.
      -No o entende? Sangrou at morrer, Damien. E as nicas feridas que encontraram em seu corpo so essas duas marcas no pescoo. Diga-me como demnio pde algum
fazer isso e depois, me diga de quem suspeitaria voc se estivesse em minha pele.
      Damien fechou os olhos e se apartou lentamente dela.
      - impossvel. Tem que haver outra ferida, ou...
      -L esta maldita autpsia se no me crie. A causa da morte  uma perda extrema de sangue. No podem explic-lo. Se fosse um cidado importante em vez de uma
prostituta que aspirava converter-se em atriz, provavelmente chamariam o FBI -fechou os olhos-. Mas s era Tawny. Uma Joo ningum que cresceu nas ruas e fez tudo
o que esteve em sua mo para sobreviver. Foi minha melhor amiga desde que completei os dezesseis anos. Se no tivesse sido por ela, eu nunca teria chegado a completar
dezessete.
      -- A polcia acredita que estou louca. Dizem que no h nenhuma prova que aponte para voc. Mas sou boa no que fao e neste momento, o nico objetivo de minha
curta e triste existncia  chegar ao final de tudo isto -se aspirar o nariz e tentou apagar o tremor de sua voz-. Estou tentando localizar a mulher que aparecer
voluntria uma semana antes que Tawny o fizesse. Mas no estou tendo muita sorte. E minhas vsceras me dizem que no a vou encontrar, ou que se o fizer, no estar
em condies de me contar nada.
      Ouviu-o exalar um lento e comprido suspiro.
      -Assim vieste aqui  me acusar de assassinato. Pois j o tem feito. E agora, acredito que deveria partir.
      -Rosalie tambm era uma prostituta, sabe? Tinha ido aquela noite ao espetculo com um de seus clientes. Ningum informou  seu desaparecimento. E a polcia
decidiu ignorar o fato de que no aparea porque a ningum importa. Mas o caso do Tawny  diferente. H algum que se preocupa com ela. E no vou deixar as coisas
como esto.
      -Vete a casa, Shannon.
      -Me diga Damien, o que  passou? Estais to louco que realmente acreditas que  o personagem que representa em cena? Ou  s uma ttica publicitria? Umas quantas
mortes  mos de um vampiro enquanto est na cidade para aumentar sua fama? -franziu o cenho e o olhou com ateno-. Sofreu muito Tawny antes que a matasse, Damien?
E como demnios conseguiu lhe fazer uma coisa assim?
      O aborrecimento o estava atacando com uma violncia quase fsica.
      -Voc quer crer?
      Shannon elevou o queixo e lhe sustentou o olhar.
      -Acredito que esses crimes indicam um patro de conduta e, se tiver razo, ento eu sou a seguinte da lista, no  certo? E sabe algo, Damien? Quase estou
desejando que venha  me buscar, porque estarei  esperando.
      Shannon sentia sua raiva. Parecia chispar no espao que os separava.
      -Ah, sim?
      - obvio que sim, e ser melhor que acabe comigo  primeira tentativa, porque no vacilarei. Nunca falho.
      -Est disposta a me disparar, verdade?
      -Estou disposta a te voar a cabea. No sei  quantas outras garotas mataste, mas desta vez equivocaste. Tawny era minha melhor amiga. Assim procura apontar
bem, mago, porque esta vai ser sua ltima oportunidade.
      Deu meia volta e comeou a caminhar para a porta, mas Damien a agarrou pelo brao e a fez voltar-se de novo para ele.
      -No vai a nenhuma parte.
      Shannon arregalou os olhos. Uns olhos da cor do mbar. Damien sentiu o medo que a atravessava. Mas Shannon no o mostrava. No se encolheu. Nem sequer baixou
a cabea. A juba loira emoldurava seu rosto lhe dando um aspecto angelical. Naquele momento era um anjo furioso, um anjo vingador. Damien abriu sua mente de maneira
deliberada pela primeira vez em sculos. O bombardeio o surpreendeu. Soltou a Shannon e se levou as mos s tmporas para defender-se da fora com a que o assaltavam
as  vozes, pensamentos, emoes, sensaes... Milhares e milhares de sensaes pressionando-o ao mesmo tempo.
      Fechou os olhos e retrocedeu cambaleante. O rudo de infinitas vozes lhe brocava os tmpanos. Sensaes de dor, prazer, frio, calor, enjo, esgotamento...
Pisoteavam seu corpo e o faziam vibrar como se estivesse eletrificado. As imagens surgiam como chamas ante seus olhos. Milhares de aromas o assaltavam, milhares
de sabores se acumulavam em sua boca antes que pudesse fechar a porta de seu crebro. Sel-la.
      Pelo amor da Inanna! Tinha passado tanto tempo desde a ltima vez que tinha tentado perceber sensaes de outros... Tinha crescido em poder, em fora, em habilidade
para praticar certos truques, mas, ao mesmo tempo, tinha descuidado muitas outras, de suas habilidades. Teria que voltar a trabalhar nelas. Aprender de novo a filtrar
as vibraes, a concentrar-se unicamente na mente que lhe interessava. Que nesse momento era a de Shannon.
      Abriu os olhos e pestanejou para tentar fixar o olhar. Estava sozinho. Voltou-se para o vestbulo. A porta estava totalmente aberta e atrs dela s se via
a noite escura.
      Como se Shannon no tivesse estado nunca ali. Damien fechou a porta e permaneceu atrs dela sem deixar de tremer. Obrigou-se a retornar ao salo, seu lugar
preferido para relaxar-se. Os olhos fundos da mulher morta o olhavam das fotografias que tinham ficado pulverizadas sobre o cho de mrmore. As marcas de seu pescoo
pareciam estar burlando-se dele.
      "Crie-te o inimigo da morte, Damien? Pois voc se equivoca. No final ganhei, voc viu? Rendeste-te. E agora me pertence".
      Equilibrou-se sobre aquelas horrveis fotografias, ajoelhou-se frente  chamin e as jogou sobre as cinzas apagadas da habitao.
      -Eu no a matei.
      Aquelas palavras saram de seus lbios convertidas em um precipitado sussurro. O rosto  que uma vez fora uma formosa aspirante a atriz o olhava fixamente,
gritando sua acusao das profundidades de uns olhos que j no viam. Damien concentrou seus pensamentos e as fotografias arderam. Observou-as arder perguntando-se
o que podia ter feito para evitar todo aquilo. A sede... Aquela maldita necessidade foi-se fazendo mais forte  medida que tinham se passando os anos. Era impossvel
neg-la ou ignorar aquela fome. Os animais j no eram suficientes. E o frio lquido que roubava dos bancos de sangue no conseguia saciar sua necessidade. No podia
seguir ignorando-a.
      Tinha-o tentado. De fato, converteu-se em uma espcie de ritual de tortura. Cada vez que chegava a fome, negava-se a alimentar-se, lutava contra a sede de
sangue, resistia at que o superava. Tinha pensado que, dessa maneira, faria-se cada vez mais forte. E, entretanto, no tinha sido assim. Cada vez que o reprimia,
o desejo se fazia mais forte em suas veias e at a ltima clula de seu corpo terminava lhe demandando aquele elixir. Ao final, perdia o controle e saa a caar
abrindo-se caminho em um feixe de desejo sangrento.
      Mas, mesmo assim, tinha mantido uma modesta conteno. Bebia apenas uns sorvos e s de mulheres que o seguiam atrs de suas atuaes. Suas admiradoras. Aquelas
que se deslizavam em seu camarim sem ter sido convidadas e lhe suplicavam que as fizesse dele.
      Eram puras fantasias, ele sabia. E ria de seus oferecimentos. Mas se apresentava horas depois em seu dormitrio, lhes aparecia em sonhos. E ali, envolto no
calor de uns braos mortais, saciava seu urgente desejo. Depois, com uma simples ordem, conseguia que suas vtimas recordassem aquele troca como um sonho ertico.
E os primeiros raios de sol apagavam as marcas que tinha deixado em seu pescoo.
      Sempre as deixava dormidas  e satisfeitas, tendo recebido tanta satisfao como ele do intercmbio.
      O teria cegado o desejo at o ponto de ter sangrado a uma delas sem haver-se dado conta?
      "Exato Damien. No s te rendestes, mas tambm se uniu ao meu exrcito. Agora  um de meus homens. Damien. Um instrumento da morte".
      Damien gemeu angustiado e cruzou os braos sobre seu ventre. Ningum desprezava como ele a sombra da morte. Ningum. A morte era seu maior inimigo. Se chegasse
um momento no que para poder alimentar seus prprios demnios tivesse que matar, poria fim a sua existncia imediatamente. Faria... No.
      Damien se endireitou e fixou o olhar nos restos das fotografias que descansavam na habitao. No, antes de fazer nada, tinha que saber a verdade. Se tiver
matado, se tinha arrebatado uma vida, deveria entregar a sua.
      Mas se no era assim, isso significava que havia algum mais.
      Comeou a caminhar, perdido em seus pensamentos. Algum, possivelmente, que pretendia lhe fazer aparecer como culpado.
      Deteve-se perto do primeiro arco do salo. Algum que estava espiando a todas as mulheres das que se alimentava, possivelmente? Mas se algum o tivesse seguido,
teria se dado conta, ou no?
      Mas ento tinham seguido s mulheres que subiam a cena com ele?
      Seu olhar voou para o lugar no que tinha visto por ltima vez a Shannon. Se no ia procurar  e a sua teoria era certa, poderiam mat-la essa mesma noite.
      E se ia atrs dela, como todos seus instintos lhe gritavam que fizesse, e seus piores temores fossem certos, a preciosa vida de Shannon tambm poderia terminar.
Como podia arriscar-se a matar  algum a quem s queria proteger? E como podia arriscar sua necessidade de solido cedendo  urgncia de proteg-la quando sua razo
lhe dizia que fugisse?
      Que demnios ia fazer?







 Captulo 3

      Um corvo elevou seu vo em meio da noite; o negro azulado de suas asas resplandecia enquanto planava sobre o vento e se elevava de novo em espiral. Depois,
dobrando suas  asas e descendeu a uma velocidade vertiginosa. Elevou-se de novo e bateu as asas at o balco de um apartamento do vigsimo terceiro andar.
      Shannon fechou a porta de sua casa, jogou o ferrolho e ps a corrente. Recostou-se contra a porta e fechou os olhos sem flego. Tinha conservado o valor at
o momento no que Damien a tinha agarrado o brao e lhe havia dito que no ia partir. Nesse instante, tinha experimentado o mais puro pnico, pensando que ia matar-la.
      Imediatamente, foi a sua mente a imagem de Damien, como uma foto instantnea que refletia a expresso com a que a tinha cuidadoso nesse momento. O que lhe
teria ocorrido? Tinha-a solto de repente e se levou as mos  cabea como se temesse que esta fosse partir-se o em dois. E ela tinha sado fugindo como um coelho
assustado.
      Apertou os olhos com fora para evitar as estpidas lgrimas que ameaavam transbordando seus olhos e sacudiu a cabea ante aquela amarga ironia. Ela fugindo
da morte. Deus, que ironia! No pela primeira vez, ouviu-se a si mesma amaldioando ao destino por ter cometido o engano de escolher a Tawny como vtima daquele
psicopata. Deveria ter morrido ela, Tawny tinha futuro. Uma carreira. Shannon sabia que o teria conseguido. Tawny tinha uma capacidade especial para conseguir que
as coisas sassem tal e como ela queria.
      "No deveria ter morrido Tawny. Deveria ter morrido eu. Deus, por que no me tero matado? Pelo menos, uma de ns teria seguido viva, poderia ter chegado a
ter uma famlia algum dia... "
      Pestanejando, tentou abandonar a autocompaxo. Se no era capaz de recuperar a compostura, ela tambm acabaria morrendo. E poria fim a qualquer possibilidade
de descobrir ao assassino de Tawny antes que acabassem seus dias na terra. Se for procur-la, f-lo-ia aquela noite. Tawny tinha morrido a mesma noite que tinha
participado do espetculo de Damien. E, por isso ela sabia a outra mulher, Rosalie, no havia tornado a ser vista da noite que se mostrou diante dos refletores.
      Shannon estava cansada. Sim, maldita fora, estava cansada.
      Afundou a mo na pochete para tirar dali um revlver 38. Levou a pistola ao banheiro e a deixou sobre o mostrador que rodeava um pia de cor coral para t-la
ao alcance da mo. Despiu-se rapidamente e deixou os objetos ali onde aterrissaram. Depois, meteu-se sob a ducha e deixou que a gua relaxasse seus doloridos msculos.
Deus, seria maravilhoso poder descansar depois de tanta tenso. Relaxar com um bom livro ou com uma tigela de pipocas e um velho filme do Bogart. Viajar de carro
para o sul at encontrar as praias e o sol. Mas sabia que no podia faz-lo. Ainda no. Tinha posto toda uma maquinaria em movimento e tinha que ver como terminava
tudo aquilo. No contava com muito tempo e era consciente disso.
      Inclusive depois da morte de Tawny e de todas suas repercusses, de todas as perguntas para as que lhe faltava uma resposta, Shannon ainda no podia evitar
que sua mente voasse para a ltima pessoa em que queria pensar.
      Damien Namtar.
      A imagem daquele homem voltava a flutuar em seu crebro, maldito fora. Aquele homem era suspeito de assassinato. No para a polcia,  obvio. Mas para ela
o era. De fato, at o momento era o nico suspeito. Assim deveria deixar de pensar na estranha conscincia de si mesma que sentia quando estava perto dele, as agradveis
sensaes que a acompanhavam. "Distraes psquicas", pensou para si e jogou a cabea para trs para deixar que a gua lhe enxaguasse o cabelo. Inalou aquele vapor
quente, esperando que a ajudasse a centrar a cabea. Damien Namtar era um homem muito atrativo. De uma forma escura, extica. A isso teria que acrescentar que suas
atuaes tinham sempre uma importante dose de erotismo, de modo que no era absolutamente estranho que sua libido respondesse daquela maneira.
      Ou sim? Shannon sempre se considerou imune ao desejo sexual. Tinha muito pouca experincia nesse campo; s a viciada bbada que se supunha que tinha que cuid-la,
a me adotiva que a tinha acolhido aos dezesseis anos. No tinha muita escolha e se viu obrigada a viver com ela.
      Entretanto, desde aquele dia em adiante, todas as opes tinham sido dela. Ningum havia tornado a lhe dizer o que tinham que fazer. E ningum o faria.
      S tinha tirado uma coisa boa daquela etapa de sua vida, e era que tinha conhecido Tawny. Tinha enviado a mesma famlia de criao e ambas tinham sofrido os
mesmos abusos, embora era certo que durante um curto espao de tempo. Tinham conseguido escapar antes que aquele descarado pudesse consumar a violao ltima. No
tinham muita escolha. Nem Shannon nem Tawny confiavam ento na polcia para denunci-lo. Com quem poderiam ter falado? Com os mesmos burocratas que as tinham enviado
a aquela casa?
      Os resultados da breve estadia com aquele homem tinham sido completamente diferentes para cada uma delas. No caso do Tawny, esta no havia tornado a sentir
nenhum respeito por seu prprio corpo. Tinha-o convertido em um fim para conseguir o que queria. Utilizava-o e ria dos homens que eram to estpidos para pagar por
algo que ela teria estado disposta a lhes entregar livremente.
      Mas Shannon era diferente. Ela tinha decidido que jamais deixaria que um homem voltasse a toc-la. Nunca. Nem sequer era capaz de pensar no sexo sem recordar
a humilhao, o pestilento flego daquele homem.
      Mas, por alguma razo, no revivia aquela sensao de repugnncia quando pensava no Damien.
      Suspirou, tentando tirar-lo da cabea, mas no podia. Recordava sua atuao. No era de se estranhar que suas admiradoras lhe jogassem nos braos.
      Mas a questo era saber se Damien assassinava as mulheres que lhe ofereciam. Teria se deixado arrastar Tawny por seu atrativo e lhe teria devotado como outras
tantas mulheres faziam? Seria essa a razo pela qual a tinha assassinado?
      Shannon continuava sem compreender o que lhe tinha ocorrido a sua amiga.
      Havia outros casos que tambm demandavam sua ateno, mas os tinha transferido a agncias de detetives maiores que a sua; odiava ter que renunciar a aqueles
trabalhos quando tinha tido que lutar to duramente por chegar a estabelecer-se, mas queria concentrar-se em um nico caso. Manteria o escritrio aberto s para
investigar o que lhe tinha ocorrido a sua amiga. E quando descobrisse ao assassino de Tawny, fecharia o negcio para sempre.
      De momento, queria concentrar-se exclusivamente no assassino de Tawny. No podia permiti-la menor distrao. Utilizaria a cada segundo de seu tempo para...
      Enjoou-se de repente, apoiou-se contra os frios ladrilhos da ducha e fechou a torneira. Maldita fora, por que naquele momento? Por que demnios tinha que lhe
ocorrer em uma situao como aquela?
      Procurou por uma toalha e saiu cambaleante da ducha, detendo-se unicamente para recuperar a pistola antes de sair ao quarto. Tinha que meter-se na cama, tinha
que deitar-se e descansar at que cessasse o enjo. Porque lhe passaria. Sempre o fazia.
      Precisava chegar  cama e esfregou para manter o equilbrio, at chegar a ela. Tinha que meter-se entre os lenis porque o seguinte seria o frio. E depois
comearia a tremer e lhe subiria a febre. Normalmente, o processo durava somente uma hora. Mas os episdios eram cada vez mais freqentes. Era como uma espcie de
sistema de alarme de seu prprio corpo que lhe recordava que seu tempo estava a ponto de terminar.
      Conseguiu chegar  porta do dormitrio antes de deprimir-se. Sentiu que as pernas comeavam a afrouxar-se dos tornozelos at os quadris e que o cho se elevava
para receber sua queda. Ela colocou seus braos antes de tentar subir, mas ele pesava tanto que era quase impossvel de se mover.
      Os tremores a sacudiam e podia ouvir o bater de seus prprios dentes. Deus, tinha tanto frio... Se pelo menos pudesse chegar  cama... At ento, sempre o
tinha conseguido. Mas aqueles malditos ataques eram cada vez mais freqentes e mais fortes, compreendeu. E no queria pensar no que isso significava.
      Concentrando-se com fora, conseguiu esticar a mo ao redor da pistola. Tinha que t-la consigo se por acaso fossem procurar-la. O assassino a mataria se a
encontrasse completamente indefesa. Deus, odiava sentir-se to impotente, no poder controlar seu prprio corpo. Concentrou-se em sentir o gatilho e inclusive se
esforou em arrastar-se pelo cho. Todos os msculos de seu corpo lhe ardiam. E depois, comearam aquelas malditas convulses que pareciam querer rasg-la.
      Algum se inclinou sobre ela e a levantou. Uma familiar fragrncia a envolveu. Uma fragrncia sutil, sensual. Sentiu uns braos a seu redor e depois um peito
contra o seu; era uma sensao aconchegante e familiar. Obrigou-se a abrir os olhos e a fixar a viso, mas s via um contorno impreciso. No importava. Sabia perfeitamente
quem era a pessoa que estava cruzando com ela a habitao e a depositava sobre a cama. Agasalhou-a entre os lenis e conectou a manta eltrica. Soube por que comeou
a notar o calor sobre a pele gelada. Damien lhe tirou suavemente a pistola e, com aquelas mos mgicas de dedos largos e elegantes, removeu-lhe os cabelos da cara.
      -Quer que chame uma ambulncia, Shannon?
      Shannon ouviu suas palavras, ouviu aquela voz suave que com tanta dureza a tinha tratado a ltima vez que se dirigiu a ela. Naquele momento, entretanto, era
como uma msica aveludada para seus ouvidos.
      Tentou responder, mas renunciou e se limitou a negar com a cabea. Inclusive para aquele pequeno esforo necessitava de todas suas energias.
      -A sua famlia ento?
      -No... No h ningum.
      - O que est errado com voc? O que voc tem?
      Falava quedamente, como se temesse  machucar os seus ouvidos. Shannon sentiu a fora de suas mos nos ombros, seu calor, a presso de seus dedos sobre sua
pele.
      O calor da manta eltrica foi penetrando em seu corpo. Os tremores cessaram e tambm diminuiu ligeiramente o frio, mas persistia aquela dor que a fazia sentir-se
como se acabasse de lhe passar um rolo compressor por cima. Notou que Damien se separava da cama e ouviu seus passos.
      Deus, por que no a tinha matado ainda? E onde estava sua pistola? Por que no gritava para pedir ajuda?
      Damien retornou e se sentou a borda da cama. Shannon sentiu umas pastilhas nos lbios e depois gua fria. Tragou enquanto Damien lhe sustentava a cabea, lhe
rodeando o pescoo com os dedos.
      - ibuprofeno -lhe disse- para a dor e a febre.
      Shannon assentiu e Damien lhe fez apoiar de novo a cabea no travesseiro.
      -Encontra-te melhor?
      Shannon no era capaz de manter os olhos abertos por muito que tentasse olh-lo para adivinhar se realmente se escondia um assassino detrs daqueles olhos
negros.
      -Importaria me dizer como pensava voc enfrentar a um assassino neste estado?
      Parecia zangado. E Shannon se perguntava por que.
      -Eu... No tinha planejado isto.
      -Est melhor? Est mais relaxada?
      Shannon comeou a dormir, mas sentiu as mos do Damien sobre seus ombros a levantar o travesseiro.
      -Diga-me isso!
      Shannon arregalou os olhos. J estava, dizia-lhe sua mente adormecida. Aquele era o fim. E a tinha encontrado de madrugada, tal e como lhe tinha ocorrido a
Tawny. Morreria sangrada e com o olhar fixo no teto. Contemplando a alternativa, morrer de um de seus ataques no lhe parecia to terrvel.
      Tinha que fazer algo. Tinha que concentrar sua mente e a fora de cada um de seus msculos em salvar-se. Alargou uma mo para a mesinha de noite. Era ali onde
Damien tinha deixado a pistola, no? Tocou o abajur e sentiu cair  no cho.
      Damien se aproximou dela e a fez deitar-se delicadamente sobre os lenis. Shannon viu os olhos negros de Damien escrutinando seu rosto. E depois suas mos
pressionando algo frio e duro entre as suas.
      - isto o que buscas?
      Shannon fechou a mo ao redor da fria coronha da arma e comeou a respirar outra vez.
      -Fique  se isso te tranqilizar, Shannon, mas no vim  te matar.
      Shannon sustentava a pistola contra seu peito, cobrindo-a tambm com a outra mo. O canho assinalava para o Damien e seu dedo logo que roava o gatilho. Os
olhos lhe fecharam, mas voltou a abri-los imediatamente.
      -Est melhor, de  verdade?
      Shannon assentiu.
      -Por que... Por que vieste? -arrastava as palavras como se tivesse estado bebendo-. Se no tiver vindo a me matar, ento por que...? -lhe fechavam as plpebras
e se esforava em mant-los abertos, mas cada vez lhe resultava mais difcil.
      Damien sorriu ligeiramente.
      -Logo que poder permanecer acordada. Tranqila, Shannon dorme um pouco.
      -No, no dormirei at... At que voc tenha ido - umedeceu os lbios e se obrigou a fixar nele o olhar para lhe enviar claramente uma mensagem-. Saia imediatamente
daqui.

      Damien tinha visto seus olhos cuspindo fogo. E, por um instante, Shannon recordou  um de seus velhos amigos, o nico homem que tinha tido o valor de enfrentar
ele. Sorriu.
      Shannon tinha medo, mas tinha tambm o valor da Inanna. Considerava-o um autntico demnio, mas mesmo assim, desafiava-o a lutar. Como tinha feito ele em outro
tempo. Shannon era como ele. Como Enkidu.
      Umedeceu os lbios enquanto escutava a respirao de Shannon, cujo corpo ia rendendo-se a incontrolvel invaso do sono.
      Lutar contra a morte era um triste exerccio. A morte sempre terminava ganhando a batalha. Acaso no tinha procurado ele incessantemente a chave da imortalidade,
s para descobrir que no era outra coisa que uma morte perptua?
      Ele no queria faz-lo. Negava-se a faz-lo com a vontade de cada segundo de seus quase seis mil anos de existncia. No queria faz-lo. Mas mesmo assim, abandonou
a cama, meteu-se no banheiro e umedeceu um pano de gua fria que utilizou depois para refrescar o acalorado rosto de Shannon. Permaneceria toda a noite em viglia,
no por nenhuma classe de afeto, mas sim por simples decncia e por fazer honra as lembranas.
      A viso de Shannon ardendo de febre lhe tinha feito retroceder aos piores momentos de sua existncia, quando tinha visto seu melhor amigo em uma situao similar.
Havia-se sentido to impotente ento... Tinha-lhes chorado aos deuses clamando piedade, mas o nico que tinha conseguido deles tinha sido vingana.
      Recordou-se a si mesmo que Shannon no era sua amiga. Era uma desconhecida. E no era a agonia da morte a que estremecia seu corpo, a no ser calafrios provocados
pela febre. E j tinham remetido.
      -No...
      Baixou o olhar para a Shannon, mas no estava falando com ele. Pelo menos, no acreditava.
      -Servir para baixar a febre -lhe explicou, e voltou a colocar o pano sobre sua cabea.
      -No me toque -chorou Shannon, e se retorceu na cama-. Tawny lhe diga que pare!
      As lgrimas empapavam seu rosto e Damien no pde evitar o n de tristeza que se formou em sua garganta, embora soubesse que era uma tolice, que no tinha
sentido. Aquela mulher no lhe importava absolutamente.
      Acariciou seu rosto.
      -No passa nada, Shannon. Ningum vai te danificar.
      Surpreendeu-se ao ver a pequena mo de Shannon subindo para cobrir a sua.
      -No me deixe -sussurrou Shannon-.Tenho tanto medo...
      No estava falando com ele. Estava dormida e continuava ardendo de febre. Estava sonhando. No estava falando com ele, repetiu-se.
      Mesmo assim, sabia que ficaria ao seu lado. Como ia poder defender-se Shannon naquele estado? Se fosse certo que algum louco estava acabando com a vida de
todas as mulheres que saam a cena em seu espetculo, Shannon corria um srio perigo.
      Damien no queria acreditar nessa possibilidade. E mesmo assim, parte dele o fazia. Porque se no era outro o que tinha matado a aquela mulher, o teria feito
ele. E ele no podia ter sido.
      Logo que recordou seu rosto. Tinham sido tantas ao longo dos sculos, tantas mulheres com as que tinha satisfeito aquela sede eterna... Jovens, belas e todas
dispostas a deixar-se arrastar para o xtase com ele. Mas jamais as tinha matado. Nunca. Ele odiava a morte.
      Forou-se a recordar a Tawny. Tinha ido a seu camarim depois da atuao, tinha deslizado as mos por seu peito e se ps nas pontas dos ps para beij-lo. E
lhe tinha metido um papel na cintura da cala antes de partir. Era seu endereo. E Damien tinha sabido que podia ir v-la. Aquela noite, sua sede de sangue tinha
alcanado um de seus pontos glidos. No podia seguir resistindo-a e ao final tinha ido procurar-la.
      Tinha encontrado ela na cama, meio dormido, e a tinha despertado com um beijo, mas no tinha intercambia com ela uma s palavra. Tawny tinha tirado a camisola
e tinha empurrado  Damien para a cama, oculta pela escurido da noite. E quando a tinha penetrado, quando tinha satisfeito sua sede ardente em seu pescoo, produziu-se
um instante de loucura. Tinha havido uma dcima de segundo durante a que no tinha sido consciente do que fazia.
      E quando se separou dela, tinha-o assaltado a mesma sensao de culpa que sempre o invadia. Ficou olhando-a fixamente enquanto ela dormia, tinha-a agasalhado
com os lenis e, em silncio, tinha-lhe ordenado que recordasse o ocorrido como se s tivesse sido um sonho. Depois tinha pirado para a noite, com a conscincia
muito afetada para ficar ali nem um segundo mais.
      Naquele momento estava caminhando ao lado da cama de outra mulher formosa, a amiga de Tawny, que pretendia ser tambm sua vingadora. E se questionava sua prpria
capacidade mental. Estaria Tawny dormindo quando a tinha deixado? Ou agonizando? Havia alguma possibilidade de que tivesse bebido muito sangue e tivesse acabado
com aquela jovem vida?
      Apartou o cabelo dourado de Shannon de seu rosto e sentiu sua textura sedosa entre os dedos.
      Asseguraria-se de que qualquer ameaa contra sua vida desaparecesse, embora resultasse ser ele mesmo aquela ameaa, e depois se afastaria at a outra ponta
do planeta para no voltar a v-la nunca mais. Para no voltar a pensar jamais nela. E o faria sem lhe importar o que pudesse ser dela. Damien Namtar nunca se preocupava
com ningum. Tinha sido assim durante sculos e assim continuaria sendo.
      Mesmo assim, era consciente de que no ficava outro remdio que averiguar o que lhe tinha passado ao Tawny Keller. Porque se resultava que ao final no era
capaz de viver sem lhe arrebatar a vida aos outros, sabia que tinha que pr fim a sua existncia.
      Todas aquelas coisas giravam como um ciclone em sua mente enquanto a observava, enquanto cuidava dela. Estava fazendo exatamente tudo aquilo que se jurou no
fazer nunca. Estava protegendo a um de dos Escolhidos. Atuando por impulsos que eram puramente fsicos, instintivos.
      E quando estava chegando o amanhecer, compreendeu que no podia deix-la ali sozinha, desprotegida.

      Anthar olhou o edifcio e apareceu em seus lbios um sorriso. Justo antes do amanhecer, esse ser que era uma mescla de humano e de Deus tinha sado da casa
com a mulher nos braos. Inconsciente? Dormida? Hipnotizada possivelmente? Fosse o que fosse no importava. O pago havia tornado para cuidar de algum, outra vez.
Esfregou as mos com regozijo. Era muito perfeito. Ah, a destruio do Gilgamesh, de sua alma, de seu corpo e de seu esprito, estava aproxima. Por fim tinha encontrado
as ferramentas para isso. Tinha esperado durante muito tempo sem perder a pacincia. Porque no era possvel destroar completamente a um homem que ningum lhe importava.
O afeto, aquela era a chave da debilidade.
      Sempre e quando aquilo fosse verdadeiro afeto.
      Anthar no se atrevia a ler os pensamentos do Gilgamesh. Era de vital importncia no ser descoberto enquanto observava cada movimento de Damien. Tinha que
estar seguro antes de atuar.
      Deveria lhe fazer uma prova. Ou vrias, possivelmente. As que fossem necessrias at estar seguro. E depois comearia a lenta tortura at lev-lo a destruio
definitiva.




























 Captulo 4

      Shannon despertou sentindo-se como se tivesse estado lutando contra um trem de mercadorias e tivesse perdido. A cabea palpitava. O corpo doa e tinha a garganta
como se a tivessem esfregado com uma bucha de ao. Apertou os olhos com fora para proteger-se da luz que se filtrava atravs de suas plpebras e enterrou a cabea
no travesseiro. O cetim acariciou sua bochecha. E quando inalou, seus pulmes se alagaram de uma mescla de fragrncias. Estreitou-se contra o fofo edredom que a
envolvia e...
      Abriu os olhos de par em par. Aquela no era sua cama. Ela jamais tinha tido lenis de cetim. Deu meia volta na cama, sentou-se e pestanejou at esclarecer
seu olhar. Aquela tampouco era sua habitao.
      -Que demnios...? -apartou os lenis e se levantou.
      A felpa de um tapete branco acariciou seus ps. Piscou de novo e tentou sacudi-la sensao de ter cruzado ao outro lado do espelho. A habitao era de forma
triangular e a porta que tinha frente a ela estava em um dos cantos. Onde demnios estava? Aproximou-se da porta, agarrou o trinco e o girou. Mas no cedia. Esmurrou
ento a madeira.
      -N! O que est passando? Tirem-me daqui!
      O corao lhe pulsava violentamente no peito enquanto esperava uma resposta que no chegava. S silencio. Um silncio pesado que se fechava a seu redor como
um sudrio. Procurou acalmar-se. No era um sonho. Estava segura de que estava acordada. Muito bem. Ento, o que tinha passado?
      A lembrana da noite anterior retornou lenta, mas nitidamente. Havia tornado a sofrer uma daquelas crises. E uma crise especialmente grave, pior que nenhuma
das que tinha tido at ento. E Damien estava l Ela tinha medo de que a matasse, mas em realidade... Tinha tentado ajud-la.
      -Sim, mida ajuda. E assim que fiquei dormido, seqestrou-me.
      Olhou ao redor da habitao. No tinha nenhuma dvida de que pertencia ao palcio de Damien. Aquele tipo parecia ter algo contra as habitaes quadradas. Percorreu
o permetro da habitao, empurrou uma porta aberta situada em um dos ngulos e viu um banho triangular atrs dela.
      As janelas, altas e estreitas, pareciam sentinelas a ambos os lados da habitao, com seus cortinados de cor negra separadas por tiras brancas. Shannon apartou
as cortinas e olhou ao exterior para confirmar suas suspeitas. Viu a taipa que tinha escalado a noite anterior.
      Estava em sua casa, muito bem. E a janela no parecia a melhor via para escapar. Devia estar a uns trs pisos do cho. O sol comeava a ficar. Tinha passado
dormindo a maior parte do dia.
      -Maldito seja -Shannon deixou a cortina em seu lugar e se meteu no banheiro, em busca de alguma possvel sada. Nada. S o resplendor da porcelana e o cromo
e um penhoar de felpa. Tudo sem mcula. E caro. A banheira era to grande que poderia haver-se celebrado nela a Conveno Nacional do Partido Democrata. E a bata
que pendurava de uma das paredes era... Um momento... Era sua bata!
      Shannon retornou ao dormitrio, abriu a porta do armrio de par em par e encontrou em seu interior  as roupas cuidadosamente penduradas.
 . Um par de jeans, uma blusa e sua jaqueta de ante.
      -Esse filho de... Que demnios acredita que est fazendo? -retrocedeu at a cama e viu ento uma cesta de piquenique no cho.
      Entrecerro os olhos, aproximou-se com cautela e abriu uma das tampas. Um monto de fruta. Examinou de perto seu contedo e levantou outra tampa. Meia dzia
de bolachas, um recipiente trmico e uma terrina com acar. O estmago comeou a rugir. Uma parte dela se perguntou se Damien lhe teria jogado algo  comida. Mas
a outra lhe dizia que para que fosse haver se tomado tantas molstias. Se tivesse querido lhe fazer danifico, teria tido a possibilidade de faz-lo a noite anterior.
      No gostava daquela situao. Tudo em seu interior se rebelava contra ela e, se tivesse detido a analisar os motivos, teria sabido por que. Tinham-lhe tirado
a possibilidade de escolher. Era uma situao quase to terrvel como quando era menina e estava a merc do Estado. Naquele momento, no tinha nenhum controle sobre
sua vida. Quando voltasse a ver esse bastardo, mataria-o. Mas de momento, estava faminta. E embora a comida a tivesse eleito Damien, era ela a que decidia se a comia
ou no.
      Alargou a mo para o recipiente trmico desejando que estivesse cheio de caf.
      Era caf, sim, e, alm disso, bem quente.
      Shannon olhou a seu redor e sacudiu a cabea com gesto de frustrao.
      -No sei o que te prope, Damien, mas no vais sair te com a tua.


      Damien tinha decidido que s havia trs possibilidades. Uma, que tivesse perdido o controle e se converteu em um servidor da morte, seu pior inimigo. Dois,
que houvesse outro vampiro em Arista. E trs, que um mortal normal e corrente com uma mente especialmente retorcida fora o responsvel por aquelas mortes e, por
alguma razo doentia, queria que parecessem provocadas por um vampiro. O assassino podia ser algum que pretendia que o acusassem de seus assassinatos. E se esse
era o caso, ento Shannon corria um grave perigo. E por muito que Damien tivesse jurado que jamais o faria, via-se obrigado a proteg-la. Os laos sangneos eram
impossveis de esquecer.
      -A garota est acordada, senhor.
      Damien saiu de seu ensimismamiento e elevou o olhar. Netty inclinou sua cabea de um lado a outro como um passarinho curioso. Damien forou um sorriso e o
rosto de Netty se enrugou ao lhe responder com outra. Aquela mulher tinha um fsico to delicado como o de uma bailarina de uma caixinha de msica e o carter de
um santo. Onde ia encontrar Damien a ningum capaz de adaptar-se a seus horrios sem queixar-se e sem fazer perguntas?
      -Obrigado, Netty -apertou os lbios, perguntando-se o que diria Shannon quando subisse a v-la.
      -J leva um momento acordada, caminhando pela habitao. Parece nervosa.
      Inclinou de novo a cabea e Damien soube que certamente no haveria nada que gostasse de mais que receber uma explicao sobre os motivos pelos que se deu
a estranha circunstncia de que houvesse uma mulher naquela casa.
      -Levaste-lhe algo de comer?
      -Sim, claro. Estava completamente dormida quando lhe levei a comida.  adorvel, no crie?
      -J pode te retirar, Netty. Estiveste trabalhando durante todo o dia.
      Netty se mordeu o lbio, inclinou a cabea e saiu correndo da habitao. Damien ouviu fechar uma das portas traseiras do palcio e, aos poucos segundos, o
motor de seu carro.
      Ergueu ento as costas e olhou para a escada. No precisava abrir sua mente nem tentar escrutinar a Shannon para sentir a fria que emanava da jovem. Era evidente.
Enchia cada rinco da casa e toda ela ia dirigida contra ele.
      Damien suspirou pesadamente, cortou o baralho e estendeu as cartas sobre a mesa. Extraiu quatro cartas e as girou. Quatro ases. Outro truque para acrescentar
a seu repertrio. Esboou uma careta enquanto se levantava e comeava a subir as escadas.
      Quando chegou  porta, abriu o ferrolho com a mente e entrou na habitao. O primeiro que o impactou foi o aroma mido e limpo que se desprendia de Shannon.
Banhou-se. Podia sentir o vapor da gua no ar, cheirar a gua gotejando por sua pele... Quase podia sabore-la. Ia vestida com uns jeans e uma blusa de algodo verde.
E estava a ponto de arregaar-se quando se voltou para ele. O fato de no ter grampeado um s boto no pareceu alter-la. Seus olhos ambarinos jogavam fogo.
      -J era hora de que aparecesse. Que demnios crie que est fazendo ao me encerrar aqui? Isto  um seqestro e te asseguro que lhe metero no crcere assim
que possa...
      Interrompeu-se e baixou o olhar; ao parecer, por fim se deu conta de onde tinha fixado Damien a sua. Os bordos brancos do prendedor acariciavam os montculos
de seus seios como se fossem umas mos amorosas e Damien no teria sido capaz de desviar o olhar por nada do mundo. Era preciosa. E fazia muito tempo que no se
dava a oportunidade de apreciar realmente a beleza feminina. Satisfazia suas necessidades na escurido, com encontros rpidos durante os que no havia nenhum intercmbio
de palavras.
      Shannon lhe deu as costas para grampe-la blusa.
      -Quero um telefone. Vou chamar a um txi para sair imediatamente daqui, e quando estiver de volta em meu apartamento, provavelmente chame  polcia.
      Damien no disse nada. Limitou-se a olh-la fixamente. Shannon se meteu as abas da camisa nos jeans antes de voltar-se de novo para ele.
      -E bem?
      A fria coloria suas bochechas e arrancava fascas de seus olhos.
      -Parece que est muito melhor. Como te encontra?
      Shannon elevou as mos e elevou os olhos ao cu.
      -Estupendamente. Onde demnios tem um telefone? -passou por diante dele, cruzou a porta e saiu ao enorme vestbulo.
      Olhou para os lados, sem saber onde ir.
      -Tem esses ataques freqentemente?
      -Isso no  teu assunto. Onde tem o telefone?
      -Responde a minha pergunta e lhe direi isso.
      Se um olhar pudesse matar, o de Shannon teria brocado o corao do Damien nesse mesmo instante.
      -Por que me trouxe para sua casa? -abriu os olhos de repente, como se acabasse de ocorrer-se o uma possvel resposta-. Estava inconsciente, verdade? Fez-me
algo?
      -Shannon, pelo amor de Deus. No me ocorre ir pela vida incomodando a mulheres que deliram. Traga-te aqui porque me dava medo te deixar sozinha. Estava muito
doente. Teria chamado a algum membro de sua famlia se tivesse sabido como localiz-lo. Mas no sabia, assim decidi te cuidar eu.
      -Eu no tenho famlia.
      -Ocorreu-te em outras ocasies, verdade?
      -Uma vez ou dois -se voltou e comeou a avanar pelo vestbulo, mas em direo equivocada.
      -Com quanta freqncia?
      Encolheu os ombros.
      -De todas as formas, a  voc o que  importa? -deteve-se os poucos metros e se voltou, ao parecer, decidida a trocar de direo.
      Quando passou por diante de Damien, este a agarrou pelo brao e comeou a caminhar com ela.
      -Nada. No me importa absolutamente nada. O telefone est no piso de abaixo, mas no o necessita. Levarei-te aonde voc queira.
      Shannon piscou e se deteve sobre seus passos.
      -De verdade? Quero dizer, no vais tentar... ?
      -O que pensava? Que tinha seqestrado voc?
      Shannon voltou a olh-lo aos olhos; os seus continuavam relampejando.
      -Deixaste-me encerrada.
      -E tinha motivos para faz-lo.
      Damien comeou a baixar as escadas, conduziu-a atravs de um corredor estreito at o seguinte lance e continuou baixando. Quando ao final chegaram ao primeiro
piso, guiou-a para a biblioteca e assinalou um sof de couro.
      Shannon se esticou e no se moveu da porta.
      -O que  isto? Hei-te dito que queria partir.
      -Shannon, quando ontem voc se meteu em minha casa e me pediu que te concedesse dez minutos, dava-lhe isso. O nico que te estou pedindo  que me devolva o
favor.
      Shannon inclinou a cabea para um lado; era como um animal desconfiado medindo as oportunidades que tinha ante seu depredador.
      -Pode partir quando quiser, no te deterei Tem um telefone em cima da escrivaninha -o assinalou. Shannon o olhou, umedeceu os lbios e assentiu.
      -De acordo. Dez minutos. Nenhum mais.
      Nenhum mais. Desgraadamente para ambos, ia ter que haver muitos mais. Inclusive teria que reter a  fora no caso de que se visse obrigado a isso.


      Por que demnios  teria ficado, escutando-o? Se o propunha, aquele tipo seria capaz de convencer a de que comprasse um pntano situado no deserto. Havia algo
especial nele...
      Shannon percorreu a biblioteca. A forma oval da habitao j no representava uma surpresa. As paredes curvas estavam cobertas de livros, a maior parte muito
antigos, com aquele maravilhoso aroma que desprendiam sempre os livros velhos. O sof e as cadeiras eram de couro. Novos. Seu aroma se fundia com o dos livros e
com aquela fragrncia to sutil distintiva do Damien.
      Shannon o olhou por cima do ombro. Estava no mesmo lugar que antes, olhando-a intensamente. Eram seus olhos, sim, isso era. Tinha uns olhos enormes, profundos
e expressivos. E to escuros... Combinados com sua melodiosa voz de tenor resultavam do mais persuasivo.
      -Ento, fala -disse, tentando parecer insensvel.
      No queria pensar que fora possvel que se equivocou com ele. No queria baixar suas defesas. E no pensava confiar naquele homem. Ela no confiava em ningum.
Tawny e ela s confiavam a uma na outra.
      -O que foi isso?
      Damien a sondou com o olhar. Aproximou-se dela e se deteve.
      -O que?
      -Por um instante, parecia... -umedeceu os lbios e sacudiu a cabea-. Nada, no importa. No  meu assunto.
      -Provavelmente no.
      Shannon se voltou e deslizou os dedos pelos lombos dos livros enquanto lia os ttulos. Mitologia Sumria. Os Deuses da Antigidade. A Epopia do Gilgamesh...
      -Sei que cr que fui eu que matei a sua amiga, mas como me conheo melhor que voc, temo que no esteja de acordo.
      Colocou-se atrs dela enquanto falava. Estava muito perto. Shannon notava sua proximidade como se fora eletricidade esttica; punha-lhe de ponta o plo da
nuca. Tentou concentrar-se nos ttulos. Viu outro volume sobre o Gilgamesh, e outro. Damien tinha vrias verses da mesma histria.
      -Tendo isso em conta, tenho que assumir que h outra pessoa responsvel por esse assassinato. E se estiver no certo, voc est em perigo.
      -Se estiver certo? Diz-o como se nem sequer voc estivesse convencido de ser inocente -se voltou a tempo de ver  Damien piscar como se acabasse de colocar
o dedo na chaga.
      -Pensei que poderia estar em perigo. Essa  a razo pela que segui a sua casa ontem de noite. E o motivo pelo que te traga aqui quando vi que estava muito
doente para se defender.
      -Sim, claro, e por que vou ter que acreditar em voc? Apenas me conhece, por que foste querer me proteger?
      - Qual alternativa tinha Shannon? Deixar voc ali e permitir que morrera? Me inteirar pelos peridicos de que tinha sido encontrado seu cadver?
      -Esta noite, amanh de noite... Que diferena pode haver? -algum encontraria seu cadver qualquer dia. Depois do ltimo ataque, no acreditava que fora a
agentar muito mais tempo.
      Damien franziu o cenho, escrutinando-a de tal maneira com o olhar que Shannon teve que voltar-se.
      -Se for  esse assassino  ataca voc, estar completamente indefesa.
      -Chamaram-me muitas coisas ao longo de minha vida, Damien. Mas ningum me considerou nunca uma pessoa indefesa.
      -Shannon...
      -Se ficar aqui, o assassino no tentar nada -quadrou os ombros e elevou o queixo- E se no tentar me matar, no poderei descobri-lo, entende-o?
      Damien posou as mos nos ombros de Shannon. Umas mos fortes, firmes, clidas e prementes.
      -Assim quer ataque voc.
      -Exato.
      -Isso  uma loucura. Matar-te -parecia estremecer-se ante a idia.
      -Desde meu ponto de vista,  perfeitamente sensato. E que mais d que me mate? Levarei a esse canalha comigo.
      -Vais arriscar sua vida...
      -No acredito que seja arriscar muito. E agora, me deixe partir.
      Damien deixou cair s mos a ambos os lados de seu corpo e fixou nela seu olhar de bano.
      -O que quer dizer com isso? No crie que seja arriscar muito?
      No interior de Shannon comeavam a crescer seus medos. Tentou batalhar contra eles. No ia falar disso. No podia pensar nisso. E sabia condenadamente bem
que quo ltimo faria seria chorar por isso. Os olhos lhe ardiam, mas pestanejou para apartar as lgrimas. O que tinha de mal a morte? A vida tampouco era precisamente
um caminho de rosas.
      -Agora penso partir. H dito que me deixaria ir. Assim que vou.
      -Sinto muito, Shannon, mas no posso.
      -Sabia que no podia confiar em ti!
      Deu-lhe um murro em pleno peito e sorriu satisfeita quando o viu retroceder cambaleante. Voltou-se e correu para a porta.
      -Fique a, maldita seja!
      As portas se fecharam violentamente, como se as tivesse sacudido um golpe de vento. Shannon arregalou os olhos e sentiu um estremecido calafrio na nuca.
      Voltou-se lentamente. Damien parecia zangado.
      -Como o h...?
      -Sou mago, recorda? -balbuciou Damien.
      -A... A casa est preparada para este tipo de truques?
      -Algo assim.
      -No pode me deter aqui.
      -No vou permitir que se suicides. Acredite-me, Shannon, eu no gosto disto mais que voc. Mas at que tenha desaparecido a ameaa, vou converter-me em sua
sombra.
      -Isso  uma estupidez. Voc te prope algo. Quer algo de mim. E faria bem o pondo diretamente sobre a mesa, Damien. Porque no me trago o que me est dizendo.
      Damien se umedeceu os lbios, arrastando com aquele gesto o olhar de Shannon e povoando sua mente de trridas imagens. Seus beijos. Deus, como seria seus beijos?
Aquela idia o fazia arder tanto por fora como por dentro.
      -Preciso ver o cadver -disse por fim.
      -Que necessita o que?
      -Quero ver sua amiga.
      -Pelo amor de Deus, por qu?
      Damien desviou o olhar e comeou a caminhar pela biblioteca.
      -Tenho que ver como morreu.
      Shannon voltou a piscar. Um frio glacial envolveu seu corao.
      -E o que crie que poder averiguar ao v-la? Tem alguma noo de patologia forense? Estudastes algo sobre a morte, Damien?
      Damien elevou o olhar e a olhou aos olhos. E Shannon pensou que no teria visto mais dor em seu olhar embora lhe tivesse disparado ao corao.
      -Estive estudando-a durante toda minha vida -sussurrou Damien.


      -Devo estar louca -sussurrou Shannon quase ao ouvido de Damien enquanto permaneciam agachados detrs  dos arbustos da entrada traseira do escritrio do mdico
forense de Arista-. Estive chamando dia atrs dia para tentar que a enterrassem. Dava-me largas me dizendo que ainda terei que lhe fazer muitas provas. Nem sequer
me deixaram v-la.
      Damien lhe rodeou a cintura com o brao e a fez estreitar-se contra ele. Shannon no parava de mover-se. A vigilncia clandestina no parecia ser um de seus
fortes como detetive particular.
      -Fique quieta -lhe advertiu.
      Mas ento foi ele o que teve problemas para seguir seus prprios conselhos. Seu brao continuava ao redor da estreita cintura de Shannon apesar das ordens
que emitia seu crebro para que se separar-se. O flanco direito de Shannon pressionava seu flanco esquerdo. Podia sentir a suavidade de seus seios, a curva de seus
quadris, a firmeza de suas coxas contra os seus. Aquilo era uma loucura.
      -No imaginava que algum ficasse at to tarde -disse Shannon, como se sua cercania no a afetasse absolutamente-. O que esto fazendo?
      Havia um carro fnebre com um emblema do governo e as siglas DIP pintadas em cor amarela na porta traseira. O chofer saiu, rodeou o veculo e abriu a porta
de atrs. Shannon se esticou ao lado de Damien.
      -A vo levar!
      -Podem levar-se a qualquer, Shannon.
      Shannon sacudiu a cabea e o olhou aos olhos com expresso atormentada. O corao lhe deu um tombo quando viu que das portas do centro saam dois homens empurrando
uma maca de rodas e se detinham atrs do carro.
      -Esse  o mdico forense -Shannon assinalou com a cabea ao mais deso dos dois, um homem gordinho com uma bata branca.
      O outro homem era mais alto, mais elegante em seus movimentos, de compleio forte, moreno e atrativo. Levava um traje cinza e um casaco comprido negro.
      -Ponha no relatrio que foi um suicdio -lhe disse este ltimo ao mdico forense.
      -Mas est essa detetive...
      -Poremo-nos em contato com ela, no se preocupe. J enfrentamos a situaes como esta em outras ocasies.
      O mdico e o chofer colocaram o cadver no carro enquanto o homem alto os contemplava com as mos nos bolsos. Sua respirao formava um bafo que ocultava seu
rosto.
      O mdico retornou ao interior do centro, sacudindo a cabea e murmurando para si enquanto o chofer fechava as portas do veculo. Depois, tanto o homem elegante
como o chofer se meteram no carro e se afastaram dali.
      Shannon tremia de ps a cabea.
      -Aonde a levam? No podem levar-se a dessa forma! Maldito seja Damien, me deixe partir.
      Damien a retinha com fora. Shannon esteve lutando at que o carro desapareceu de vista. E ento a abandonaram todas suas foras. Inclinou a cabea contra
Damien e suas lgrimas empaparam seu peito.
      -Deveria me haver deixado det-los.
      Damien enredou os dedos em seu cabelo e a acariciou uma e outra vez. Conhecia aquela dor. Sabia o que sentia Shannon naquele momento, o que tinha sentido da
morte de sua amiga. Sabia muito bem. Possivelmente esse fora outro dos motivos daquela cercania contra a que tinha estado lutando. A tristeza. A dor compartilhada.
      Continuou abraando a Shannon durante longo momento, enquanto ela chorava. No tinha tido oportunidade de ver o cadver, mas tinha estado suficientemente perto.
Durante uns instantes, tinha baixado as defesas de seu crebro para concentrar-se na mulher morta. Precisava praticar mais, afinar melhor sua mente. Mas tinha conseguido
averiguar uma coisa: a morte de Tawny Keller tinha sido obra de um vampiro.
      E Damien ainda no sabia se era ele aquele vampiro.
      Shannon se endireitou e se secou os olhos com tanta fora que quase lhe doeu.
      -Est passando algo, Damien. Esses homens eram agentes federais ou um pouco parecidos. Esse forense no mentiria a respeito de uma morte a no ser que no
ficasse outra opo, sei.  um homem honesto.
      Damien estava to desconcertado como Shannon.
      -No compreendo nada, a no ser que...
      Shannon elevou a cabea bruscamente.
      -A no ser o que?
      Damien sacudiu a cabea.
      -Ia dizer, a no ser que realmente criam na existncia dos vampiros. Mas isso  muito pouco provvel, no creio?
      Shannon se encolheu de ombros e desviou o olhar. Mas Damien continuava perguntando-lhe Se no se manteve to  margem dos de sua espcie, certamente saberia
algo mais. Seria o FBI consciente de sua existncia? E que demnios era isso do DIP?
      Shannon lhe tocou o brao.
      -Quero ir a casa.
      Apesar da escurido, Damien via perfeitamente seus olhos irritados pelo pranto.
      -Estaria mais segura em minha casa, acredito.
      -Posso cuidar de mim mesma. Me leve a minha casa ou a algum lugar do que possa chamar um txi. Voc escolhe -sorveu sonoramente.
      Damien a ajudou a levantar-se, rodeou-lhe os ombros com o brao e caminhou com ela pela calada at o lugar no que tinha deixado estacionado seu carro. A fria
brisa de outubro aoitava seus rostos.
      -Se insistir, levar-te-ei a seu apartamento. Mas poderia estar em perigo, Shannon. Estacionarei fora do edifcio e tentarei te vigiar de ali.
      -Sim, claro. E as vacas voam -abriu a porta de passageiros do resplandecente carro de Damien.
      Era um de seus caprichos. Um Jaguar. Damien gostava, gostava de sua rapidez, e seu aroma de novo. E assim que aquele aroma se esgotasse, compraria imediatamente
outro. Eram muito poucos os prazeres dos que desfrutava em sua vida.
      Shannon abriu a porta de passageiros e permaneceu ali, olhando  Damien por cima do carro.
      -Ento vais levar-me a minha casa ou no?
      -Sim, vou levar-te.
















 Captulo 5

      Damien permanecia sentado no carro frente ao edifcio que vivia Shannon. Um edifcio alto e estreito. Poucas janelas e muitos ocos na escada de incndios.
Os tijolos pareciam a ponto de derrubar-se. No podia dizer-se que fora uma runa, mas  Damien no gostava da idia de que Shannon vivesse ali.
      Shannon apareceu em duas ocasies ao balco e olhou para o carro. Damien se estremeceu ligeiramente ao v-la inclinar-se sobre o corrimo de ferro. Aquela
maldita coisa certamente no estaria em melhor estado que o resto da casa. Depois, viu-a correr as cortinas vrias vezes. Sabia que estava olhando-o, assegurando-se
de que ainda estava ali.
      Embora possivelmente tivesse feito melhor em partir.
      Damien no podia acreditar que tivesse sido ele o que tinha matado  outra mulher, mas tampouco podia ignorar aquela possibilidade. No sabia se aquele troco
em seus apetites era normal, algo que acontecia a todos os imortais com a idade. No sabia se outros tinham matado sem ser sequer conscientes disso. Seria possvel?
      Golpeou o volante com o punho, atormentado por todas aquelas perguntas. Naquele momento, Damien desejava no ter evitado o contato com outros imortais; desejava
ter algum a quem lhe perguntar por essas siglas, DIP, e pelo assassinato de Tawny Keller.
      Pensou nas cartas que tinha recebido desse cientista, Eric Marquand. Se algum podia lhe oferecer alguma luz sobre tudo aquilo, certamente era aquele jovem
curioso. Damien esboou uma careta ao pensar em pedir ajuda. A mera idia de ficar em contato com  Marquand o fazia sentir-se incmodo. Tinha vivido em solido durante
tanto tempo... Sua nica atadura sentimental era a que estabelecia com seus admiradores. Um homem podia viver sem amor, sem relaes, durante muito tempo. O pblico
lhe dava o que necessitava para sustentar-se. Era o nico amor que se permitia em sua solitria vida e era suficiente. Tinha que ser suficiente.
      Sacudiu a cabea lentamente. No, tentaria resolver aquele assunto por seus prprios meios. S utilizaria Eric Marquand e seus estudos como ltimo recurso.
E, enquanto isso vigiaria  Shannon e evitaria que lhe fizessem dano.
      Um trabalho que lhe resultaria muito mais fcil se pudesse lhe ler o pensamento. A possibilidade de voltar a tent-lo evocava o fantasma daquela dor intensa
e palpitante. Mesmo assim, era um dos benefcios de ser um vampiro. Deveria utilizar todas as ferramentas das que dispunha para resolver aquele mistrio, para mant-la
a salvo.
      Preparou-se para o que o esperava e muito, muito lentamente, comeou a baixar suas defesas at permitir que se filtrassem em sua mente uma mirade de sensaes
do exterior. Concentrava todas suas energias em Shannon, mantendo sua imagem em sua mente. Tentou sintonizar seus sentidos com os seus, sentir o que ela estava sentindo.
      Por um instante, envolveu-o uma quebra de onda de sensaes, mas se obrigou s suportar. Apertou os dentes enquanto se defendia daquele bombardeio e aumentou
sua concentrao. Pouco a pouco, a intensidade do bombardeio foi cedendo. Damien se esticou, procurou e tentou sintonizar a mente de Shannon e a sua.
      No estava no apartamento.
      Ergueu-se em seu assento enquanto lia seus pensamentos. Aborrecimento. Alarme. Tinha-lhe passado algo a seu carro. Estava saindo pela porta traseira do edifcio...
Ia para o estacionamento.
      Damien saiu disparado do carro e rodeou a toda velocidade o edifcio. Ali a viu, com os ps e as pernas nuas no meio do frio do outono. Levava uma camisola
azul curta e o cabelo recolhido em um rabo-de-cavalo que ricocheteava enquanto ela corria sobre a calada.
      Damien olhou na direo por volta da que corria e viu dois jovens agachados na porta de um Corvette que devia ter tantos anos como a prpria Shannon. Um dos
homens se voltou para v-la aproximar-se e soltou uma gargalhada. Shannon no diminuiu o passo. O ladro comeou a caminhar para ela e elevou a mo. Damien viu a
barra de ferro que sustentava e se lanou para diante sem saber se ia chegar a tempo. Os dois homens estavam j muito perto de Shannon e um deles estava a ponto
de deixar cair  barra sobre sua cabea.
      Mas Shannon elevou a mo, agarrou-o pela boneca e lhe plantou uma joelhada na virilha. O homem uivou enquanto se dobrava sobre si mesmo. A barra de ferro caiu
com grande estrondo sobre o pavimento. Damien ficou paralisado por um instante enquanto Shannon girava sobre si mesma, dava-lhe uma patada ao homem no queixo e o
atirava de costas. Tudo ocorreu em menos de um segundo.
      O segundo homem tirou uma pistola de seu jeans. Mas antes que tivesse podido apont-la, Shannon lhe deu uma patada e a arrancou da mo. Ele tentou lhe dar
ento um murro, mas Shannon se agachou a tempo e, quando se endireitou, sustentava na mo a barra de ferro que tinha deixado cair o outro ladro.
      O homem elevou as mos e retrocedeu.
      -De acordo, de acordo, voc ganha.
      Enquanto Damien corria para eles, o ladro ajudou a seu companheiro a levantar-se e os dois se afastaram correndo na escurido.
      Damien agarrou a Shannon do brao, ainda impressionado pelo que acabava de ver.
      -Est bem?
      Shannon assentiu, mas no disse nada; estava tentando recuperar a respirao. Damien se voltou para olhar aquele carro sem pintar. E estava a ponto de comear
a arreganh-la por ter arriscado a vida por uns quantos pedaos de metal, quando ouviu o inconfundvel clique do percussor de uma pistola. Elevou a cabea e sua
penetrante viso mostrou a um dos ladres apontando para Shannon com a arma.
      Damien se colocou frente a ela e se tornou para diante justo quando o disparo rasgava o silncio da noite. Sentiu  Shannon caindo no cho a baixo ele. E ele
sentiu que uma dor ardente o atravessava.


      Anthar observava atento at o mnimo gesto do pago, e sorriu para si. Esse canalha. Esse canalha blasfemo. Damien o Eterno. Mas esse nome j era o de menos.
      Aqueles valentes em cujas mentes tinha implantado Anthar a idia de roubar a aquela mulher eram dois estpidos, sim. Mas pelo menos um deles tinha sido capaz
de disparar  garota. E o infiel se havia interposto para lhe evitar a bala.
      Ao final, depois de milhares de anos, tinha comeado a preocupar-se com outro ser. Anthar tinha esperado tanto tempo, tinha tentado tantas vezes ferir o dessa
maneira... Mas Damien se mantinha encerrado em si mesmo, sem lhe guardar amor a ningum. Nem sequer s mulheres s que procurava de vez em quando. Anthar o observava
sempre entre as sombras, to escondido que Damien nem sequer podia sentir sua presena.
      Ah, mas aquela vez era diferente. Naquela ocasio havia algo mais. Algo que Anthar necessitava para ferir o da forma mais devastadora possvel. Mas devia atuar
com precauo. Tinha que assegurar-se de que o mais ancio dos imortais sentisse a dor ltima, a vergonha, o arrependimento... Tinha que estar seguro.
      E para isso fazia falta outra prova.

      Foram-se. Tinha-os ouvido correr e depois, o silncio. O corpo de Damien descansava pesadamente sobre o de Shannon. Ela estava de costas e ele tinha a cabea
perto de seu ombro.
      -Foram-se -disse Shannon-J pode te levantar. No sei por que vieste correndo como se fosse um cavalheiro andante ou algo assim. Eu posso cuidar de mim mesma.
      Posou a mo em seu ombro para apart-lo e tocou ento sua camisa empapada.
      -Damien!
      Damien  moveu-se lentamente. Doa-lhe muito faz-lo. Sentou-se e Shannon se levantou e se inclinou sobre ele. Sua camisa branca estava tinta de cor carmesim.
Damien  levou uma mo ao ombro e tentou levantar-se.
      Shannon se levantou para ajud-lo, deslizou o brao por sua cintura e o sustentou com firmeza.
      -Maldito seja, Damien, moveste-te e recebeste voc o disparo. Como te ocorreu saltar dessa forma sobre mim? -caminhou para a entrada do edifcio, arrastando-o
com ela.
      Damien baixou o olhar para  Shannon. Quase ria de alivio ao ver que tinha chegado a tempo.
      -Estava-te apontando  cabea. Supunha-se que tinha que ficar quieto enquanto lhe disparavam?
      -Sim! -Shannon chegou at a porta e a sujeitou com o quadril enquanto o ajudava a passar-. Maldito seja voc vais sangrar at morrer.
      No ia se sangrar at morrer. De fato, a ferida era leve, a pesar da espantosa dor que lhe causava. O ombro ainda lhe ardia. Mas o esperava. Uma das coisas
que tinha aprendido sobre o que era, como ele era que a sensibilidade  dor e aos estmulos fsicos se incrementava com a idade, ao igual  fora e os poderes psquicos.
Quanto  possibilidade de sangrar-se, no lhe preocupava muito. Poderia manter pressionada a ferida at o amanhecer. E durante o dia, a ferida sanaria com o sonho
regenerador. De fato, qualquer ferida o faria.
      O que lhe preocupava, alm da dor do ombro, era a sensao da mo do Shannon em sua cintura. O modo no que se estreitava a jovem contra ele enquanto entravam
no elevador. O apresso com o que elevava o olhar para ele. Seu aroma. Seu calor.
      -Est plido, sangra muito?
      -Sempre estou plido. E no, no  nada.
      -Claro que  algo. Chamaremos uma ambulncia do apartamento.
      Damien negou com a cabea, mas observou a determinao de Shannon.
      -Por que saste correndo em meio da noite? Por que arriscaste sua vida quando poderia hav-lo solucionado chamando  polcia?
      -Brinca? Quando tivesse chegado  polcia, meu carro j teria desaparecido. Sabe quanto tive que trabalhar para pagar as letras desse carro?
      -Os Corvettes nunca so baratos.
      Abriram-se as portas do elevador.
      -No  s um Corvette.  um Stingray de 1962 com um motor que poderia deixar atirado a seu Jaguar.
      Damien sorriu. No pde evit-lo.
      - o carro de seus sonhos?
      -Total e absolutamente. Ningum se mete com ele.
      -Terei-o em conta.
      Shannon se deteve na porta de seu apartamento e a empurrou para abri-la. No a tinha fechado e isso incomodou a Damien quase tanto como a ferida, mas domin
as vontades de fazer um comentrio. J tinha podido comprovar por que insistia tanto Shannon em que sabia cuidar de si mesmo. Tinha-o feito at ento e no lhe tinha
ido nada mal.
      Shannon o ajudou a entrar na casa, fechou a porta com o p e no soltou ao Damien at que o deixou no sof. Correu para a porta e fechou com chave. Continuando,
ajoelhou-se frente a ele e lhe rasgou a manga da camisa. Depois, tentou lhe apartar a mo para poder examinar a ferida.
      -S  um arranho.
      -Sangra muito para que seja s um arranho.
      -Estou acostumado a sangrar muito, mas me porei bem.
      Shannon o olhou com o cenho franzido.
      -N, essa bala era para mim. O menos que posso fazer  te olhar a ferida -alargou a mo de novo para seu ombro, mas Damien a apartou.
      -Ento admite que provavelmente acabo de salvar a sua vida?
      Shannon se ergueu e ps os braos em jarras.
      -Sim, provavelmente me salvaste a vida.
      -Arriscando a minha? -Shannon no disse nada, mas inclinou a cabea para um lado-. E bem?
      -De acordo, sim, admito-o. Aonde quer chegar?
      -Quero que admita que no estou planejando  matar voc, para comear -se levantou sem esperar resposta e se dirigiu ao quarto de banho.
      Sentia-se dbil, certamente devido  quantidade de sangue que tinha perdido. Fechou a porta do banho atrs dele. Um lugar que no queria compartilhar com
Shannon era o quarto de banho, onde os espelhos abundavam. Mas sentia sua presena incluso com a porta fechada. Estava na toalha mida que pendurava da ducha, e
nas roupas que tinha deixado no cho. E no perfume que utilizava. Um perfume sutil. Mais tentador que as flores ou as essncias frutferas. Cheirava a ervas. Era
um aroma extico, como o do incenso ou as especiarias. E o impregnava tudo. Inclusive o ar.
      Damien abriu o armrio e tentou tirar Shannon de sua mente e concentrar-se no que realmente importava naquele momento, em aplicar algo  ferida que pudesse
deter a hemorragia at o amanhecer. Se for necessrio, permaneceria durante as seguintes horas pressionando a ferida com a mo, mas preferiria no faz-lo.
      Encontrou um cilindro de gaze e esparadrapo. Uma escova de cabelo com alguns fios de cabelo de cor mel apanhou seu olhar. Aquela juba loira era como um halo
ao redor do rosto de Shannon, como algo irreal. Tinha o cabelo de um anjo, havia dito Netty.
      Maldita fora, tinha que deixar de pensar nela.
      Tirou-se a camisa, rasgando-a para no cessar de pressionar a ferida. Atirou-a ao cubo da roupa suja e, com uma mo, deixou cair um monto de gaze sobre a
pia.
      Shannon bateu na porta.
      -Est bem?
      -Sim, Shannon, tranqila.
      -Me deixe passar. Quero  ajudar voc.
      -Agora mesmo saio.
      -Maldito seja, Damien...
      -Comea a te repetir, Shannon -no acreditava que as gazes bastassem para fechar a ferida e olhou a seu redor procurando algo mais substancial-. Diga-Me uma
coisa? Por que no saste com a pistola?
      -Porque se me tivesse levado isso, teria matado a esses tipos -golpeou de novo a porta-. Abre essa maldita porta!
      -No.
      -Estupendo, como queira. No armrio h uma lata marrom.  um ungento feito de seiva de pinheiro.  um antigo remdio. Se for muito cabea dura para ir ao
mdico, ponha um pouco. Deter-te a hemorragia.
      Damien franziu o cenho; havia um ligeiro tremor na voz de Shannon. Um tremor que desmentia a aparente despreocupao que tentava imprimir a suas palavras.
Damien localizou a tampa, abriu-a e farejou seu contedo. Pinheiro. Merecia a pena prov-lo.
      -Encontraste-a?
      -Sim, fede.
      -Te jogue esse ungento na ferida.
      Damien assentiu, afundou dois dedos na lata e apartou um instante a mo da ferida. O sangue comeou a brotar imediatamente, mas Damien foi capaz de sujeitar
as bordar da ferida e mant-los juntos. Depois se esfregou aquela substncia espessa sobre a ferida.
      Foi quase instantneo. O sangue deixou de fluir. No sem receio, foi diminuindo a presso de seus dedos. Mas a carne no se separava. Aquele ungento tinha
selado a ferida. Sacudiu a cabea com incredulidade.
      -Damien? Est bem?
      -Sim, estou bem. Sua mistura funcionou que uma forma surpreendente.
      Pressionou uma gaze contra a ferida, tomou um pedao de esparadrapo e a fixou ali. Continuando, abriu a torneira da pia e tirou o sangue do peito, do ombro
e da mo.
      No abriu a porta at que teve feito desaparecer todo rastro de sangue. E quando o fez, Shannon continuava ali. E Damien no teria podido passar por cima como
trocou sua tensa postura por outra mais relaxada assim que o viu sair. Distinguiu em seus olhos sua preocupao e seu medo por ele, e se comoveu apesar de si mesmo.
Depois, Shannon baixou o olhar para seu peito descoberto e continuou descendendo at o broche de suas calas. Ruborizou-se ligeiramente e Damien se ruborizou tambm,
desejando ao mesmo tempo ter a         energia suficiente para poder lhe ler naquele momento seus pensamentos.
      -Estpido.
      Damien pestanejou.
      -Perdo?
      - um estpido, no sei como te ocorreu te encerrar dessa forma. O que teria passado se voc tivesse desacordado n? O que se supunha que teria que ter feito?
Arremessar a porta a patadas?
      Damien soltou uma gargalhada. Mas s conseguiu zang-la ainda mais, de modo que se obrigou a deixar de rir.
      -Tem uma forma muito estranha de mostrar gratido.
      -Gratido? Crie que te estou agradecida porque estiveste a ponto de morrer em meu lugar? Como pode ser to... Duro de entender? Como volta a dizer uma tolice
como essa, eu... -pestanejou rapidamente e voltou  cabea, mas Damien teve tempo de ver a umidade que fez brilhar seus olhos.
      Algo estranho se formou em sua garganta. Elevou a mo e, sem pretend-lo, posou-a sobre o ombro de Shannon. Sua juba lhe roou os ndulos, lhe fazendo tremer.
      -Shannon...
      Shannon evitou seu contato, dirigiu-se ao centro da habitao e se voltou para ele com o semblante completamente inexpressivo.
      -Eu no acredito que a inteno de roubo de meu carro esteja relacionado com o outro assunto, e voc?
      -Inclino-me a pensar que no. Acredito que lhe dispararam porque te lanou sobre eles como um esquadro de cavalaria.
      -Sim, bom, se no o tivesse feito, teriam levado meu carro.
      -Como te inteiraste que lhe estavam roubando?
      Shannon se voltou de novo, caminhou at o sof e se deixou cair nele como se estivesse esgotada.
      -Tenho um sistema de alarme por controle remoto. Se algum tenta meter-se no carro, este pequeno dispositivo que tenho na bolsa me avisa -se apartou o cabelo
da cara com uma mo e ficou de repente paralisada-. E voc como te inteiraste?
      -Eu... -Damien apartou os olhos de seu penetrante olhar-... Estava dando um passeio ao redor do edifcio, para me assegurar de que no ocorria nada fora do
normal. Ouvi-os, mas quando quis chegar -se voltou para ela, tentando averiguar algo mais do que seu formoso rosto revelava-, j estava chutando-os. Onde aprendeste
a brigar dessa maneira?
      -Principalmente, graas ao mtodo de ensaio e engano. Tawny e eu estvamos acostumados a praticar juntas. Normalmente terminvamos feridas, mas quando se 
uma menina e se vive na rua, ter que saber defender-se. Ela  to boa como eu. Quero dizer, era... Esse  o motivo pelo que no compreendo...
      Interrompeu-se de repente e se umedeceu os lbios. Damien sabia o que ia dizer. Por que no tinha lutado Tawny contra seu atacante? Mas a resposta era muito
singela. Um vampiro no tinha por que atacar a suas vtimas. Seduzia-as e elas lhe ofereciam voluntariamente.
      A culpa lhe roia as vsceras e no era capaz de lhe sustentar o olhar. Algum imortal tinha recompensado a boa disposio de Tawny, sua confiana quase infantil,
com a morte. Algum imortal, sim, mas quem?
      No tinha sido ele. No podia ter sido ele.
      -No foi voc, verdade? -Shannon se levantou, aproximou-se dele e o olhou com os olhos entrecerrados-. No seria capaz de salvar a uma desconhecida se tivesse
suficiente sangue-frio para matar a outra, verdade?
      - obvio que no.
      Mas, e se o tinha feito? E se tinha matado a uma pobre inocente e Shannon fora a seguinte da lista? Possivelmente a prxima vez a sede fora insuportvel e
poderia chegar a dominar sua vontade. Que Inanna o salvasse, mas a fragrncia de Shannon, o calor de sua pele, comeavam a meter-se o sob a pele. Podia ouvir o doce
fluir de seu sangue nas veias. Podia cheir-lo. E era to suave, to formosa... Desejava-a...
      -Em realidade no acredito que fosse capaz.
      -O que? -Damien tentou liberar-se das vozes que povoavam sua mente.
      -Quando antes h dito que ficaria aqui, me vigiando, no me acreditei isso. A verdade  que me surpreendeste -franziu o cenho e se afastou lentamente dele,
inclinando a cabea enquanto caminhava-. Assim, se no ir me matar, o que   que buscas?
      Damien baixou o olhar para o cho e sacudiu a cabea.
      -Acredito que deveria partir.
      -Por qu?
      Damien se estava dirigindo j para a porta quando Shannon lhe fez aquela pergunta. Ficou onde estava de costas a ela. Quando sentiu o calor de seu corpo atrs
dele, ficou rgido.
      -Est de acordo comigo em que os ladres de carros provavelmente no tenham nenhuma relao com o assassino. De modo que o assassino ainda poderia voltar a
tent-lo, no  certo?
      Damien fechou os olhos. A fragrncia de Shannon assaltou seus sentidos.
      -Possivelmente o seja.
      -Ento, fique.
      OH, aquilo no estava bem; aquele rugido interior que o urgia a voltar-se e a estreit-la contra seu peito. A tomar sua boca at deix-la sem respirao e...
No, no estaria bem. No seria suficiente para saciar a intensidade de sua sede. E no era s a sede a que nessa ocasio fazia arder suas vsceras, mas tambm o
desejo.
      Shannon posou a mo sobre seu ombro ferido.
      -Olhe, Damien, salvaste-me a vida. Por muito que odeie lhe dever nada a ningum, no posso passar por cima algo to importante. Ontem de noite, quando estava
doente, levou-me a sua casa. Agora s quero te devolver o favor.
      Damien sacudiu a cabea e abriu a porta.
      -Durante o dia estar a salvo.
      -Durante o dia? O que...?
      -At ento, estarei atento de ti, mas no aqui, a no ser do carro. E se baixas, Shannon, no posso te garantir nada, assim, por favor, fica em casa.
      -Mas eu...
      -Boa noite -saiu ao corredor, fechou a porta atrs dele e correu para as escadas antes de que Shannon pudesse abrir a porta outra vez.
      Muito bem, equivocou-se na hora de julgar a esse tipo. Damien tinha aparecido em duas ocasies, justo no momento no que necessitava ajuda. E at ento, no
lhe tinha pedido nada em troca.
       obvio Shannon no era nenhuma estpida. Damien queria algo. Ningum ajudava a ningum sem ter uma boa razo para isso. E ela o tinha descoberto da forma
mais dura. Tinha-o aprendida graas a adorvel famlia que a tinha acolhido e com a que ao princpio todo parecia ir sobre rodas. Todas essas estupidez sobre que
adoravam aos meninos porque no tinham podido ter filhos e sobre sua vontade de ajudar a uma pobre adolescente que tinha perdido j toda esperana de ser adotada...
      Tawny levava j um ms com eles quando Shannon tinha ido viver ali. Ela procedia de outra instituio; ento Shannon j as conhecia quase todas. Tinha sido
quase um milagre que no se conheceram antes, pois seus caminhos se cruzaram centenas de vezes. Ao princpio se odiaram com todas suas foras. Mas depois tinha comeado
a loucura. O senhor Grayson tinha algumas idias doentias. E sua esposa sabia, mas era muito covarde para permitir que ele soubesse que estava a par do que ocorria.
      Qualquer que pensasse que duas adolescentes de dezesseis anos no podiam defender-se ss nas ruas deveria tentar viver uma situao parecida durante algum
tempo. As ruas era um passeio depois de uma experincia como aquela.
      Deus, pensar que Tawny tinha superado todo aquele inferno para terminar morta... Por que demnios se incomodaram em sobreviver a tudo aquilo?
      Mas aquele tipo de pensamentos roava a auto compaixo, assim apagou sua mente como se de uma piarra se tratasse e comeou de novo. Damien. Sim, estava pensando
no Damien e no que podia querer dela.
      Por um segundo, teria jurado que era sexo. Mas tinha descartado aquela idia assim que tinha pensado seriamente nisso. Damien podia ter a qualquer mulher que
quisesse, por que demnio ia interessar- lhe por  algum como ela?
      Tinha que haver algo mais. E sabia que averigu-lo era s questo de tempo.









 Captulo 6

      Shannon passou pelo escritrio pela primeira vez desde fazia trs dias. At ento, a nica pista que tinha encontrado sobre a morte de Tawny era Damien e j
no estava to segura de que aquele tipo fora outra coisa que um mago excntrico que era capaz de fazer o que fora para preservar o mistrio de seu personagem.
      -Shannon, onde estiveste? Estava comeando a pensar que tinha abandonado o negcio.
      Shannon lhe dirigiu um sorriso a Sal, que permanecia na porta da pizzaria com um avental branco cobrindo sua pronunciada barriga.
      -Ol, Sal. No, no deixei o negcio, mas estive muito ocupada. Alguma nova notcia?
      -O ms que vem sobem o aluguel.
      -Outra vez?
      -Provavelmente tenha uma carta esperando voc. A minha me chegou ontem.
      -Este lugar no se merece o dinheiro que estamos pagando por ele -grunhiu Shannon.
      Abriu a porta que havia ao lado da do estabelecimento de Sal e comeou a subir as escadas. Sal a chamou do p da escada.
      -Poderia pagar o aluguel sem problemas se no tivesse um carro to luxuoso.
      -Me continua recordando isso. Mas ser mais luxuoso assim que possa economizar o suficiente para pint-lo.
      -No tem bom aspecto, Shannon. Come bem?
      -Seguro que hoje comerei estupendamente -chegou ao final da escada, abriu a porta de seu escritrio e se voltou-. Quero dois sanduches para o almoo.
      -Completos, mas sem anchovas. J sei como voc gosta.
      Shannon sorriu, abriu a porta e entrou em seu escritrio. O homem que a esperava sentado atrs de seu escritrio se levantou, deixou a pasta que tinha estado
revisando a um lado e entreabriu os lbios para dizer algo, mas pareceu pensar-lhe e os fechou. Baixou o olhar para o revlver com o que Shannon o estava apontando.
      -Quem  voc e que demnio est fazendo em meu escritrio?
      O homem se umedeceu nervoso os lbios. E ento Shannon o reconheceu. Era um dos tipos que se levaram o cadver de Tawny.
      -Tranqilize-se e baixe essa pistola. Identificarei-me.
      -Se saca do bolso algo que no seja a carteira, vai terminar com um buraco na cabea.
      O homem colocou a mo em um dos bolsos da jaqueta e tirou uma carteira de couro. A tendeu. Shannon tomou sem apartar o olhar dele e a abriu. Olhou a fotografia
de sua documentao pela extremidade do olho, Stephen Bachman. Baixou o olhar uns milmetros mais e piscou assombrada.
      -A CIA?
      -Uma de suas subdivises.
      -Qual?
      -Isso agora no importa.
      Shannon voltou a olh-lo com ateno. Alto, de ombros largos. Tinha um corpo artstico e o cabelo negro e ligeiramente encaracolado nas pontas. Levava um traje
cinza e uma camisa branca. E sob seu brao esquerdo se adivinhava um vulto.
      -Deixe sua arma na mesa, senhor Bachman. Devagar.
      Bachman assentiu, tirou a pistola e a deixou sobre a mesa. Shannon se aproximou, tomou e a meteu na cintura da cala.
      -Como entrou aqui?
      -J o hei dito. Sou da CIA.
      Shannon baixou o olhar para a pasta que Bachman tinha estado lendo e franziu o cenho.
      -E que motivos tem a CIA para envolver-se em um assassinato?
      -OH, vamos, senhorita Mallory. Ambos sabemos que este no foi um assassinato normal. Agora posso me sentar?
      Shannon assentiu e se colocou detrs de sua escrivaninha enquanto Bachman se sentava.
      -Que demnios est acontecendo aqui?
      -Foi voc quem a encontrou, por que no me diz isso?
      -O que quer de mim, Bachman?
      -Quero que me fale de Tawny Keller e de voc. E de tudo o que cria saber sobre o caso.
      -Por que deveria faz-lo?
      Bachman se encolheu de ombros e apertou os lbios.
      -Porque ambos queremos o mesmo: apanhar o assassino. E porque, se no o fizer, tirarei-lhe sua licena de detetive antes do meio-dia.
      -Assim sabe como convencer a uma garota, n? Direi-lhe o que quer saber se antes responde a um par de perguntas -no ia dizer lhe absolutamente nada. Por isso
sabia dele, todo aquilo podia ser um engano.
      -O que  o que quer saber?
      -Por que no pode me entregar o corpo de Tawny? Quero lhe celebrar um enterro -conhecia de antemo a resposta a aquela pergunta. Esperou.
      -Ter que conformar-se com um funeral. No vamos entregar lhe o cadver.
      -Por qu?
      -Agora  propriedade do governo federal. E isso  quo nico precisa saber.
      -E que demnios tm feito com ela, Bachman? Sei que a transladaram, onde est?
      - uma boa detetive, verdade? Como sabe que a movemos?
      -O forense me estava tirando o sarro e eu tinha minhas suspeitas. Simplesmente, confirmei-as.
      -No est mau. Mas no posso lhe dizer onde est, sinto-o -olhou o relgio-. Quer me fazer a seguinte pergunta? No tenho todo o dia.
      Shannon lutou contra uma quebra de onda de raiva.
      -Como morreu realmente?
      -Sangrada.
      -Isso j sei. O que quero dizer , como...?
      Bachman a olhou fixamente.
      -Oxal soubesse.
      Era uma mentira to evidente... Aquele homem queria assegurar-se de que Shannon soubesse que estava mentindo. O muito canalha...
      -Agora me toca senhorita Mallory. Sabemos que foi ao mdico em quatro ocasies durante este ltimo ms, que problema tem?
      -No tenho nenhum problema.
      -Eu pensava que ia colaborar.
      -E o estou fazendo. No tenho nada, eram simples verificaes.
      -Posso comprovar essa informao.
      -E por que ser que no me surpreende?
      Bachman a estudou durante comprido momento. Ao parecer, no sabia se Shannon estava tomando-lhe  ligeira ou sendo brutalmente honesta.
      -Viu muito Damien Namtar durante os ltimos dois dias?
      Shannon piscou, mas evitou refletir sua surpresa.
      -Esto-me vigiando?
      -Ainda no.
      -E a ele?
      -Preciso saber por que o esteve vendo ultimamente.
      De modo que a CIA estava seguindo  Damien. Perguntou-se se ele saberia.
      -Sou sua admiradora -respondeu-. H algo que deva saber sobre ele?
      -No estou seguro de que no saiba a estas alturas.
      A expresso de desconcerto de Shannon foi completamente sincera.
      -Acredita que tem algo que ver com o assassinato?
      -Algo  possvel.
      Bachman estava falando, mas no estava lhe dizendo absolutamente nada.
      -Nesse caso, possivelmente deva tomar cuidado.
      -O que deveria fazer  manter-se afastada dele.
      Era uma advertncia? O que era o que sabia aquele tipo?
      -Estou  corrente de seu passado, e do da vtima -lhe advertiu Bachman.
      -Tawny. chamava-se Tawny. Utilize seu nome.
      Bachman abriu a maleta que tinha no regao e tirou uma caderneta.
      -Como quero. Ambas estavam sob a tutela do Estado e estiveram em um lar de acolhida do Flatbush. Escaparam juntas. Ela era uma prostituta, como conseguiu sobreviver
voc? Dedicava-se a quo mesmo ela?
      Shannon tirou a pistola de Bachman e o apontou com ela.
      -Seu tempo terminou Bachman. Saia imediatamente daqui.
      -Ainda no terminei -fechou a caderneta e depois a maleta.
      -Pois como no se v imediatamente, ter terminado de forma definitiva.
      -De acordo. H outras formas de averiguar o que preciso saber -alargou a mo para a pasta que havia em cima do escritrio, mas Shannon posou o dedo sobre o
gatilho.
      Bachman ficou paralisado e se voltou para ela. Era aborrecimento, no medo, o que Shannon viu em seus olhos.
      -Poderia coloc-la no crcere por isso.
      -E eu poderia lhe voar os miolos e dizer que o confundi com um ladro. Deixe essa pasta e largue-se.
      O olhar de Bachman se obscureceu, mas deixou cair  mo. Shannon lhe abriu a porta e se tornou a um lado. Antes de sair, Bachman se voltou para ela.
      -Procure manter a boca fechada sobre a morte de sua amiga, senhorita Mallory. Foi um suicdio e no momento no que lhe ocorra dizer algo diferente, voc tambm
poderia desaparecer.
      -Se acreditar que vou abandonar o caso, equivoca-se.
      -No ficar outra opo. Falo a srio. No sabe ao que se est enfrentando.
      Shannon lhe fechou a porta nos narizes. Custou-lhe cinco segundos decidir-se a segui-lo quando partiu e, enquanto o fazia se desfia os miolos procurando resposta.
Que interesse podia ter o governo na morte de uma prostituta? Tinha que ser pela forma em que tinha morrido, sim, tinha que ser isso, mas, como tinha morrido Tawny
exatamente? E por qu?
      Tinha a sensao de que Bachman sabia. Mas o muito canalha no ia falar.

      Damien estudou minuciosamente as pginas da nova traduo procurando, sempre procurando. Mas o que? Por muitas pranchas de pedra que se descobria enterradas
na areia do Iraque, por muitos smbolos cuneiformes que explicassem a histria do heri Gilgamesh, jamais recolheriam o verdadeiro final da histria.
      Fechou o livro e o atirou bruscamente ao cho. Os olhos lhe ardiam. Cada vez que voltava a ler aquelas histrias revivia a dor. Que estpido. Tinha passado
j muito tempo. Netty se esclareceu garganta, reclamando sua ateno.
      -Tem visita.
      Netty se tornou a um lado e apareceu Shannon na porta da biblioteca, olhando-o fixamente. Baixou o olhar para o livro que Damien acabava de atirar ao cho.
      -Se chegar em um mau momento...
      Damien sacudiu a cabea rapidamente e se levantou.
      -No, s foi um momento de raiva.
      -Esta noite tem muito melhor aspecto, verdade, senhor? Tem mais cor nas bochechas -Netty aplaudiu o brao de Shannon-. Trarei um ponche quente para que se
tire o frio.
      -De verdade, no faz... -Shannon se interrompeu.
      Netty j tinha sado correndo.
      Shannon sacudiu a cabea e sorriu ligeiramente. Damien era incapaz de apartar o olhar dela. E advertiu a preocupao que refletiam seus olhos.
      -Que passou?
      -Olhe, no sei por que demnios estou aqui, exceto possivelmente porque acredito que lhe devo isso. Por isso e porque tenho uma boa intuio No para decidir
em quem posso confiar ou em quem no, mas me permite diferenciar a quem me vai cortar o pescoo daquele que se conforma me tirando a carteira.
      Damien franziu o cenho; Shannon estava nervosa.
      -No confia em ningum.
      -Exato.
      -Contou-me que Tawny e voc tinham aprendido a lhes defender na rua. Isso significa...
      -Agora no importa.
      -Se, claro que importa -A olhou fixamente Aqueles enormes olhos ambarinos pareciam querer apanh-lo-. Onde est sua famlia?
      -Minha me me abandonou quando era um beb. Nem sequer me lembro dela.
      -Ento lhe adotaram?
      Shannon curvou ligeiramente os lbios
      -Contaram-me que era uma menina doentia. Magra, asmtica. Cresci sob a tutela do Estado, conheci montes de centros e lares de acolhida. A Tawny a conheci
em um deles -voltou ligeiramente a cabea e brincou com uma mecha de cabelo que serpenteava por seu ombro.
      -E depois? -quis saber Damien.
      -As coisas ficaram difceis. Decidimos que estaramos melhor sozinhas, e assim foi.
      Damien considerou a possibilidade de lhe ler o pensamento.
      -Quantos anos tinham?
      -Dezesseis! E isso  tudo o que vou contar a voc. Vim aqui, Damien, apesar de que no confio em ti, porque desconfio menos de ti que do outro tipo.
      Tinha trocado de tema com tanta firmeza que Damien compreendeu que no ia dizer uma palavra mais a respeito de seu passado.
      - Que outro tipo?
      Shannon entrou na habitao. Aproximou-se da chamin e se sentou frente a ela como se queria absorver seu calor.
      -Nas ruas, quando algum lhe faz algo mau, voc o devolve imediatamente. Mas tambm funciona o contrrio. Suponho que no me pude tirar nunca esse maldito
cdigo da cabea. Voc me ajudou, assim aqui estou. Possivelmente seja uma estpida, mas o caso  que estou aqui.
      Damien se aproximou dela, desejando poder lhe ver a cara. Compreendia melhor a dor causada pela perda de Tawny depois de suas palavras. Tinham estado juntas
desde que eram quase umas meninas. Deviam ser como irms.
      -Shannon, no tenho nem idia da que te refere.
      Shannon se voltou para ele. Estavam to perto que Damien quase podia sentir seu flego no rosto.
      -Acredito que tem problemas Damien. Acredito que nos dois os temos.
      Mas o apresso desapareceu de seus olhos quando olhou por cima de Damien Este se voltou com o cenho franzido e viu a Netty na porta com uma taa fumegante na
mo. A criada deu um passo adiante com um sorriso enquanto a aproximar-se  de  Shannon.
      -Obrigado, Netty -bebeu um sorvo-. Mmm. Maravilhoso, voc no quer? -olhou a Damien.
      -Ele nunca toma nada. Surpreende-me que no tenha desaparecido ante meus olhos.
      - tudo por hoje Netty. Volta para casa com seus netos.
      Netty assentiu, enviou a Shannon um beijo e se despediu com a mo enquanto ia em busca de seu casaco. Shannon bebeu um novo sorvo, aproximou-se do livro que
permanecia atirado no cho e o recolheu.
      -OH. Gilgamesh outra vez. Tem lido muito sobre ele verdade?
      - uma de minhas afeies.
      -No parece que seja uma afeio muito agradvel. No parecia muito contente com o que tem lido.
      -Com o que no estou contente  com o que no encontrei no livro. Mas essa  outra questo
      -Posso me levar o livro a minha casa? Eu gostaria de l-lo.
      Damien assentiu.
      -Resultar-te mortalmente aborrecido. So histrias velhas que j no interessam a ningum. H dito que tinha problemas, Shannon.
      Shannon deixou o livro cuidadosamente sobre a mesa.
      -Hei dito que temos problemas.
      Tirou-se a mochila e a deixou no cho, ajoelhou-se, abriu a ponchete e tirou um monto de papis de seu interior. Havia pastas, cadernetas, fotografias e envelopes.
      -Pensei que deveria ver isto.
      -Que ?
      -No estou segura, ainda no o revisei tudo -elevou o olhar para ele. Estava emocionada, assustada possivelmente, mas tambm doda-. Damien sabia que a CIA
te tem sob vigilncia?
      -A CIA? -esteve a ponto de soltar uma gargalhada.
      Mas viu ento que Shannon estava franzindo o cenho e soube que falava a srio. Sacudiu lentamente a cabea e se sentou frente a ela
      -Shannon, que ocorre?
      -Esse tipo do traje se colocou hoje em meu escritrio era o mesmo homem que vimos ontem  noite com o mdico forense. Levava um carto de identificao da
CIA de uma de suas subdivises, h dito ele. Deve ser a DIH. Queria sab-lo tudo sobre a Tawny e sobre mim e comeou a me perguntar por voc. Ameaou-me tirando
a licena de detetive se no falava.
      -Ameaou-te?
      -No se preocupe no lhe hei dito nada, mas sabia que ultimamente tinha estado contigo e, mas ou menos, veio a me dizer que lhe estavam vigiando -sacudiu a
cabea-. Tem idia de por que podem estar interessados em voc?
      Damien negou com a cabea. S lhe ocorria uma razo, mas era impossvel. Nenhuma agncia do governo se tomaria suficientemente a srio a existncia de vampiros
para investig-los. De modo que tinha que ser um pouco relacionado com o do assassinato.
      -Diz que lhe perguntaram pelo Tawny.
      -No vo devolver seu cadver Damien. No me h dito aonde a levaram nem por que, s que agora  propriedade do governo e... Nem sequer vou poder enterr-la
-quando elevou o olhar, tinha os olhos cheios de lgrimas-. Ele sabe como morreu, estou segura. Mas no me dir isso. Tenho que averigu-lo Damien. Compreende-o?
Tenho que saber o que ocorreu.
      Estava sofrendo. Estala sofrendo porque sua melhor amiga tinha morrido. E Damien conhecia perfeitamente aquela dor. Alargou a mo para seu rosto e lhe acariciou
a juba, desejando poder fazer algo mais por ela.
      -Sinto muito Shannon. Sei o muito que di perder a algum a quem quer, no h uma dor que o iguale.
      E no aliviaria sua dor saber como tinha morrido Tawny. Shannon jamais lhe acreditaria se lhe dissesse que a tinha matado um vampiro.
      Shannon se endireitou e o olhou fixamente aos olhos.
      -A quem perdeu?
      O rosto do Enkidu apareceu em sua mente e sua risada pareceu encher seus ouvidos.
      -A um amigo -explicou-. Era como um irmo, como minha outra metade. Fazamo-lo tudo juntos...
      Damien tragou o n que tinha na garganta e escrutinou seu rosto. Fazia sculos que no expressava sua angstia em voz alta.
      -Mas ele morreu -sussurrou Shannon-, e agora vive como um ermito -inclinou a cabea para o lado. --Essa  a razo? Tem medo de fazer mais amigos porque poderia
perd-los algum dia?
      -No  uma possibilidade. A morte lhe est garantida a todos os mortais do planeta.
      -Sou perfeitamente consciente disso. Mas a vida  muito curta para viv-la sozinho.
      Damien sorriu em um intento de rebaixar a tenso.
      -Olha quem fala. Vi a centenas de pessoas chamando a sua porta.
      -No, mas no porque evite fazer amigos. Eu no me isolei do mundo, Damien, como faz voc. Meu problema  que no estabeleo vnculos.
      Elevou o olhar enquanto falava. O fogo da chamin se refletia em seus olhos e fazia resplandecer seu cabelo com se fosse de ouro. Estaria estabelecendo alguma
classe de vnculo com ele? Os deuses fariam bem em ajud-lo se esse era o caso. Shannon era realmente formosa. Tinha um aspecto frgil e uma pele to delicada como
as ptalas de uma aucena.
      Damien sacudiu a cabea quando se deu conta de que a estava olhando fixamente. Desviou o olhar rapidamente e a desceu para os papis.
      -No terminaste que me contar como conseguiste tudo isto.
      -OH, bom, segui a esse tipo. Ele nem sequer se deu conta. Aloja-se no Hilton. Estive esperando a que sasse outra vez, meti-me em sua habitao e me servi
eu mesma.
      -Shannon, esse homem se dar conta de que desapareceram uns documentos de sua habitao.
      -Sim, e se tiver meio crebro, tambm saber quem os levou. Suponho que minha licena de detetive tem os minutos contados, mas no importa. Teria-me tirado
isso de todas as formas. Parecia muito zangado quando lhe tirei a pistola -esboou um sorriso travesso-. No me olhe assim... No lhe tenho feito nenhum estrago.
      -No  ele quem me preocupa.
      -Bom, no podia fazer outra coisa. Ele tambm me zangou.
      Damien sentiu que aparecia em seus lbios um sorriso enquanto Shannon se levantava e se aproximava da mesa em que tinha deixado seu ponche. Enquanto ela bebia,
Damien revisou algumas pastas.
      -Em qualquer caso, estava pensando em fechar a agncia -lhe disse Shannon quando voltou para seu lado-. J deixei todos os casos, salvo o assassinato de Tawny.
Enviei  maioria de meus clientes a outras agncias.
      Havia uma pasta com o nome de Shannon. Damien a abriu e viu em seu interior os resultados de umas anlises e uns relatrios mdicos. Fechou-a, elevou o olhar
para  Shannon e a escondeu debaixo do sof assim que ela se voltou.
      -Parece que vamos ter que passar a noite em vela, est preparado?
      -Se o estiver voc -respondeu.
      Preocupava-lhe o que pudesse ler Shannon nos relatrios que havia sobre ele, mas no lhe ocorria nenhuma forma de evit-lo. Ainda no podia acreditar que aquele
Bachman soubesse... No, era impossvel. Mas se Bachman no estava investigando a morte, ento, que interesse podia ter naquele caso e no Damien?
      De repente, Shannon soltou um grito e deu um salto para trs, atirando sua bebida. Um rato marrom passou correndo por diante dela e se deteve em uma esquina.
Shannon deixou seu copo sobre o suporte da chamin, agarrou o atiador e se voltou para aquela criatura.
      -Espera.
      Damien deu um passo adiante, fechou a mo ao redor da de Shannon e lhe tirou o atiador para deix-lo em seu lugar.
      -Est louco? Se deixar que entre um, logo ter a casa infestada de ratos.
      Damien sacudiu a cabea e assinalou o camundongo. Moveu-se lentamente para ele, lhe enviando mensagens com o olhar. Quando esteve suficientemente perto, agachou-se
e tomou entre suas mos.
      -J est, v o indefeso que ? Deste-lhe um susto de morte -fechou a mo ao redor do camundongo, tomando cuidado de no esmag-lo.
      -Que eu o assustei?
      Damien lhe acariciou a cabea com o dedo.
      -S estava procurando umas quantas migalhas e um lugar quente para passar o inverno. Quer ficar- o
      -No, obrigado.
      Damien se encolheu de ombros e se dirigiu para a porta.
      -O que vais fazer com ele? Damien, se o deixar na porta voltar a entrar.
      -H uma lenheira na parte de atrs da casa, deixarei-o ali. Aos ratos adoram a madeira.


      Quando terminou de ler, Shannon se sentia mais que um pouco inquieta. Descoberto-se olhando ao Damien uma e outra vez enquanto revisava aqueles documentos.
Fixou-se em que no tinha uma s cabelo branco. E tampouco uma s ruga. Maldito fora, aquele homem tinha idade suficiente como para que lhe tivessem sado j ps
de galinha. Cada vez eram mais as razes que tinha para pensar que Damien Namtar era um vampiro. Um vampiro, pelo amor de Deus.
      Damien, por sua parte, permanecia em silncio, sem elevar nunca o olhar. Parecia desconcertado ao princpio, preocupado depois e, ao final, zangado.
      Quando acabou de ler, Shannon se levantou e se estirou ao tempo que se obrigava a ignorar tudo o que tinha lido dizendo-se que era obra de um louco.
      -Bom, j est. Suponho que esse tipo no  da CIA. E se o , tem o crebro esgotado. Meu deus crie-se a ltima verso do Kolchek.
      -De quem?
      -Kolchek. Era uma antiga srie de televiso sobre um caa vampiros... Damien, no ponha assim, esse tipo  um louco -Damien se levantou, aproximou-se da chamin
e jogou uma lenha.
      ---Ou isso, ou realmente  um vampiro -Damien se voltou para olh-la com os olhos abertos como pratos-. N, era uma brincadeira. Tranqilize-te, quer?
      -No posso me tranqilizar. Esse homem seguiu todos meus movimentos durante dias. Eu no gosto.
      -Claro, a quem poderia lhe gostar de algo assim?
      Shannon voltou para o lugar no que tinha estado sentada e tomou o ltimo relatrio que tinha lido Damien, querendo saber o que era o que o tinha afetado tanto.
Damien se equilibrou para ela e tentou tirar-lhe mas Shannon o esquivou e pde ler algumas linhas.
      A alma caiu aos ps e lhe gelou o ar nos pulmes.
      -Meu deus -olhou a Damien. Parecia desolado-. No queria que visse isto, verdade?
      -E me culpa?
      Shannon se umedeceu os lbios e releu aquelas linhas. O cadver de Tawny era o segundo que se encontrou. O primeiro tinha sido o de outra jovem com umas feridas
idnticas no pescoo. E ela tambm tinha participado voluntariamente no espetculo de Damien. Era Rosalie Masn, a mulher a que Shannon tinha estado tentando encontrar.
      Shannon sacudiu a cabea e olhou ao Damien com expresso de incredulidade.
      -Por isso no queria que o visse, Shannon. Sei o que est pensando.
      -Neste momento, nem sequer sei o que pensar -se levantou de novo e comeou a recolher todos aqueles documentos-. Agora vou, estou esgotada e como no v logo,
terminarei dormindo na lenheira com esse camundongo.
      -Pode usar a habitao de convidados.
      -No -suavizou seu tom. Em realidade no acreditava nada do que tinha lido, no? Claro que no,  obvio que no-. No, de verdade, no posso. Esta noite no.
      -Tem medo mim.
      Shannon se mordeu o lbio inferior e pestanejou.
      -No. Ao melhor isso  o que me preocupa -deu um passo, voltou-se e tomou o livro de Gilgamesh que estava lendo Damien quando ela tinha chegado- Voc... H
dito que no te me importava deixar isso verdade?
      Damien assentiu. Shannon se meteu o livro na mochila, colocou-se a mochila no ombro e se dirigiu para a porta. Damien a seguiu e posou a mo em suas costas.
      -Sei que no confia em mim, Shannon, mas tenho que  seguir voc a sua casa. Ainda  de noite e...
      Shannon se voltou para ele.
      -Sim,  certo, e isso me recorda que tenho que te perguntar por que est to seguro de que s corro perigo pelas noites.
      -Os vampiros s atacam de noite.
      Shannon sentiu um calafrio na nuca para ouvir aquelas palavras, mas o ignorou.
      -Sou realista, Damien.
      -Estou falando a srio -suspirou, passou-se a mo pelo cabelo e retrocedeu.
      -Os vampiros no existem -disse, mas suas palavras logo que foram um sussurro.
      -Ento digamos que o assassino quer parecer um vampiro, isso  convence voc?
      Shannon assentiu ainda receosa.
      -No acredito que v trocar agora de ttica e atacar de dia -continuou dizendo Damien.
      Shannon sentiu que cedia a tenso de suas costas.
      -Por um momento pensei que voc tinha acreditado todas essas tolices. Tinha-me preocupado.
      E ainda o estava, embora no sabia por que.











 Captulo 7

      A prova final. Depois dela, no haveria dvida do carinho de Damien para aquela delicada mortal.
      Anthar tinha mantido sua mente isolada dela, como lhe teria gostado de fazer tambm a seu inimigo. Mas Anthar jamais desenvolveria nenhum sentimento para ela.
Para ele era s uma boneca. O combustvel que animava seus atos era mais forte que qualquer outro sentimento: a vingana. Tinha estado obcecado com a queda do outrora
rei durante muito tempo para permitir que nada interferisse.
      E com a prova que tinha ideado Damien o Eterno teria que arriscar algo mais que a dor de uma bala no ombro para salvar a sua mortal. Teria que arriscar sua
existncia ou v-la morrer.

      A histria era fascinante.
      Shannon no tinha querido interromper sua leitura. Tinha apagado a secretria eletrnica e se negou a abrir a porta, apesar de que sabia que certamente o homem
que a esmurrava com impacincia devia ser aquele agente da CIA chamado Bachman. No sabia por que no tinha entrado sem permisso. Possivelmente realmente acreditasse
que no estava ali.
      Mas no importava. No tinha tempo de falar com ele. Precisava passar o dia decidindo se Damien Namtar podia ser um assassino. Ou possivelmente s estivesse
louca. Possivelmente sofresse um transtorno de mltipla personalidade e possivelmente uma dessas personalidades fora a de vampiro.
      Depois de que Damien partisse, tinha tentado dormir, mas no tinha podido. Apareciam em sua mente mltiplas possibilidades que a tinham deixado dando voltas
na cama at a madrugada.
      Descobriu-se pensando no Damien do momento no que tinha aberto os olhos. E a nica concluso a que tinha chegado era que no conhecia suficientemente aquele
homem para julg-lo. E tinha decidido ler aquele livro para tentar averiguar o que naquela histria o comovia to profundamente. Possivelmente assim encontrasse
uma pista de por que atuava como o fazia.
      E dessa forma ela saberia como devia atuar.
      Era uma histria triste, trgica. Toda ela tratava sobre um rei e sobre o homem que tinha chegado a ser seu melhor amigo. Algo mais que um amigo, em realidade
Gilgamesh tinha sido quase um tirano ao princpio de seu mandato. Era um homem forte, duro no combate e cheio de sabedoria. At tal ponto, que era considerado meio
deus e meio homem. Mas tinha esquecido a compaixo por seu povo.
      Enkidu tinha vivido no estepe, em plena natureza, de maneira que era considerado meio humano e meio animal. Mas tinha chegado  antiga cidade do Uruk um bom
dia e se havia interposto deliberadamente no caminho do Gilgamesh. Tinha sido um desafio pblico. Tinham lutado e a descrio daquela batalha era a coisa mais potica
que Shannon tinha lido em toda sua vida.
      Lhe fez um n na garganta enquanto lia. Os dois se converteram em amigos inseparveis aps e o livro falava das aventuras que tinham deslocado juntos, de como
se converteram em duas partes de um s ser. E de como, ao final, Enkidu tinha morrido lentamente ante o olhar impotente de seu amigo, que no tinha podido fazer
nada para ajud-lo.
      Era um texto comovedor e lhe tinha surpreso que escritores que tinham vivido milhares de anos antes de Cristo pudessem ser to expressivos. Pestanejou para
conter as lgrimas e leu outra passagem em voz alta:

       O nome do Enkidu
       Acompanhava cada um de seus pensamentos.
       Era como um animal faminto entrando nas guaridas vazias
       Em busca de comida. O nico alimento
       Que conhecia era a tristeza, uma tristeza eterna que brotava de uma fonte escondida.

      Shannon permaneceu muito quieta; compreendia exatamente como se sentia aquele homem. Ela tinha experimentado a mesma tristeza com a morte de Tawny. Ainda a
sentia. Teve que esperar uns minutos antes de continuar lendo. As lgrimas lhe nublavam a viso, mas se obrigou a terminar.
      A partir de ento Gilgamesh tinha deixado de ser um grande governante, converteu-se em um homem como qualquer outro e tinha terminado perdendo-se no deserto,
possivelmente depois de ter perdido tambm a cabea, em sua busca pelo segredo da vida eterna. Tinha chegado a obcecar-se com a idia de ser imortal e de devolver
a vida ao Enkidu. Uma misso que estava destinada a fracassar.
      Quando terminou o livro, Shannon estava soluando. Mas se secou os olhos, sacudiu a cabea e tentou concentrar-se no motivo que a tinha levado a ler aquela
comovedora histria. Compreender ao Damien.
       obvio. Tinha perdido a seu melhor amigo. Inclusive havia descrito sua relao em uns termos que pareciam refletir a relao entre o Gilgamesh e Enkidu. No
era de se estranhar que se identificasse com eles. E com ela. Era como se houvesse um tringulo que os conectava.
      Mas o que significava isso para ela?
      Shannon baixou o livro, acariciou com ar ausente a coberta e comeou a caminhar pelo salo. Poderia Damien ser um assassino? Um homem capaz de comover-se com
uma histria como aquela? Um homem incapaz de matar a um simples camundongo de campo?
      Durante toda sua vida, tinha aprendido a no confiar em ningum. A que se devia ento aquela vontade de confiar nele?
      Muito bem, possivelmente tivesse chegado o momento de jogar uma olhada a suas prprias motivaes. E o faria dando um bom banho.
      Ela jamais tinha estado com um homem, e tampouco queria faz-lo. Mas ultimamente se via freqentemente pensando nisso. Perguntando-se se realmente poderia
ser to maravilhoso como Tawny estava acostumado a lhe dizer. E se tinha que ser brutalmente sincera, no ficava mais remdio que admitir que era Damien o que inspirava
aquela classe de pensamentos. E a verdade era que no estranhava. Era um homem absolutamente sensual.
      Comeava a obscurecer. Logo estaria ali, disposto a vel-la toda a noite. Deveria sair da banheira e vestir-se. O que faria, perguntou-se, se o beijasse?
      A resposta no importava, porque no ia beijar-lo. Ou sim?
      Sentia uma estranha letargia estendendo-se por seu corpo enquanto se banhava. Era um cansao estranho, como se tivesse tomado uma pastilha para dormir ou um
pouco parecido.
      Pensou que gostaria de averigu-lo. Diabo, no tinha nada que perder, e por que no experimentar algo pelo que sentia curiosidade antes que sua vida terminasse?
      Deus estava cansada. Fechavam-lhe os olhos. Obrigou-se a sair da banheira e ficou a bata. Seria essa maldita enfermidade a que lhe provocava o sono? Fora o
que fora, era irresistvel. Meteu-se na cama com o cabelo empapado.


      No foi a fumaa que a despertou a no ser o alarme. O uivo do alarme rompeu o silncio da noite. Antes de cheirar a fumaa, Shannon j estava meio vestida,
de modo que, por um instante, duvidou de que ocorresse algo. Podia ser sua imaginao. Ao melhor se danificou o alarme e...
      Ficou os jeans que tinha deixado no cho e saiu ao salo enquanto os grampeava. Dirigiu-se para a porta, mas se parou em seco ao ver a fumaa cinza que se
filtrava pela fresta.
      Cada vez era mais espesso, flutuava e subia para cima, estendendo-se por toda a habitao. Deu outro passo e sentiu um profundo terror. Pressionou a porta
com as mos, mas teve que as apartar bruscamente para no queimar-se.
      -OH, Deus, Deus...
      Tinha que lutar contra o pnico; tinha que utilizar a cabea. Deu meia volta, cruzou a habitao e agarrou a manta do sof. Aproximou-se da banheira, empapou-a
e retornou  porta.
      A fumaa continuava penetrando a toda velocidade; deixou cair  manta ao cho e, com os ps, pressionou-a contra a fresta da porta. Ento observou. Cessou
a entrada de fumaa.
      Correu ao telefone e o desprendeu. No havia linha. Secou-lhe a garganta. Umedeceu-se os lbios e girou lentamente no centro da habitao. O que podia fazer?
      Retornou ao dormitrio e apareceu  janela. As chamas iluminavam a noite. Viu o resplendor laranja elevando-se dos pisos de abaixo. Distinguiu as luzes dos
bombeiros e  multido que se amontoava debaixo. Deus, como tinha podido ficar dormindo em meio de tudo aquilo?
      Baixou o olhar para o oco no que deveria estar  escada de incndios. Logo estaria tambm ela abaixo, junto aos bombeiros, como toda aquela gente. Quo nico
tinha que fazer era esperar a que apagassem o fogo e fossem procur-la. E o faria. S tinha que manter a cabea fria.
      Aproximou-se do armrio, abriu-o e tirou o taco de beisebol. Correu ao dormitrio de novo; o cristal da janela se rompeu ao primeiro impacto.
      Mordeu-se o lbio, retornou  sala de estar e olhou ofegante para o balco. Mas as chamas continuavam atacando o piso de abaixo. No podia escapar por ali.
      Retornou ao quarto de banho e encheu a banheira de gua fria. Encheu depois uma bacia, foi com ela ao salo e a lanou sobre a porta. A pintura estava comeando
a levantar-se e a fumaa se abria passo apesar da manta.
      Foi correndo a colocar outra manta na gua com inteno de envolver-se nela se fosse necessrio.
      Que mais podia fazer? Que mais?
      Lhe acelerou o corao ao dar-se conta de que estava suando. A temperatura da habitao aumentava. O cho... Deus, sentia o calor subindo por seus ps.
      "Tranqila, tranqila. No te deixe levar pelo pnico. Te aproxime outra vez  janela e lhes faa saber que est aqui".
      Shannon amarrar vrios lenis, tentando evitar que as mos lhe tremessem e sabendo que no podia fazer nada mais que esperar. Quando elevou de novo o olhar,
viu uma capa de fumaa suspensa  altura da cintura e se levantou da cama para sentar-se no cho. Atou um dos extremos dos lenis a uma das patas da cama e lanou
o resto pela janela. Estava segura de que veriam a bandeira branca em meio da noite e iriam procur-la.
      Os olhos lhe ardiam. O interior do nariz lhe ardia e as bochechas lhe queimavam.
      A fumaa era o problema. A fumaa era o principal inimigo. Tinha que evitar respirar muito.
      Retornou ao banheiro, mas j no havia gua. Tomou uma toalha mida e a sustentou contra seu rosto. Limpou os olhos e quando os voltou a abrir, estava s escuras.
      Foi-se a luz. Sustentando com uma mo a toalha contra seu nariz e contra sua boca para filtrar o ar, mediu at localizar a banheira e tirou a manta mida.
De joelhos, saiu do banheiro arrastando aquela manta empapada atrs dela.
      No soube a que se deveu a exploso, mas de repente, ali onde devia estar  porta, apareceu uma parede de fogo. Engatinhando a toda velocidade, encontrou o
caminho para o dormitrio obrigado  luz daquele inferno que se estendia por todo seu apartamento. Encerrou-se no dormitrio e colocou a manta sob a fresta da porta.
      Comeou a tossir. Sentou-se no cho e se voltou lentamente com os olhos cheios de lgrimas. A janela... Queria voltar para a janela. Engasgou-se outra vez.
Tinha o cabelo empapado em suor e a pele ardendo.
      E ento encontrou a janela graas ao resplendor dos lenis que tinha pendurado nela, que estavam ardendo como todo o resto. As chamas comeavam a conquistar
o batente. Procurou provas o n com o que as tinha pacote, mas sofreu um novo ataque de tosse.

      Damien nunca tinha tido inteno de utilizar o poder do vnculo psquico que havia entre Os Escolhidos e os que eram como ele. Mas cada vez se alegrava mais
de saber faz-lo. Assim que o sol ficou e ele esteve completamente acordado, disps-se a ir para a casa de Shannon para passar outra noite de viglia.
      Tentou ignorar as necessidades de seu corpo. No deveria sentir um desejo to intenso ainda. No tinha passado tempo suficiente. E essa maldita sede que continuava
no deveria levar impresso o rosto de Shannon. Maldita fora, o que lhe estava ocorrendo?
      Tentou distrair aquele desejo irracional pensando em novas proezas para surpreender ao pblico. Mas continuamente, em um rinco de sua mente, sentia os pensamentos
de Shannon.
      Shannon estava dormindo, to profundamente dormindo que nem sequer sonhava.
      E ento se produziu uma brusca mudana. Todos os sentidos de Shannon estavam alerta. Damien cheirou a fumaa, sentiu-o no nariz, abrasando seus olhos. Sentiu
seu medo. O terror.
      Fogo. E, maldita fora, era consciente de que bastaria que uma chama o roasse para que sua pele ardesse como a gasolina.
      Mas no importava. Tinha que ir procurar-la. Em caso contrrio, teria que sentir sua morte. Sentir o retrocesso gradual das foras da vida, ver a morte d
Shannon batalhando contra o inimigo final.
      Damien saiu de sua casa e elevou os braos. Segundos depois se elevava convertido em uma sombra noturna que nenhum olho humano teria podido detectar. E enquanto
voava para ela, sentiu como ia diminuindo o ritmo de seu corao.
      Maldita fora, essa vez no lhe permitiria ganhar na morte. Essa vez no ganharia!
      Sentia o ar frio e limpo da noite sobre a pele e, ao mesmo tempo, o calor abrasador de Shannon. E de repente se encontrou ali. O incndio rugia convertendo
o edifcio em um puro inferno; Damien se elevou para ele e entrou no dormitrio de Shannon pela janela.
      Caiu no cho da uma habitao cheia de fumaa. Nem sequer com sua viso noturna era capaz de ver apenas. O calor era intenso e s as lnguas de fogo rompiam
 escurido da noite. Tentou as evitar e concentrar-se unicamente em Shannon. Ajoelhou-se junto a ela enquanto Shannon lutava para no deixar de respirar tombada
no cho, com os olhos fechados, como um anjo. Damien a levantou nos braos, tomou sua cabea com uma mo e a sustentou contra seu rosto. Insuflou ar a seus pulmes.
Uma vez, dois... E assim uma e outra vez.
      Shannon tossiu e tentou tomar ar, mas seus pulmes voltaram a encher-se de fumaa. Rodeou ao Damien o pescoo com os braos e pressionou o rosto contra seu
pescoo. Antes de voltar a perder a conscincia, sussurrou seu nome com voz engasgada.
      Damien a aconchegou contra seu peito e saltou pela janela, voando em meio da noite a uma velocidade que a faria invisvel para o olho humano. Aterrissou em
um beco, entre dois edifcios. As ruas eram um caos de sirenes. As luzes vermelhas e brancas banhavam o rosto de Shannon, tingindo o de cor. Ouviam-se buzinas, carros.
      Shannon se estirou em seus braos, tomou ar trabalhosamente e explorou em um ataque de tosse to violento que Damien chegou a pensar que ia se rasgar por dentro.
Sustentou-a contra seu peito at que a tosse comeou a ceder e procurou seu rosto com o olhar.
      -Shannon?
      Shannon pestanejou e tentou fixar nele seus olhos irritados pela fumaa.
      -Como...?
      Mas sua pergunta foi interrompida por um novo ataque de tosse. Damien a tirou de entre as sombras e no se deteve at encontrar uma ambulncia.
      -Um momento senhor -um dos paramdicos se voltou, colocou em Shannon uma mscara de oxignio e assinalou para o estou acostumado a-. Deixe-a ali.
      -Quero uma marca -respondeu Damien, fulminando-o com o olhar.
      -Sinto muito, mas esto todas ocupadas. Deixe-me isso  -alargou os braos para  Shannon, mas Damien o separou de um tapa-. N...
      Damien o silenciou com o olhar antes de ir procurar algum lugar no que Shannon pudesse descansar. Viu um carro de polcia e correu para ali. O paramdico soltou
uma maldio, mas correu atrs deles com o bujo de oxignio. Damien abriu a porta traseira do carro de polcia e tombou  Shannon no assento de atrs.
      -Damien...
      -Te tranqilize, Shannon, por-te bem.
      -H...? -um novo ataque de tosse a interrompeu.
      De todas as formas, sentou-se, alargando o brao com o passar do assento para sustentar-se. Mantinha a mscara de plstico contra seu rosto e inclinava a cabea
para tomar oxignio, mas seus olhos no abandonavam em nenhum momento os de Damien. Elevou a cabea lentamente.
      -Tiraste-me de casa.
      -Descansa, necessita...
      -Como?
      Damien no disse nada. Limitou-se a olh-la em silncio. Shannon voltou a cabea para o edifcio em chamas. Tomou oxignio um par de vezes e se tirou a mscara.
      -Entraste ali, verdade? -franziu o cenho e escrutinou seu rosto.
      Uma ambulncia estacionou nesse momento junto ao carro de polcia. Saram dois paramdicos, tiraram uma maca da parte de atrs e se detiveram detrs do Damien.
O paramdico que levava o oxignio golpeou o teto do carro patrulha.
      -Temos uma ambulncia disponvel. Nos podemos levar isso. -- Shannon negou com a cabea.
      -No, estou bem.
      -vamos leva-la  ao hospital, senhorita. Respirou muita fumaa...
      -Hei dito que estou bem -se levantou, apoiando-se em Damien, e posou a mo em seu ombro para manter-se em p. Olhou uma vez mais ao edifcio e procurou o olhar
de Damien-Por que?
      -Tem que ir ao mdico, Shannon. Tombe-te nessa maca e...
      -Deixa de me falar como se tivesse dois anos, Damien -se deteve para tossir e pressionou a mo contra seu peito.
      O jovem que sustentava a mscara voltou a aproximar-lhe  cara. Shannon tomou uma baforada de oxignio, apartou a mscara e elevou a cabea fazendo um esforo
evidente.
      -Por que arriscaste a pele por mim outra vez? Est desejando morrer ou o que te passa?
      -Sabe? Estou comeando a me cansar de sua pssima atitude. Tomei-me um monto de molstias para tirar voc das garras da morte. A estas alturas, j no espero
que me d  obrigado, mas vai ver um mdico embora para isso tenha que te levar sobre meu ombro.
      Shannon tomou oxignio e o olhou com os olhos entrecerrados.
      -No me olhe com tanto receio, Shannon Mallory. Isto no  uma estratgia para que deixe de suspeitar que seja o culpado desses horrveis crimes. Se meu objetivo
fora esse, te teria deixado ali.
      Shannon apartou a mscara.
      -Eu nunca hei dito...
      Comeou a tossir com uma fora capaz de lhe destroar os pulmes. Damien a levantou nos braos.
      -Estou cansado de discutir contigo, maldita seja -A sustentou com fora e a levou a ambulncia.
      Sentou-se com ela no colo e lhe fez um gesto ao mdico que os tinha atendido com a cabea.
      O jovem se montou com eles na parte posterior da ambulncia, sem soltar nunca o bujo de oxignio. O condutor da ambulncia fechou as dobre portas e ocupou
seu assento. A ambulncia saiu dando inclinaes bruscas. Damien estreitou Shannon entre seus braos e lhe fez apoiar a cabea em seu ombro. Fechou os olhos. Em
questo de segundos, estavam em caminho com as sirenes uivando a pleno volume.
      No tinham avanado muito quando Shannon elevou a cabea e tentou tir-la mscara, mas Damien tomou a mo e a olhou aos olhos. Podia submet-la a sua vontade,
mas queria convenc-la. Por muito que o irritasse, gostava do esprito combativo de Shannon.
      -Shannon, eu no vou conseguir nada com isto. Isso  o que voc est perguntando, verdade? Pois quero que saiba que nada absolutamente.
      Shannon liberou sua mo e tirou a mscara.
      -Eu no te pedi que te metesse em minha vida. No necessito um heri.
      -E no hei dito que o fora.
      -AH! Correste a voc colocar em um edifcio em chamas como se fosse um super-heri de gibi. No tem nenhum motivo para... -sua acusao foi interrompida por
outro ataque de tosse e Damien lhe colocou de novo a mscara.
      Quando a tosse cessou, a retirou. Shannon o olhou em silencio durante longo momento.
      -No h nenhum motivo para que arrisque a vida desse modo.
      -Sim, h muitssimos motivos -Respondeu, e lhe apartou uma mecha de cabelo da cara.
      Shannon entrecerro os olhos, lanando ao faz-lo um monto de fascas ambarinas. Tentou sentar-se e Damien o permitiu. Shannon se deslizou de seu colo e se
sentou no bordo da maca. No o olhou aos olhos, inclinou a cabea e sua juba loira caiu ocultando parte de seu rosto.
      -Eu... Pensava que tudo tinha terminado.
      -Me alegro de que no tenha sido assim.
      -Estou em dvida contigo, Damien. Uma vez mais.
      A ambulncia girou e diminuiu de velocidade. Deteve-se e, aos poucos segundos, abriram-se as portas de atrs. Shannon saiu por seus prprios ps, negando-se
a receber ajuda.
      Damien a alcanou quando estava comeando a cair. Que mulher to teimosa. Levantou-a em braos e correu com ela para a sala de urgncias, levou-a at uma das
consultas e a deixou cuidadosamente sobre uma mesa coberta de papel branco que o corpo de Shannon cobriu de fuligem.


      Damien se evaporou assim que apareceu a primeira enfermeira com os formulrios. Shannon se sentou na borda da cama e os preencheu, perguntando-se se submeteriam
a mesma papelada s vtimas de um enfarte.
      Chegou uma enfermeira com uma bacia cheia de gua quente e procedeu a limpar o rosto de Shannon.
      Muito bem, pensou a jovem. Estavam sendo muito amveis com ela. E o nico motivo de seus maus pensamentos era que estava de um humor endiabrado. Maldita fora!
Acabava de perder tudo o que tinha.
      -O mdico vir agora mesmo, senhorita... -a enfermeira olhou um dos formulrios-... Mallory. Relaxe-se e deixe tomar os sinais vitais.
      Shannon assentiu enquanto lhe colocavam um termmetro na boca.
      A enfermeira passou uma boa meia hora com ela. O mdico entrou e saiu aos cinco minutos, disse-lhe que podia ir-se a casa e depois retornou a enfermeira para
lhe perguntar que roupa ia ficar.
      Shannon no tinha pensado nisso. E quando o fez, recordou todas as coisas que nunca ia voltar a ver. Seus discos, sua jaqueta de ante... Abriu os olhos de
par em par e gemeu com autntica dor.
      A enfermeira a agarrou por ombro e Damien entrou imediatamente na habitao.
      Shannon voltou a gemer, mais alto aquela vez.
      -Meu carro. OH, Meu deus, meu carro -se cobriu o rosto com as mos-. Depois de que esses tipos me tentassem roubar isso o estacionei na garagem subterrnea
do edifcio-. OH, maldita seja,  que no o compreende? -gemeu. No, evidentemente ningum a compreendia-. Me Deixe vestir -murmurou.
      Ouviu que a porta se fechava e, acreditando que se estava sozinha, elevou o olhar. Damien deixou uma bolsa de roupa no cho e caminhou para ela.
      -Est chorando -secou com seus dedos de mago as lgrimas de suas bochechas.
      -Se crie que sou to estpida para chorar por um carro... -sorveu e tentou deter-se, mas as lgrimas continuavam fluindo.
      Damien deslizou as mos por seus ombros e por suas costas. Shannon apoiou a cabea em seu peito e ele a balanou ligeiramente.
      -No acredito que seja nenhuma estupidez.
      -Tawny... Colecionava-os.
      -Colecionava carros?
      -Carros de brinquedo. O Corvette era seu favorito. Mas tambm era o meu. Sempre brigvamos por ele. Um Stingray vermelho como uma ma de caramelo e cujas
comporta se abria de verdade. Tinha-o roubado ela. Fomos muito majores para jogar com brinquedos, mas demnios, tampouco tnhamos podido desfrutar os de meninas
-seguiu chorando-.E... E chegou o dia de meu aniversrio. Como sempre, no tive nenhum presente. Mas ento ela... Envolveu esse estpido carrinho em um papel e me
deu isso. Jurou-me que algum dia teramos um carro de verdade e montaramos juntas...
      Damien a abraou com fora.
      -Por isso esse carro significa tanto para voc?
      Shannon voltou a assentir.
      -Ao melhor no aconteceu nada, sabe? Diz  rdio que o fogo est controlado e no acredito que tenha afetado aos metrs.
      -De verdade o crie?
      - possvel. Comprovarei-o assim que voc tenha se instalado.
      -Instalado onde?
      -vais vir comigo. E no quero protestos.
      Shannon ficou calada durante comprido momento, examinando-o. Damien lhe tinha salvado a vida em duas ocasies. Estava segura de que no ia fazer lhe danifico.
      -Damien... Voc crie que o fogo...?
      -Dizem que foi provocado, mas no estaro seguros at dentro de um par de dias.
      Shannon se mordeu o lbio.
      -Tudo est relacionado, verdade? H algum que no quer que siga investigando o assassinato de Tawny.
      -No h provas de...
      -Inclusive poderia ter sido Bachman. Ele mesmo me disse que poderia me fazer desaparecer.
      -No sei. Pode ter sido um intento de acabar com sua vida ou uma coincidncia. Em qualquer caso, comigo estar a salvo. No quero que volte a ficar sozinha,
Shannon.
      E Shannon tampouco queria voltar a estar sozinha. Limitou-se a assentir.








 Captulo 8

      Damien a levantou nos braos e saiu da sala de urgncias. Havia uma parte de Shannon que se revelava contra aqueles mimos e lhe dizia que lhe pedisse que a
deixasse no cho.
      Mas no o fez. Porque havia outra parte de Shannon, cada vez maior, a que parecia lhe gostar de ser embalada contra seu peito. E quem demnios havia dito que
no tinha direito a sentir-se bem alguma vez?
      Rodeou-lhe o pescoo com os braos, ignorando a sua parte mais cnica. Houve um segundo, enquanto Damien a levava para o Jaguar, no que se perguntou como teria
conseguido Damien levar o carro to rpido at ali. Mas em realidade no importava.
      Damien a sentou no carro, colocou-lhe o cinto de segurana e a olhou durante comprido momento. Shannon via seus olhos movendo-se minuciosamente, como se queria
ver cada parte de seu rosto.
      Elevou a mo, pensando que ao melhor tinha ficado alguma mancha, mas Damien a reteve entre a sua. Shannon se encontrou com seu olhar de bano e viu seus lbios
mover-se ligeiramente, esboando apenas um sorriso. Imediatamente, Damien retrocedeu e fechou a porta, sem deixar de olh-la. Ao cabo de uns segundos, Shannon lhe
devolveu o sorriso. Ao final, Damien desviou o olhar, sentou-se no assento do condutor e ps o carro em marcha.
      Uma vez em sua casa, voltou a tir-la em braos.
      -Suponho que querer tomar banho. Seu penhoar segue no dormitrio que usou a ltima vez.
      Shannon no protestou. Tinha a sensao de que no serviria de muito. Alm disso, estavam j no segundo piso, de modo que no demoraria para deix-la no cho.
Mas ento, por que no se sentia to aliviada como esperava? Damien a sustentava com fora, como se temesse deix-la cair. Shannon posou a cabea em seu ombro e
teve a estranha certeza de que Damien tinha inclinado a cabea para roar seu cabelo com os lbios.
      Que tolice. Sua imaginao voltava a transbordar-se.
      Damien abriu a porta do dormitrio, cruzou-a e a deixou no cho, mantendo a mo em sua cintura, como se queria ajud-la. Parecia to preocupado que a fazia
sentir-se incmoda.
      -Acredito que tem razo. Necessito uma ducha. Quero me tirar esta peste de cima antes que termine me asfixiando.
      Damien assentiu, mas no partiu. Abriu a porta do armrio e deixou a bolsa de roupa em uma estante. Depois se voltou de novo para ela.
      -Acredita que poder faz-lo sozinha?
      -O que pensa fazer, Damien, me banhar se por acaso no tenho foras suficientes para sujeitar a pastilha de sabo?
      A expresso preocupada de Damien trocou. Fez-se mais escura, mais intensa. Durante segundos compridos, Shannon no foi capaz de apartar o olhar de seu rosto.
E quando o fez, estava tremendo.
      -Voltarei para buscar voc dentro de uns minutos -Damien deu meia volta e partiu como se de repente tivesse pressa.
      -Sim -sussurrou Shannon quando se fechou a porta-, e depois o que?
      Meteu-se na ducha e saiu aos poucos minutos envolta em uma toalha. Aproximou-se do armrio a procurar a roupa que tinha deixado ali a vez anterior. Mas ao
mesmo tempo, reparou na bolsa que Damien tinha levado. Por isso havia dito, tinha comprado todas aquelas coisas para ela. Shannon a olhou perguntando-se se teria
algo mais conveniente que ficar. Alargou o brao, mas no chegava a estropia em que a tinha deixado.
      Mordendo o lbio, olhou a seu redor, viu uma cadeira e a aproximou do armrio subiu justo nesse momento abriu-se a porta e apareceu Damien com os braos cruzados,
olhando-a como teria podido olhar a uma menina que acabasse de pendurar-se pelos ps das barras de um balano.
      Ele tambm tinha tomado banho e trocado de roupa. Levava uns jeans negros e uma camisa de cor veio com as mangas recolhidas at os cotovelos. Shannon se fixou
imediatamente no plo escuro que cobria seus antebraos. Quando voltou a olh-lo aos olhos, estava sorrindo.
      Shannon ignorou sua expresso divertida e alargou a mo para a bolsa.
      -Cuidado!
      O grito chegou justo no momento no que a cadeira comeava a cambalear-se. A bolsa lhe escapou das mos enquanto ela caa em picado. Quo seguinte soube foi
que caa contra o peito de Damien com tanta fora que lhe fez se chocar contra a parede. Imediatamente se aferrou a seu pescoo enquanto Damien a sustentava contra
ele a vrios centmetros do cho. Seu rosto estava virtualmente pego dele. Shannon conteve a respirao. Damien no a soltava. Olhava-a fixamente. E Shannon no
sabia que parte de seu rosto o fascinava tanto, porque ela tambm tinha o olhar fixo em sua boca.
      No era a primeira vez que se via olhando aqueles lbios e perguntando-se como seriam seus beijos.
      Damien fechou os olhos e posou a cabea contra a parede como se estivesse tentando esclarecer seus pensamentos. Relaxou a presso de suas mos em sua cintura
para que pudesse posar os ps no cho, mas enquanto descendia, Shannon sentiu a dureza de sua ereo e o corao lhe deu um tombo no peito.
      Excitava-o? Deus santo, no se tinha dado conta. Ao melhor o tinha suspeitado, mas...
      Assim que roou o cho com os ps, apartou as mos de seu pescoo. Damien abriu os olhos. At ento, Shannon no se fixou em quo espessas eram suas pestanas,
nem em que tinha as ris to escuras que pareciam de negro cetim. Retrocedeu meio passo, mas sem abandonar em nenhum momento seus olhos.
      Damien posou as mos justo em cima de seus quadris e Shannon sentiu que pressionava ligeiramente os dedos, mas no estava segura de que tivesse sido um movimento
voluntrio. Pensou na magia daquelas mos, na facilidade com a que se moviam em cena; pensou nas coisas que faziam aparecer de um nada. Que classe de magia obrariam
aquelas mos no corpo de uma mulher? E pensou na ereo de Damien, que tinha cobrado vida com o mero roce de seus corpos. E por um instante, perguntou-se o que seria
fazer o amor com um homem como aquele.
      Damien se apartou e se voltou bruscamente, com os punhos apertados a ambos os lados de seu corpo.
      -Em... Tenho-te feito mal?
      -No, Shannon, no me tem feito mal.
      -Me imaginava -se encolheu de ombros.
      Voltou-se. No queria que soubesse o muito que a desconcertava. Se de verdade o excitava, por que no o dizia? Por que no fazia algo a respeito?
      -Deveria comer algo -lhe disse Damien, e Shannon esteve a ponto de gritar de frustrao-. Vamos abaixo.

      Damien queria assegurar-se de que Shannon estivesse bem antes que ele se retirasse a descansar antes do amanhecer. Tinha estado a ponto de morrer.
      Mas estava viva, mais viva que qualquer das pessoas que at ento tinha conhecido. Observou-a colocar a colher na sopa que lhe tinha preparado. No se tinha
atrevido a cozinhar nada mais complicado. Fazia muito tempo que tinha deixado de preocupar-se com a comida, embora sempre mantinha a geladeira cheia porque Netty
tinha que comer ali.
      Shannon terminou a sopa e ficou a perambular pela habitao, examinando-o tudo com a curiosidade de uma menina. Tomou uma das caixas negras nas que Damien
fazia desaparecer coisas em cena. Abriu-a, examinou os espelhos que tinha no interior e voltou a fech-la. Damien a observava contemplando sua vitalidade, seu esprito.
Tinha estado a ponto de morrer. E no podia tirar-se da cabea aquela idia.
      A bata que levava era muito curta. Se por ele tivesse sido, teria insistido em que se vestisse, mas ambos parecia haver-se esquecido de tudo no momento no
que Shannon tinha cado em seus braos.
      Durante uns instantes, Damien se tinha esquecido at de respirar. Shannon queria que a beijasse. E ele o tinha sabido com uma aterradora certeza.
      Por que a tinha levado a sua casa? Acreditava que podia passar junto a ela todos os momentos de debilidade sem perder o controle? Possivelmente houvesse se
tornado louco. Quanto perodo poderia durar a prudncia?
      Shannon se aproximou da chamin e deslizou o olhar por uns desenhos a lpis-carvo. Em um deles estava representado o Eufrates, cortando o deserto. Olhou depois
os objetos metidos nos cubos de cristal. Com o cenho franzido, inclinou-se para uma das figurinhas.
      -O que  isso?
      -Uma antiga deusa da fertilidade. Os sumrios a chamavam Inanna, os babilnios Ishtar.
      - muito formosa. E parece muito antiga.
      -Tem quase cinco mil anos.
      Shannon arregalou os olhos, levantou o cubo que cobria a pea e olhou ao Damien.
      -Posso?
      Damien assentiu e a observou enquanto sustentava a figura e a acariciava com delicadeza.
      -No me posso acreditar que esteja tocando um objeto que tocaram outras pessoas faz cinco mil anos.
      Damien desejava que tambm o acariciasse a ele daquela maneira. Ele era mais velho que aquela figura.
      -E esta? -perguntou Shannon atrs deixar  deusa em seu lugar-. O que  uma cabra?
      -Sim, foi feita ao redor do ano dois mil e seiscentos antes de Cristo. Os chifres e a barba so de lpis-lazli.O resto  de ouro.
      -Coleciona antiguidades?
      Damien assentiu e Shannon se voltou para a ltima pea que havia no suporte.
      -Isto o que ?
      -Um pedao de histria -se aproximou dela enquanto Shannon escrutinava quo gravados cobriam cada milmetro daquela pedra.
      - uma forma de escritura?
      -A mais antiga que se conserva. Escritura cuneiforme. Esta pea  do ano quatro mil antes de Cristo, encontraram-na no Sumer.
      -Sabe-se o que diz?
      -Sim,  parte da histria do Gilgamesh.
      Shannon elevou o olhar e Damien viu arrependimento em seus olhos.
      -Gilgamesh. OH, Meu deus, Damien, o livro...
      -No se preocupe.
      -Mas eu...
      -Shannon, s era um livro, uma das ltimas tradues. Tenho dzias de livros que contam a mesma histria. Voc mesma o viu.
      -Mas para ti  um livro importante.
      Era-o, mas, por que sabia Shannon?
      -Posso comprar outro.
      -Comprarei-lhe isso eu -suspirou e posou a mo sobre o cristal que continha a pedra-.  uma histria maravilhosa e terrvel. Alegro-me de hav-la lido antes
que o fogo queimasse o livro.
      -O leste?
      Shannon assentiu com ar ausente.
      -Me conte o que diz.
      -No acredito que queira ouvi-lo...
      -Claro que sim.
      ---A histria me comoveu Damien. Acredito que compreendo a dor que arrastou ao Gilgamesh ao deserto. Eu tambm perdi a minha melhor amiga.
      -Sim, sei -e o explicou-. Nesta pedra se narra  morte do Enkidu. Gilgamesh estava a seu lado, lhe dando a mo. Enkidu o olhou e lhe falou. E isto foi o que
lhe disse -Damien se voltou para a pedra-. "Te deixarei sozinho, incapaz de compreender um mundo no que j nada vive. Estar sozinho, vagar procurando a vida que
se foi ou a vida eterna que ter que conquistar. Seus olhos trocaram. Est chorando. Antes nunca chorava. No  prprio de ti. Quem sou eu para morrer, para te deixar
sozinho? Gilgamesh permaneceu em silncio enquanto os olhos de seu amigo se detinham. E em silncio alargou a mo at a frente do amigo que tinha perdido".
      Damien cravou o olhar nas chamas da chamin. E no voltou a elev-la at que a ouviu soluar.
      - to triste... E aos com tanta emoo... - Shannon sorveu uma vez mais e se passou o dorso da mo pelos olhos-. Deveria ter sido ator.
      -Sou-o.
      Shannon assentiu, mordeu-se o lbio e se voltou para ele.
      -Contou-me que voc tambm tinha perdido a um amigo. Por isso voc gosta tanto essa epopia, verdade? -Damien assentiu em silncio-. Tem lido muito sobre o
Gilgamesh. Sabe se houver algo mais?
      -Mais?
      -Sim,  to triste pensar que isso foi tudo o que ocorreu... Sabe se encontrou o segredo? Se conseguiu lhe devolver a vida a seu amigo?
      Damien suspirou e fixou o olhar na pedra.
      -Encontrou a imortalidade, mas isso no o converteu em um deus. E tampouco lhe deu poder para reviver ao Enkidu. Converteu-o em um demnio. A gente que o tinha
adorado o odiou. Nem sequer acreditavam que fora Gilgamesh, pensavam que era um impostor. Seu rei tinha morrido. Sua absurda busca da vida eterna o tinha condenado
a uma existncia sem fim em que se viu obrigado a contemplar uma e outra vez o triunfo do nico inimigo ao que ansiava derrotar, a morte.
      -Todo isso o diz a histria?
      -No, Shannon. Grande parte da histria ainda no foi descoberta. Essa  minha prpria teoria.
      -E no ocorreu a voc uma teoria melhor? Uma teoria com um final feliz, por exemplo?
      -Quem me dera me ocorresse.
      Shannon sorriu, mas lhe tremeram ligeiramente os lbios. Agachou-se para jogar um lenho na chamin, provocando uma chuva de fascas. Damien saltou para apartar-se
delas; o corao esteve a ponto de deixar de pulsar. Mas no lhe havia meio doido nenhuma fasca e rapidamente fechou a tela de cristal da chamin. Shannon no pareceu
not-lo. Sentou-se no cho, em um dos tapetes, com as pernas cruzadas.
      -Eu podia passar toda a noite falando do Gilgamesh. Fascina-me, mas h algo do que preciso falar contigo imediatamente -disse ela.
      -E sobre o que, quer falar?
      -Sobre como vou apanhar ao assassino de Tawny. No temos feito muitos progressos ainda.
      -Isso significa que ao fim acredita que no fui eu?
      -Acredita que estaria aqui em caso contrrio?
      -Tem idia de por onde comear? Porque eu no -cruzou as pernas e se sentou a seu lado.
      -Pois sim -inclinou a cabea e o olhou com olhos faiscantes-, mas temo que voc no vai gostar.
      -Por que ser que no me surpreende?
      Shannon sorriu e Damien compreendeu que tinha cometido um engano ao sentar-se a seu lado. Olhou para seu delicioso rosto, um rosto de mas do rosto altas
e marcados e de lbios cheios. Adoraria ver esse rosto retorcendo-se em um xtase to doce que resultasse quase doloroso.
      O problema era que podia mat-la no processo.
      Shannon franziu o cenho e aproximou a mo a seu rosto.
      -Est bem?
      O contato de sua mo era uma autntica agonia. Damien voltou  cabea e Shannon apartou a mo.
      -Sim. Que idia  essa que no vou gostar?
      Shannon pareceu doda por seu gesto, mas continuou de todas as maneiras.
      -O assassino s est matando a mulheres que saram em seu espetculo. Eu pensava que tambm o tentaria comigo, mas no o tem feito, de modo que temos que lhe
preparar outra armadilha. A partir de agora, eu serei sua nica ajudante. E comearei amanh mesmo.
      -No.
      -Sabia que voc no gostaria.
      -No quero que arrisque sua vida.
      -Em realidade j estou em sua lista.
      - possvel que no.
      -No pode continuar pedindo voluntrias, Damien. No seria justo as converter em seu objetivo...
      Damien se levantou e se voltou de novo para ela.
      -No utilizarei ajudantes.
      -Ento, comear a procurar antigas voluntrias -se levantou e se aproximou dele-. Pelo menos em meu caso,  uma deciso consciente. Essas outras pobres mulheres
no tm a menor idia do que as espera.
      -Preferiria pr fim ao espetculo. Cancelar o resto das atuaes.
      -Poderiam te denunciar.
      -No me importa.
      Shannon elevou o queixo e virtualmente ficou nas pontas dos ps para olh-lo aos olhos.
      -No encontraremos ao assassino a no ser que o tente outra vez. Isto  muito importante para mim, Damien. No corro nenhum risco porque no tenho nada que
perder. O nico que me interessa agora  me assegurar de que esse canalha pague pelo que fez a Tawny.
      -Shannon...
      -E estou disposta a fazer uma concesso. Ficarei aqui, contigo, se te resultar mais fcil continuar assumindo o papel de protetor, embora no necessite nenhum.
Mas se disser que no, partirei-me imediatamente.
      -E aonde iria?
      -Ainda tenho meu escritrio.
      -Nesse caso, poderia te seguir e te vigiar de todas as maneiras.
      -Mas aqui estou mais segura. Esta casa  como uma fortaleza.
      Damien baixou o olhar, sabia reconhecer a derrota.
      -De acordo, renuncio voc ganha.
      Shannon lhe rodeou o pescoo com os braos e o apertou com fora.
      -Obrigado, Damien, no te arrepender.
      Mas a verdade era que j se arrependeu.
      Virtualmente tinha amanhecido quando Shannon reparou na hora que era e decidiu ir-se  cama. E embora odiasse utilizar o controle mental com ela, Damien invadiu
seus pensamentos para lhe ordenar que dormisse durante todo o dia. No queria que se metesse em problemas sem que ele estivesse em condies de ajud-la.
      Antes de retirar-se, aproximou-se do dormitrio de Shannon e abriu a porta. Apoderou-se dele o mais cru desejo quando a viu tombada em meio da cama. Tinha
deixado  bata no cho. Se tivesse sido pintor, a teria retratado naquela postura. Nua, relaxada, viva. Bela.
      Damien fechou a porta, apoiou-se contra a parede e tomou ar, expandindo seus pulmes at faz-los arder.
      A sede o devorava. O desejo o estava matando. E se queria que Shannon estivesse segura em sua casa, tinha que encontrar a maneira de aplac-lo. Sabia que se
resistia que se negava sua natureza selvagem durante muito tempo, a fome cresceria at lhe fazer perder o controle.
      Isso era o que lhe tinha passado com aquelas duas mulheres. Ele pensava que tudo sairia bem. At ento, sempre tinha tomado o que lhe tinham devotado e tinha
podido saciar sua sede no processo.
      Mas era possvel que com aquelas duas mulheres tivesse perdido o controle durante alguns segundos.
      Mas no, maldito fora. Ele estava seguro de que as tinha deixado vivas. Ele jamais tinha sido instrumento de morte. Jamais.
      Separou-se da parede e baixou a escada. A fome voltava a cham-lo e, naquela ocasio, no cometeria a estupidez de negar seu poder. No podia deix-la crescer
at a loucura estando Shannon em casa. To perto. To doce. Seria um bocado muito suculento.
      -No!
      Damien se deteve no centro do vestbulo, fechou os olhos e se concentrou na mente do Shannon. Demorou menos de um segundo em saber que continuava dormida.
Antes de partir, conectou o sistema de segurana. O que tinha em mente lhe levaria s uns minutos. Ningum poderia lhe machucar em to pouco tempo. Sabia que a deixava
a salvo.


















 Captulo 9

      Shannon abriu os olhos e viu  Damien aos ps da cama, olhando-a fixamente. Seus olhos escuros resplandeciam. Tinha o queixo tenso e uma postura rgida. No
disse nada, limitou-se a observ-la.
      Shannon se sentou e os lenis se deslizaram por seu corpo. Ento se deu conta de que estava nua e, com uma exclamao, voltou a tampar-se at o pescoo. Depois
elevou de novo o olhar. Sentiu o calor que abrasava seu rosto, a vergonha, e no foi capaz de lhe sustentar o olhar.
      Sentiu um puxo. Depois outro. Elevou rapidamente os olhos. Damien estava atirando os lenis para ele. Lentamente, mas com firmeza, os lenis foram correndo-se.
Shannon queria os reter, ou pelo menos parte dela isso pretendia, mas era incapaz de mover-se.
      Seus seios eram completamente visveis. O cetim escorregava por seus quadris, por suas coxas, por seus joelhos. Estremeceu-se, mas no fazia frio. Damien jogou
os lenis a um lado e os deixou cair ao cho.
      Shannon permanecia quieta, imobilizada por alguma fora que no compreendia enquanto Damien percorria com olhar ardente todos os rinces de seu corpo. Ela
viu o vulto que me sobressaa entre suas coxas, sob o tecido negro dos jeans, e soube o que ia ocorrer. Mas no tinha medo. No. Damien deu um passo para a cama.
      -Damien -sussurrou Shannon.
      -Me deixe fazer o amor contigo, Shannon.
      Shannon no tinha flego para responder. Damien alargou a mo para acarici-la.
      Abriu os olhos de repente e se encontrou sozinha na habitao. S sob o ligeiro peso dos lenis e o edredom. Deitou-se nua e a bata que levava a noite anterior
lhe enredava entre as pernas. No sentia saudades que tivesse tido sonhos erticos. O roce do cetim sobre sua pele tinha inspirado seus sonhos. Sim, isso era. O
fato de que aquele homem estranho tivesse invadido ultimamente seus pensamentos no significava que fora ele a causa de seus sonhos.
      Mas sabia que estava se enganando.
      Deu um murro ao travesseiro. Tinha demorado um inferno para dormir. Uma parte dela, a mais ridcula, estava esperando ao Damien.
      Procurou a bata e se deu conta ento da penumbra que havia na habitao. J era de noite? Olhou o despertador da mesinha. s sete e quinze da tarde. Estava
anoitecendo. Deus, jamais tinha dormido at essas horas. E tampouco tinha tido nunca sonhos como aqueles. Sentou-se na cama, levou-se a mo  frente e a descobriu
empapada em suor.
      Uma chamada  porta a sobressaltou.
      -Shannon? Est acordada?
      -Um momento
      Saltou da cama envolta nos lenis e procurou frentica a bata ou a roupa que levava no dia anterior, mas no via nada. Aproximou-se da porta, entreabriu-a
e o olhou.
      Damien permanecia no outro lado, sombrio e misterioso como nunca.
      -Trouxe-te algo de comer. Posso passar?
      -Bom, no pode dizer-se que esteja vestida.
      Damien se encolheu de ombros, empurrou a porta e entrou como se fora algo habitual.
      -Shannon, me passado  vida rodeado de mulheres formosas seminuas. Prometo-te que serei capaz de me controlar -lhe dirigiu um sorriso enquanto ela  ajustava
os lenis com estupidez sob os braos. Deixou a fonte na mesinha de noite.
      -Sim, ao melhor voc pode, mas eu no - se dirigiu por volta do banheiro, arrastando os lenis com ela, e fechou a porta-. Onde est minha roupa?
      -Pedi a Netty que lhe lavasse isso. Est no armrio.
      -Importaria-te me aproximar algo que me pr?
      Damien se ps a rir, mas um segundo mais tarde bateu na porta. Shannon abriu uma fresta e Damien colocou a mo para lhe passar uns jeans, uma sudadera e roupa
de baixo limpa.
      -Isso no  meu.
      -Netty saiu e comprar algo. No pode voc pr a mesma roupa todos os dias, verdade? Agarra-o, Shannon, no morde.
      Shannon aceitou a roupa, fechou a porta e se vestiu rapidamente.
      -No sei por que toma tantos incmodos. No vai levar a posta muito momento - comentou Damien.
      Shannon olhou estupefata a porta do banheiro. Assim ao final parecia disposto a dar um passo. Certamente, no era assim como o tinha imaginado.
      -Essa  a proposio mais grosseira que ouvi em toda minha vida -abriu a porta e o olhou com os braos em jarras-. No te ocorre nada melhor?
      Damien lhe deslizou um dedo por sua bochecha.
      -Me ocorrem coisas muito melhores. Mas isto no era uma proposio. S estava expressando um fato.
      Shannon franziu o cenho.
      -Assim j o est dando por sentado, verdade?
      -Disse que queria ser minha ajudante at que tivssemos apanhado ao assassino, verdade? -Shannon assentiu-. Compreender que no pode ir assim vestida.
      Shannon ficou vermelha como o gro, mas se voltou para ocultar seu rosto e tentou converter seu mal-estar em um pouco mais construtivo.
      -Se acredita que vou sair a desfilar em cena com um desses minsculos cangas, como o resto de seus ajudantes, temo-me que te equivoca Damien.
      -No vais desfilar em cena. Aparecer flutuando, danando. E s temos uma hora para ensaiar, assim te coma esse festim que te preparou Netty para que possamos
comear quanto antes, de acordo?


      No era justo. Alimentou-se com a nica inteno de evitar que seguisse crescendo aquele desejo incontido por ela. E estava convencido de que controlava perfeitamente
a situao quando tinha ido procur-la ao dormitrio.
      Mas o desejo havia tornado a assalt-lo ao lhe pr os olhos em cima. Aquela condenada sede devia estar fazendo-se cada vez mais forte. Porque nunca havia tornado
a reviver o desejo a tal velocidade. Jamais!
      E no podia fazer o amor com Shannon. Nem sequer tinha a certeza de no ter sido o responsvel pela morte das outras mulheres. Por isso no queria deixar que
o que sentia por ela se fizesse mais forte.
      Mas que demnios lhe ocorria? Havia muitas outras coisas nas que deveria estar pensando naquele momento. Devia pensar no assassino que espreitava pelas ruas
de Arista, na pessoa que podia ter elegido a Shannon como prxima vtima. Se ele no tinha matado aquelas duas mulheres, tinha que averiguar quem era o assassino
antes que continuasse matando.
      E estava tambm a misteriosa enfermidade de Shannon. Sabia que podia encontrar informao sobre ela nos relatrios da CIA, mas ainda no tinha tido oportunidade
de revis-los. Ou possivelmente fora a culpabilidade o que lhe tinha impedido de faz-lo. Mas precisava averiguar o que lhe ocorria antes que tudo piorasse.
      Shannon cruzou a habitao e se jogou em seus braos, caindo para trs, como se estivesse deprimindo-se. Damien esteve a ponto de deix-la cair. No estava
suficientemente concentrado. Os tremores de Shannon lhe indicaram que a jovem estava lutando contra um ataque de risada. Um segundo depois, abria os olhos.
      -No sei se poderei faz-lo sem rir, Damien.  to dramtico.. E eu no sou uma pessoa dramtica.
      Damien no pde evitar um sorriso ao ver as fascas de seus olhos e as covinhas de suas bochechas.
      -No, eu diria que mais que dramtica,  irreverente -a levantou de novo e a rodeou com seus braos.
      Os aplausos do Netty lhes chegaram da porta.
      - obvio que te parece absurdo, Shannon, indo a jeans e danando no meio do salo. Mas ser muito distinto quando estiver adequadamente vestida e a msica
comece a encher seus ouvidos.
      -Voc cr?
      Netty lhe piscou os olhos um olho.
      -OH, eu sei dessas coisas. Atuei com o Teatro de Londres como primeira atriz.
      Damien a olhou com o cenho franzido.
      -Nunca me tinha contado isso, Netty.
      -Nunca me perguntou -replicou isso ela. Olhou a Shannon-. Sempre foi to frio que estava comeando a me perguntar se haveria algum corao nesse enorme peito.
Mas desde que vieste a esta casa...
      Damien abriu a boca para lhe dizer a Netty que se estava passando do limite, mas ela o cortou antes de que tivesse podido pronunciar uma s palavra.
      -Agora tenho que ir se quero chegar ao teatro a tempo de ver a estria de Shannon. Quer algo mais?
      Damien negou com a cabea.
      -Obrigado pela roupa, pela comida e por tudo o que tem feito por mim.
 -Lhe agradeceu Shannon.
      -De nada, moa. Voc recorda a uma rf que necessita os cuidados de uma me. Assim que gosta de  mimar voc um pouco.
      Shannon arregalou os olhos, mas Netty j se estava dirigindo para a porta. Olhou ao Damien completamente aniquilada.
      -O que te passa? -perguntou Damien.
      -O que h dito... -pestanejou e sacudiu a cabea- No importa, suponho que  uma coincidncia.


      Pouco depois, estava atirando nervosa da parte de acima do biquni e ajustando o n da canga. Roxy, a ajudante de Damien, no tinha visto muita graa  mudana.
De fato, quase lhe tinha dado uma sncope ao inteirar-se. Damien tinha estado inventando desculpas at que, farta de escut-los, Shannon se havia interposto entre
eles.
      -Olhe, sou detetive privado e como te ocorra dizer-lhe a algum, asseguro-te que te arrepender de hav-lo feito. Vou substituir voc porque as ajudantes do
Damien correm perigo de terminar convertendo-se nas vtimas de um louco. E como o diga a algum, destroarei-te a mandbula. Alguma pergunta?
      Roxy se tinha ficado olhando fixamente a Shannon durante longo momento. Ao final se virar de novo para o Damien.
      -Espero que seja verdade, Namtar, porque tenho um contrato.
      -Seguirei-te pagando todas as atuaes.
      Roxy tinha fulminado  Shannon com o olhar e partiu.
      Shannon suspirou, tentando esquecer aquela desagradvel discusso e concentrar-se nos movimentos de Damien enquanto estava em cena. Esforava-se em lembrar-se
de tudo o que lhe havia dito. Tinha que manter a cabea alta e uma postura elegante e confiada.
      Quando Damien lhe fez um gesto com a cabea, Shannon posou as mos sobre uma mesa com rodas e a levou a cena. Damien a apresentou como Shannon, "sua encantadora
ajudante". Shannon se inclinou para o pblico tal e como Damien lhe tinha indicado que luzisse e a jovem se surpreendeu para ouvi-los aplaudir com entusiasmo. Quando
terminou aquele truque e Damien lhe beijou a mo, Shannon se abanou e piscou um olho. Ao parecer, o gesto adorou ao pblico, porque aplaudiu grosseiramente enquanto
Shannon saa com o carrinho de cena. Era o ltimo que Shannon se esperava e o encontrou divertido. Podia paquerar com o Damien tudo o que quisesse e ele o considerariam
parte de sua atuao.
      Estava incrvel e o pblico a adorava. Mas quando a nvoa comeou a serpentear entre suas pernas e a msica anunciou o final, Damien olhou para os bastidores,
onde Shannon o esperava, e viu que tinha desaparecido o brilho de seu olhar. Alargou uma mo para ela e Shannon foi girando para ele enquanto aumentava o volume
da msica. Damien tomou a mo e ela se deteve de cara ao pblico, como tinham ensaiado.
      Damien lhe ps ento um dedo no queixo e lhe fez voltar o rosto para ele. Depois, sacudiu a mo ante seus olhos. Shannon trocou de expresso, como se acabasse
de entrar em transe. Damien deslizou ento uma mo por sua cintura e, com a outra, fez-lhe jogar a cabea para trs e se inclinou sobre ela. Tomou ar, baixou a cabea
para seu pescoo, entreabriu os lbios e os posou sobre sua pele.
      E o desejo voltou a cobrar vida.
      Supunha-se que no tinha que ocorrer. Tinha repetido aquela atuao centenas de vezes, e em algumas ocasies em pocas de intenso desejo, mas jamais havia
sentido a tentao de converter aquela fico em realidade. Aquele dia, entretanto, estava satisfeito. Alimentou-se a noite anterior com inteno de satisfazer seu
desejo.
      Mas a pele de Shannon era como cetim contra seus lbios. Beijou-lhe o pescoo e deslizou por ele a lngua, incapaz de conter-se. Sentiu-a estremecer-se e a
ouviu sussurrar seu nome. O suave palpitar de seu pulso parecia amplificar-se em seus ouvidos. Podia sentir o fluxo do sangue correndo sob sua pele. Apertou ligeiramente
os dentes e ouviu o ofego surpreso de Shannon.
      Esta inclinou h cabea um pouco mais e a presso dos lbios de Damien aumentou. Damien comeou a tremer. O desejo o envolvia e o suor empapava seu rosto.
      Com um profundo gemido, soltou-a e a deixou bruscamente no cho.
      O pblico rugiu. Damien se voltou piscando para ele. Durante uns instantes, esqueceu-se de sua existncia.
      Shannon permanecia tombada, muito quieta, mas com a respirao agitada. Damien desviou o olhar e, sem esperar a que casse o pano de fundo, cobriu-se com a
capa e girou.
      Foi um corvo o que emergiu aquela noite de entre suas dobras. Sobrevoou ao pblico, retornou a cena e o pano de fundo caiu acompanhado do estrondo dos aplausos.

      Sim, a coisa ia bem, observou Anthar. Estava convencido de que Damien estava to absorto em seu ajudante que nem sequer tinha detectado a presena de outro
ancio entre o pblico.  obvio, nunca o faria. Anthar era nico para ocultar sua presena. Damien tampouco tinha detectado sua presena aquela noite. O muito estpido
se apaixonou por aquela garota e era bvio que tinha tido que batalhar consigo mesmo para evitar ceder ao desejo de saciar com ela sua sede. De modo que s era questo
de tempo. Assim que Damien decidisse levar-se a aquela beleza  cama e bebesse dela. Anthar saberia. E ento atuaria.
      No lhe custaria nada terminar o trabalho, sangrando-a por completo. Deixaria-a na cama em que Damien se teria deitado com ela e deixaria que o muito canalha
a encontrasse ali e pensasse que a tinha matado. Que acreditasse que tinha matado  nica mulher a que tinha amado. Ah, que tortura que dor experimentaria ento!
E ento, que outrora fora um grande rei, acabaria com sua prpria vida. Gilgamesh o Grande deixaria de existir.
      Anthar se esfregou as mos com regozijo e abandonou o teatro.


      - realmente assombroso, Damien -lhe comentou Shannon no camarim-Lhe adoram. Escuta-os...
      Damien tentava assimilar suas palavras sem emprestar ateno ao tom de sua voz.  carcia ertica que aquele tom representava para seus ouvidos.
      "Te concentre em outra coisa, idiota. No que seja. No pblico, te concentre no pblico".
      Abriu sua mente, esperando que as sensaes dos outros apagassem as provocadas por Shannon. Sentiu sua adorao, seu amor. Com isso deveria lhe bastar. Aquele
era o nico sentimento, a nica conexo com a vida que se permitiu. Mas de repente, elevou a cabea bruscamente e apertou os dentes.
      Havia outro como ele entre o pblico. Outro vampiro. Deus, ele mesmo tinha tentado explicar-se daquela maneira os assassinatos, mas no fundo no tinha chegado
a acreditar-lhe de tudo. Havia uma parte de si mesmo que continuava pensando que tinha sido o assassino. E, entretanto, aquela noite, havia entre o pblico outro
vampiro.
      E o muito canalha se estava aproximando.
      Damien se levantou de um salto justo quando se abria a porta do camarim. Agarrou a Shannon do brao e a empurrou para que permanecesse atrs dele.
      Apareceu um homem no marco da porta e ficou olhando fixamente  Damien. Tinha os olhos negros e o cabelo de cor azeviche, como Damien. Sorriu ligeiramente e
assentiu enquanto olhava  Shannon.
      -Desfrutei muito de sua atuao -disse em um tom ligeiramente afrancesado-.Tem voc muito talento, senhorita Mallory...
      -Obrigado.
      -No fale com ele, nem sequer o olhe -disse Damien com uma fria surpreendente.
      -No tem nenhum motivo para te mostrar hostil, Damien. S vim a falar contigo.
      -Nesse caso, falaremos a ss.
      -Asseguro-te que serei discreto, se for isso o que preocupa voc-sacudiu ligeiramente a cabea-. Possivelmente no tenha sido uma boa idia. Mas como te negava
a responder a minhas cartas, pensei vir a verte atuar e tentar te convencer em pessoa -disse um passo adiante.
      -Que cartas? Do que est falando?
      Shannon se liberou de sua mo, agradecendo aquele momento de distrao, e o olhou de esguelha.
      -Meu deus. Jamais tinha visto voc se comportar de uma forma to grosseira, o que ocorre?
      Enquanto falava, tendeu-lhe a mo ao desconhecido e este tomou e a levou aos lbios. Damien agarrou a Shannon da outra mo e atirou dela.
      -Ser melhor que se tombe senhorita Mallory. No se encontra bem.
      Damien a olhou e reparou pela primeira vez na palidez de seu rosto. Fechou os dedos ao redor de sei pulso e advertiu a rapidez de seu pulso. Alm disso, estava
comeando a tremer.
      -Estou bem, s um pouco cansada.
      O recm-chegado procurou o olhar de Damien e sacudiu a cabea de maneira quase imperceptvel.
      -Eu gostaria de ir a casa -disse Shannon-. Este teatro est gelado. Possivelmente Damien e voc possam falar ali, senhor...
      -Marquand -respondeu brandamente-. Eric Marquand, e acredito que seria uma idia maravilhosa.
      -Marquand -repetiu Damien.
      Fechou os olhos ao dar-se conta de seu engano, mas imediatamente se perguntou quanto tempo levaria aquele Marquand na cidade. O suficiente para ter cometido
esses assassinatos?
      "Deixa de fazer o parvo, Damien, e te leve a essa mulher a algum lugar no que possa descansar. Est a ponto de deprimir-se, no te d conta?".
      Aquela voz chegou a sua mente to claramente como se aquele homem lhe tivesse falado e o pilhou completamente por surpresa. Damien nunca tinha utilizado a
telepatia, exceto para convencer a suas vtimas de que sua visita tinha sido um sonho.
      Olhou a Shannon outra vez e naquela ocasio, sintonizou sua mente com a sua. Sentiu seu enjo e o desequilbrio entre o calor que fazia arder sua cabea e
o frio que lhe gelava os ossos. Estava a ponto de sofrer outro ataque!
      -Shannon?
      -Estou... Estou bem.
      Mas arrastava as palavras e sua pele comeava a arder sob sua mo. Damien a levantou em braos e passou por diante do desconhecido. J teria tempo de responder
a suas perguntas mais tarde. De momento, quo nico importava era que Shannon superasse aquele ataque. Maldita fora, por que no teria encontrado um momento para
ler seus relatrios? Por que?
































 Captulo 10

      Assim que saiu do carro, comeou a correr para a porta de sua casa com  Shannon nos braos... E ficou gelado ao ver que o homem estava ali, esperando-o. Ao
parecer, Eric Marquand era capaz de mover-se a mais velocidade que ele com o carro.
      O homem fez um gesto e abriu a porta.
      Damien entrou em grandes pernadas, dirigiu-se diretamente ao salo circular e deixou Shannon no sof. Eric Marquand ia atrs dele e Damien se voltou furioso.
      -Sal imediatamente daqui!
      -Quer que a ajude ou no?
      Tinha uma voz suave, serena. Damien tentou lhe ler os pensamentos e no encontrou neles nenhum indcio de maldade.
      -Pode ajud-la?
      -No estou seguro.
      -Se lhe fizer algum dano, matarei-te.
      -Para ser um de ns, tem muito pouca informao sobre os de nossa espcie, verdade? Jamais machucaria a um dos Escolhidos. Nenhum de ns pode fazer-lhe. Pelo
menos ningum dos que eu conheo -olhou para o sof, onde Shannon estava tremendo violentamente-. Necessitamos mantas. E acende o fogo.
      Damien o olhou com o cenho franzido. Pela informao que tinha daquele desconhecido, bem podia ser o assassino. No pensava deixar  Shannon a ss com ele nem
um segundo solo.
      -Encontrar mantas no armrio que h ao final das escadas.
      Marquand assentiu e comeou a subir. Damien se concentrou na chamin e os lenhos comearam a arder como tochas.
      Passou uma hora at que Shannon se tranqilizou e ficou dormindo. Ao final, o vampiro mais jovem resultou ser de grande ajuda; deu-lhe uma beberagem que preparou
para aliviar a dor e conseguiu lhe baixar a febre.
      Naquele momento, caminhava frente  chamin com aspecto sombrio.
      -Por que vieste? -perguntou-lhe Damien ao fim.
      -Se tivesse lido minhas cartas, saberia. Sou uma espcie de cientista -olhou a Shannon e sacudiu a cabea lentamente-. Me advertiram que poderia ser perigoso
aproximar-me de ti, mas tenho muitas perguntas que  fazer voc e espero que possa as responder.
      -No h nada mais?
      -S vim para ver seu espetculo, Damien. Ouvi contar coisas formidveis sobre voc e minha curiosidade venceu a minha prudncia. Depois, quando hei sentido
este problema, no pude deixar de ajudar -inclinou a cabea e olhou para  Shannon-. Nunca tinha visto um to loiro. A maioria deles so morenos, como ns -girou
a cabea-. Mas no tem por que se pr ciumento, amigo. Eu tenho j uma companheira, no desejo seduzir  tua.
      -No  minha companheira, como voc to curiosamente a h descrito.
      Marquand apertou os lbios.
      -O que vais fazer?
      -O que indicar que posso fazer? J viu quo doente est, mas se nega a ir a um hospital. Diabos, nem sequer sei o que ocorre.
      Eric o olhou com expresso de incredulidade.
      -No tinha conhecido alguma vez a um Eleito?
      - obvio que no! Maldito seja Marquand, indicar que eu gosto deste compromisso? Esta feral necessidade de cuid-la e proteg-la?
      -Tem muito que aprender, meu amigo -respondeu Eric com uma calma inaltervel.
      -No me chame assim. Eu no tenho amigos. No quero ter amigos.
      -Como voc queira. Mesmo assim, tem muito que aprender. Sobre ela, por exemplo. Quantos anos tm, por certo?
      -Quase seis mil. J v, comparado comigo,  uma menina.
      -E onde apareceu pela primeira vez?
      -A que vem tanta curiosidade?
      -No sei, passei-me toda minha existncia me fazendo perguntas e procurando respostas, experimentando.
      -E eu passei a meu completamente isolado, salvo pelas atuaes. No procuro nenhuma classe de intimidade com ningum -olhou a Shannon-. Esta noite tinha que
vir ao teatro. Mas temo que possa estar morrendo.
      -Nenhum dos Escolhidos vive mais de quarenta anos. Agora pelo menos sabemos e a medicina em que estive trabalhando lhes ajuda a aliviar os problemas de seu
final.
      O olhar do Damien voltava inexoravelmente para Shannon. A nica cor que via em seu rosto era o rubor de suas bochechas provocado pela febre.
      -Eu... No sabia.
      -De acordo, minhas perguntas podem esperar.  evidente que as tuas so mais importantes neste momento. Como te hei dito Damien, sou cientista. E a crua verdade
 que esses sintomas so os que experimentam Os Escolhidos quando esto perto da morte. Em realidade Shannon  mais jovem que a maioria. Mas tambm suas caractersticas
fsicas so nicas. Estou seguro de que, a menos que seja transformada, morrer.
      Damien tragou saliva e lutou contra as lgrimas que apareciam em seus olhos. Queria gritar, amaldioar aos deuses.
      -Quanto tempo fica?
      -Com quanta freqncia est sofrendo esses ataques?
      -Este  o segundo em uma semana.
      -Ento fica pouco tempo. Uns dias, possivelmente menos. Sofrer outro ataque, entrar em coma e no voltar a despertar. No se pode fazer nada. A medicao
a ajudar a estar relativamente cmoda -deu um passo adiante e posou a mo no ombro de Damien-. O sinto, Damien. Mas no sofrer, prometo-lhe isso.
      Damien escapou de sua mo e caminhou lentamente para ela. Ajoelhou-se ao lado do sof e tomou sua mo.
      -No posso suportar isto outra vez. No posso v-la morrer.
      -Damien, h poucos mortais no mundo emocionalmente capazes de viver como ns o fazemos. No  uma opo que possa tomar-se  ligeira.
      -A alternativa  deix-la morrer.
      -E ela o quereria? Conhece sequer a outra possibilidade?
      Damien no respondeu. Deixou que seus olhos vagassem pela deliciosa estrutura de seu rosto. No poderia suportar que lhe arrebatassem a vida  pessoa mais
vital que tinha conhecido nunca.
      -Esta vez no morrer, Damien. Recuperar-se. Ter tempo para explicar-lhe para lhe dar uma opo. Tem que ser uma deciso que ela tome -sacudiu a cabea lentamente-.E
ter que tom-la logo.
      -Me diga uma coisa, Marquand. Acredito que j sei, mas diga-me a de todas maneiras.
      -O que voc queira.
      -Voc matou a duas mulheres em Arista?
      -Tem razo, j conhece a resposta. Eu no as matei, Damien.
      Damien deixou cair a mo, levantou-se e se voltou para o Eric.
      -No, sei que voc no o fez. Ento... J no fica nada que fazer.
      -Por qu?
      -No tem nem idia, verdade? No,  obvio que no.  muito jovem, muito inocente. De onde obtm o alimento, Marquand? De animais?
      -De bancos de sangue -olhou ao Damien com o cenho franzido-. Que importncia pode ter isso?
      Damien apertou os dentes, baixou a cabea e se levou a mo aos olhos.
      -Maldita seja, a fome se faz mais forte, mais poderosa com a idade. Converte-se em algo impossvel de resistir. E s se acalma com o sangue de um ser vivo.
No posso v-la morrer, Marquand, mas tampouco posso condenar a viver assim -elevou a cabea e tirou o chapu enfrentando-se  diminuta figurinha da Inanna. Levantou
o cristal, tomou a figurinha e apertou o punho-. Maldito seja maldito seja o mundo e tudo o que h nele! -apertava o punho com tanta fora que a figura comeou a
pulverizar-se entre seus dedos.
      Marquand deu um passo adiante.
      -Te tranqilize, Damien. Tem que me explicar isto. Por favor, embora s seja pelo bem do Shannon. Est dizendo que... Tiveste que matar?
      Damien lanou os restos da miniatura ao fogo.
      -No, acredito que no -pensou nas duas mulheres assassinadas e na possibilidade de que ele fora o responsvel por suas mortes, mas no queria lhe transmitir
seu temor a aquele desconhecido.
      -No me precisa dizer isso Damien. Ouvi-te claramente.
      -Maldito seja, sai de minha cabea!
      No estava absolutamente acostumado a estar perto de outros capazes de lhe ler o pensamento. Ele era um professor em proteger sua mente dos pensamentos e os
sentimentos de outros, mas nunca tinha tido necessidade de proteger seus prprios pensamentos.
      -No importa -disse Eric. -Isso  fcil de aprender. Eu te ajudarei. Agora me diga, quando comeou a fazer-se to forte essa necessidade? A que idade se faz
necessrio consumir sangue de um ser vivo? S o pergunto por que quero te ajudar.
      -Ningum pode me ajudar.
      -Maldito seja, Damien. No seja to... Enkidu? Esse  o nome que acaba de...?
      Damien se voltou para ele.
      -Sai de minha cabea imediatamente se no quiser terminar convertido em uma bola de fogo.
      Para sua surpresa, Eric sorriu ante aquela ameaa.
      -Rhiannon me comentou que podia faz-lo, mas no sabia se acredit-la.
      -Quem demnios  Rhiannon?
      -Rhianikki, princesa do Egito.  trs mil anos mais jovem que voc. E at agora, era a vampiresa mais velha que conhecia. Mas jamais sentou o que voc diz.
De vez em quando bebe sangue de um ser vivo, mas s porque desfruta tirando o Roland de gonzo. Por isso te perguntei quando comea a ser to insupervel essa sede.
      Damien baixou lentamente o olhar. Roland. Recordava aquele nome. Tinha ajudado a aquele vampiro dois anos atrs. Ao pobre tipo o tinham drogado e o tinham
deixado ao sol. E Damien tinha ido resgatar -lo, apesar de seus votos de manter-se sempre isolado.
      -Damien?
      -Certamente, faz mais de trinta sculos -escrutinou o rosto do Eric.
      -V-o? Se a ela no a afetou, tem que haver alguma razo. Algo ao que ela tenha estado exposta e voc no. Talvez podemos averiguar o que .
      -O que quer de mim, Marquand? -perguntou com receio.
      -S quero falar contigo, que me conte isso tudo. Quero saber se for certo que pode trocar de forma e que conseguiste voar. Quero saber como faz todas essas
coisas. Quero...
      -E em troca, voc encontrar a resposta para minha sede insacivel -deu meia volta e se deixou cair em uma poltrona-. A situao piorou desde que conheo
Shannon. Basta-me cheir-la para me voltar louco.
      Eric soltou uma gargalhada.
      -Bom, esse no  exatamente o mesmo tipo de sede... Damien. Eu sentia o mesmo cada vez que olhava a Tmara. Sabe que para ns, o desejo sexual e a sede de
sangue se mesclam e  impossvel distinguir um do outro.
      Damien arqueou as sobrancelhas e estudou de novo a aquele homem. Realmente, eram muitas as coisas que sabia.
      - certo -disse Eric-.E essa classe de necessidade frentica piora quando o objeto de seu apetite  a mulher a que amas.
      -Eu no a amo! -bramou Damien, levantando-se de um salto-. De acordo, estou disposto a te contar tudo o que quer saber, mas no acredito que possa encontrar
uma soluo para meu problema, assim ter que me oferecer outra coisa em troca -voltou a sentar-se.
      -Me diga o que quer.
      -Necessito que me ajude a averiguar a verdade sobre a morte dessas duas mulheres. Necessito toda a ajuda que possa me oferecer. E se ao final resulta que...
Resulta que fui eu o que as matei... Ento quero que me destrua.


      Damien no queria acreditar o que Eric Marquand lhe dizia, que Shannon estava morrendo, que no podia fazer nada para salvar sua vida mortal. Mas enquanto
permanecia sentado ao lado da cama a que a tinha transladado e revisava os relatrios que a CIA tinha sobre  Shannon, encontrou a confirmao ao que Eric lhe havia
dito. Os relatrios mdicos eram concludentes. Os glbulos vermelhos de seu sangue pareciam estar desaparecendo de maneira inexplicvel. As transfuses no serviam
de nada; os glbulos novos morriam logo que lhe eram transferidos. E, em qualquer caso, tinha um tipo sangneo to estranho que teria resultado impossvel lhe proporcionar
um tratamento.
      Era aquele antgeno, a beladona. Eric lhe tinha falado dele. Os Escolhido eram humanos com esse antgeno no sangue e eram os nicos mortais geneticamente suscetveis
de ser transformados. Todos os imortais haviam possudo aquele estranho tipo sangneo quando eram mortais.
      O resto de seus rasgos no podiam ser explicados de maneira to fcil. Mas exsudavam algo que alertava aos vampiros de sua presena e os compelia a vigi-los
e proteg-los. A hiptese do Marquand era que se tratava de uma espcie de reao qumica.
      Mas enquanto Damien contemplava o rosto plido de Shannon, sabia que o que sentia por ela no estava s induzido pela qumica. E tinha que encontrar a maneira
de salv-la.
      Os relatrios sobre Shannon diziam que tinha sido abandonada por sua me. Tinha passado a infncia sendo transladada de uma agncia a outra. Aos dezesseis
anos, tinha chegado ao ltimo de seus lares de acolhida e nele tinha conhecido a Tawny. E poucos meses depois, as duas garotas tinham desaparecido. Tempo depois
seu pai de acolhida tinha sido condenado por abuso de menores. Aos poucos meses, havia-se suicidado.
      O muito canalha. Se no tivesse morrido j, o prprio Damien teria acabado com ele.
      -O que os? -perguntou Shannon de repente.
      Damien deixou os documentos a um lado e se inclinou sobre a cama. Damien tomou a mo; o impulso inicial foi leva a mo de Shannon aos lbios, mas ao final,
voltou a deixar-lhe sobre a cama.
      -Como te encontra?
      -Melhor, a verdade  que bastante bem.
      Mas no era certo. Estava-lhe mentindo. Shannon estava morrendo e sabia. Tinha-o sabido desde fazia tempo. Damien experimentou uma incrvel sensao de alvio
ao ver que a cor retornava a sua pele, mas no se permitiu mostrar esse alvio. Shannon no se sentia cmoda com ele; nem com sua preocupao. E lhe ocorreu pensar
ento que Shannon no queria que a quisesse. Nunca o tinha querido. E naquele momento, compreendia por que.
      Levantou-se o tempo que tentava combater o n que tinha na garganta. Shannon no tinha forma de saber que ele era consciente de seu estado. Tirou-lhe os lenis
e lhe estendeu a mo.
      -Vamos, te levante. Tem idia de quanto tempo leva dormindo? Toda a noite e todo o dia. J  de noite outra vez e Netty se nega a ir sem estar segura de que
voc encontra se melhor. Vamos ao piso de abaixo ou nunca nos desfaremos dela.
      Shannon pareceu vacilar. Mas de repente, sorriu e deslizou a mo entre a sua. Damien a estreitou com fora.
      -Est o bastante forte para andar? Quer que  leve voc nos braos?
      Antes que tivesse podido responder, a porta do dormitrio se abriu de par em par. Apareceu Netty no marco da porta, olhou Shannon e cruzou correndo a habitao
para envolv-la em um abrao.
      Soltou-h um instante para voltar-se para  Damien.
      -Fora daqui. Shannon precisa dar um banho, trocar-se de roupa e tomar um ch. Te vais pr bem, criana. Netty se assegurar de que ponha bem -Shannon olhou
Damien aos olhos e este sentiu o calor de sua mensagem.
      -Agora v-se -insistiu Netty-, Seu amigo, o senhor Marquand, est esperando-o no piso de abaixo. Levarei-lhe  Shannon quando estiver preparada.
      Damien reuniu os documentos que tinha estado lendo e abandonou a habitao.


      Enquanto se banhava e vestia, e deixava que Netty lhe escovasse o cabelo, a idia no deixava de lhe devorar as vsceras. Damien deveria saber a verdade.
      J tinha suportado a agonia de perder a um amigo; tinha conseguido sobreviver a uma perda que poderia hav-lo traumatizado. O que ocorreria se a histria voltava
a repetir-se? A nica soluo possvel era lhe dizer a verdade antes que chegasse a apreci-la muito.
      Netty a ajudou a baixar as escadas e a deixou, no sem antes lhe desejar boa noite. Shannon se dirigiu ento para a biblioteca com o corao destroado. Deus,
quanto gostaria de desfrutar de uma s noite com o Damien, explorar aquela atrao que parecia emanar dele para ela, descobrir os segredos da paixo. Mas seria injusto
para o Damien. No podia permitir o luxo de aproximar-se mais a ele, nem fsica nem emocionalmente. Tinha que lhe advertir quanto antes de seu sombrio futuro e partir.
      Shannon se deteve na porta da biblioteca, surpreendida ao ver os dois homens com a cabea inclinada sobre a mesa. Damien elevou o olhar, viu-a e se levantou
de um salto. Em menos de um segundo, tinha cruzado a habitao e, por um instante, Shannon teve a convico de que ia envolv-la em um abrao e a estreit-la com
fora contra seu peito.
      Mas sua fantasia morreu assim que Damien chegou frente a ela e posou as mos sobre seus ombros como se queria impedir que casse. Estava-a tocando, sim, mas
era um contato completamente impessoal; uma questo de cortesia mais que de paixo. E como Shannon estava disposta a manter as distncias, supunha que deveria lhe
estar agradecida.
      -No deveria estar levantada, Shannon. Precisa descansar -comeou a dizer Damien.
      -J terei tempo para descansar mais adiante. Agora me encontro bem -olhou por cima de Damien e advertiu que seu acompanhante era o homem ao que havia visto
justo antes de deprimir-se-. Ol outra vez, temo-me que no me lembro de...
      -Marquand, Eric para voc. Tem muito melhor aspecto que a ltima vez que te vi -se levantou enquanto falava-Me alegro de que te encontre melhor.
      -Obrigado -Shannon olhou para o escritrio e, ao ver os documentos que repousavam sobre ele, franziu o cenho e correu at eles-, DIP? Ento a Diviso de Investigaes
Paranormais  real?
      - uma subdiviso da CIA e acredito que o senhor Bachman trabalha para ela -respondeu Eric sombrio.
      -Investigaes Paranormais? Nisso se gastam o dinheiro de meus impostos? Mas se eu pensava que esse tipo estava completamente louco e...
      -Tudo isto  um punhado de sandices, Shannon -Damien deu um passo adiante, empilhou perfeitamente os documentos e os guardou em uma das gavetas do escritrio.
      -Mas por que lhe esto investigando voc? Ou a mim, pelo amor de Deus?
      Nenhum dos homens dizia nada, embora Shannon aguardasse na espectativa. Ento recordou as perguntas que Bachman lhe tinha feito. Estava interessado no assassinato
de Tawny. Ficou-se com seu cadver. Havia...
      -O que me est dizendo  que o que h nos documentos de Bachman  certo, que no so s as divagaes de um luntico. Essa agncia crie realmente nos vampiros.
E no s isso, mas tambm pensa que um deles anda solto por Arista.
      -Sim, assim  -respondeu Eric.
      Shannon se voltou para  Damien.
      -E acreditam que  voc, verdade?
      -Utilizam os recursos do governo para investigar fenmenos paranormais -lhe explicou Damien com calma, ao tempo que dirigia a Eric um olhar com a que poderia
ter murchado um ramo de rosas frescas-. Suponho que seu principal objetivo  descobrir a possveis enganadores, Shannon. Talvez seja capaz de averiguar de que maneira
conseguiram que a morte de Tawny parecesse obra de um vampiro.
      -Est seguro de que isso  tudo? -Shannon procurou o olhar de Eric, mas este a desviou-. Porque Damien, se a opinio de Bachman  representativa da do resto
da agncia, essa gente est falando muito a srio e sua imagem poderia terminar pelos chos. Mas possivelmente poderia arrum-lo. Organiza uma roda da imprensa 
luz do dia, lhes oferea provas, anlise de sangue, o que seja... -interrompeu-se em meio de sua perorao e olhou alternativamente aos dois homens-. O que lhes
passa? Por que me olham assim?
      -Agora tenho que ir  -disse Eric brandamente; dirigiu ao Damien um olhar que parecia carregada de mensagens.
      -Eric, em qualquer caso, por que est envolto voc em tudo isto?
      Eric lhe sorriu.
      -Tive alguns encontros com a DIP em ocasies anteriores e pensei que poderia lhes servir de ajuda -se voltou, despediu-se de Damien com um assentimento de
cabea e partiu.
      Shannon o observou partir com expresso de desconcerto. Que demnios estava ocorrendo entre aqueles dois homens? Era evidente que sabiam algo que lhe ocultavam.
Voltou-se para Damien e, ao advertir a ansiedade de sua expresso, suspirou. Damien estava preocupado por ela.
      -Ns n... acredito que temos que falar.
      Damien assentiu, mas no parecia muito disposto a manter uma conversao de corao a corao.
      -Eu gostaria de saber o que esteve acontecendo aqui embaixo.
      -Estivemos falando do assassinato. Eric quer nos ajudar a chegar ao fundo deste assunto.
      -E tambm estavam falando de Bachman e da DIP. Como pensa voc enfrentar a eles, Damien?
      -Ainda no o decidi, mas, certamente, no penso estragar uma imagem que me levou anos aperfeioar.
      -Damien, se esse homem acreditar que  um vampiro, ter que fazer algo.
      -No, no penso fazer nada.
      Shannon entrecerro os olhos, deu um passo adiante, inclinou-se sobre a escrivaninha e o olhou aos olhos.
      -Est-me ocultando algo, no o negue, vejo-o em seus olhos. O que  Damien?
      -Nada do que tenha que preocupar-se, Shannon.
      -Se for algo que tem que ver com o assassinato de Tawny, preocupa-me -sacudiu a cabea zangada e comeou a caminhar, afastando-se dele-. No o compreende,
Damien? Vivo para apanhar a esse tipo. No h nada mais importante para mim. Nada.
      Quando se voltou para olh-lo outra vez e viu a intensidade de seu olhar, esteve a ponto de corrigir-se.
      Havia algo que estava comeando a ser mais importante inclusive que seu desejo de vingana. Ele.
      -E o encontraremos.
      -Como?
      -J pusemos as engrenagens em movimento ao te fazer aparecer comigo a outra noite. Tenha pacincia. D-me um pouco de tempo.
      -No posso ter pacincia, e no tenho tempo - Damien fechou os olhos com fora para ouvir suas palavras-. J s fica uma funo, Damien, e se ele no faz nenhum
movimento, nunca saberemos quem .
      -Averiguaremo-lo -insistiu Damien.
      Shannon elevou os olhos ao cu e sacudiu a cabea; estava farta daquelas ambigidades. Damien a agarrou ento pelos ombros.
      -Tenho uma surpresa para ti. Por que no se esquece de tudo isto um momento? Estiveste doente, precisa te relaxar.
      -Uma surpresa?
      Damien assentiu, agarrou-a pela mo e lhe fez abandonar a biblioteca e cruzar o salo circular at chegar  porta da rua. Abriu-a de par em par e assinalou
para fora com um gesto triunfal.
      -Voil.
      O Stingray do Shannon resplandecia sob uma flamejante capa de pintura vermelha. Inclusive as rodas pareciam novas.
      -Esse ... Meu carro?
      Damien atirou dela para lhe fazer baixar os degraus da entrada. O vento de outubro aoitava seu cabelo negro de uma forma que fez desejar ao Shannon afundar
seus dedos nele. Damien se deteve o lado do carro, abriu a porta do condutor e correu depois ao outro lado para abrir a de passageiros.
      -Vamos, entra. Aqui fora faz muito frio.
      Shannon se tinha ficado sem fala. Sentou-se atras do volante, alargou a mo para a chave de ignio e se deteve com os olhos arregalados.
      -O que  isso? -olhou ao Damien de relance.
      Este se inclinou para diante e pressionou um boto. O ltimo xito do Spint Doutor comeou a soar do reprodutor dos CDs que acabavam de instalar no carro.
Shannon alargou a mo para baixar o volume. Quando voltou a olhar  Damien, tirou o chapu a si mesmo batalhando contra as lgrimas.
      -Por qu?
      -Queria-o pintar de vermelho e eu tinha dinheiro, por que no?
      Era to considerado, to doce, que se tinha acordado da histria do carro de brinquedo. Inclusive da cor.
      -E o reprodutor dos CDs?
      -Parecia gostar do meu.
      Ningum tinha tido um gesto to amvel com ela desde que Tawny lhe tinha dado aquele estpido carro no dia de seu aniversrio. Ela no queria que Damien a
quisesse maldita fora... Mas Deus, sentia-se to bem sabendo que a queria... Era algo bom, e triste, e terrvel ao mesmo tempo.
      Alargou a mo para seu rosto. Os olhos de Damien se obscureceram. Shannon logo que era capaz de suportar seu olhar atravs do vu das lgrimas. Ao Damien tremeram
ligeiramente os lbios. E ento se voltou.
      -No tem importncia, Shannon. Vamos, ponha o carro em marcha -alargou a mo para subir o volume da msica.
      Shannon se mordeu o lbio e acendeu o motor.











 Captulo 11

      Shannon tirou o CD de Doctors e ps um do Sting. Damien tinha metido uma caixa cheia dos CDs no porta-luvas. Aquele homem era uma caixa de surpresas. Shannon
se sentia como se fora uma espcie de deliciosa tortura o que tivesse feito algo to maravilhoso por ela. No estava segura de se lhe doa ou a fazia sentir-se bem.
Tampouco sabia se rir ou chorar, se estar jubilosa ou deprimida. E experimentar aqueles sentimentos lhe resultava exaustivo.
      Quo nico sabia era que o diminuto interior do carro os obrigava a estar mais perto e que as palavras carregadas de sentimentos que fluam dos alto-falantes
enchiam o pouco espao que ficava entre eles.
      Enquanto conduzia atravs daquela fria noite de outono, se via mais atenta ao Damien que na estrada. De seu rosto de feies fortes e daqueles lbios to sensuais
que pareciam uma fruta amadurecida pronta para ser devorada.
      Damien posou a mo sobre o volante para girar  esquerda. Shannon fixou o olhar na estrada, mas sabia que no seria capaz de ret-la ali durante muito tempo.
Tomou uma intercesso e conduziu de volta para a casa.
      Se havia algo que realmente desejava antes de morrer, era fazer amor com aquele homem. O nico problema era que dessa forma poderia terminar lhe fazendo sofrer.
Com o profundamente que Damien sentia as coisas, poderia terminar destroando-o. E pensar que tinha chegado a acreditar que ele podia ter sido um assassino... Deus,
tinha uma confuso de sentimentos absoluta.
      Assim que o melhor seria que se concentrasse no mais importante de seus objetivos: encontrar ao assassino.
      -Sabe? No vai fazer nunca um movimento contra mim enquanto esteja contigo.
      Shannon olhou ao Damien enquanto o dizia. Este pestanejou como se acabasse de tirar o de algum pensamento profundo.
      -O que?
      -Nosso assassino. No  provvel que me ataque estando voc comigo e sabe.
      -Possivelmente eu no tenha tanta pressa como voc por ver como te assassina.
      -Eu tenho pressa por apanh-lo.
      -No penso deixar que v sozinha e com um alvo na testa.
      -Ento quer que escape? Porque isso  o que vai passar, Damien.
      -J nos ocorrer algo.
      -Com isso no basta -Shannon girou lentamente para o caminho da casa e Damien utilizou um mando que tirou do bolso para abrir a porta por controle remoto.
      -Depois da seguinte apresentao...
      -A ltima apresentao.
      -Exato, quando tudo termine, poderamos organizar algo. Lhe fazer acreditar que est sozinha sem que realmente o esteja e tentar apanh-lo.
      -No quero esperar tanto tempo -principalmente, porque duvidava de que Damien estivesse disposto a levar adiante aquele plano.
      -Shannon,  muito arriscado. Esse deveria ser o ltimo recurso. Com um pouco de sorte, mostrar a si mesmo antes que tenhamos que nos arriscar.
      Shannon apagou o motor. Ela tinha suas prprias idias sobre o que podiam ou no arriscar naquele caso. Para ela, o maior risco era que o assassino escapasse.
Ela ia perder a vida de todas as maneiras.
      -Est cansada -Damien posou a mo em seu ombro.
      -Demnios, Damien, dormi quase trinta e seis horas, como vou estar cansada? -mas no disse que no o estivesse. Estava-o, de fato. Estava esgotada.
      -Ainda est plida.
      -Ao melhor esse louco de Bachraan termina pensando que eu tambm sou um vampiro.
      Damien no riu aquela brincadeira. De fato, por um instante pareceu inclusive dodo. Shannon abriu a porta do carro.
      -Assim no vais deixar me levar a cabo meu plano esta noite -saiu do carro e caminhou para a porta sabendo que Damien ia atrs dela-. Ento o que te parece
que passemos o resto da noite revisando essas notas que Eric Marquand trouxe sobre voc? Todas essas loucuras da DIP -esperou na porta enquanto Damien a abria.
      -Isso j o temos feito. E no h nada que possa nos ajudar -fechou a porta e jogou a chave.
      Shannon cruzou o vestbulo e caminhou para aquela habitao circular que estava comeando a adorar. Deixou-se cair em um sof. Damien no queria que revisasse
os documentos que Eric lhe tinha entregado. Tinha-os guardado sob chave assim que ela tinha entrado na biblioteca.
      -Ento podemos ir ver o Bachman a seu hotel e lhe fazer algumas perguntas, o que te parece?
      Damien pestanejou rapidamente.
      -Amanh tenho algumas entrevistas, assuntos de trabalho, estarei fora a maior parte do dia.
      -OH.
      Esperava que sua voz no refletisse sua desiluso. No gostava de passar todo o dia sozinha... Embora aquilo lhe brindasse a oportunidade perfeita para jogar
uma olhada aos documentos que tinha escondido no escritrio.
      Damien cruzou at a chamin, jogou um par de lenhas e se sentou no cho, sobre as almofadas.
      -Est cansada? Quer descansar um pouco?
      -Amanh terei todo o dia para descansar enquanto est voc fora.
      - uma boa idia.
      Shannon se incorporou ligeiramente para sentar-se sobre suas pernas.
      -Esse aparelho funciona?
      Damien seguiu o curso de seu olhar at um aparelho de televiso.
      -Sim, mas no o utilizo muito. Estou acostumado a ver as notcias e vdeos de outros magos. Ajuda-me a descobrir meus prprios defeitos.
      -Me acredite, Damien, se tiver algum defeito,  completamente invisvel ao olho humano.
      Damien h olhou um pouco surpreso. A prpria Shannon no podia acredit-lo que acabava de fazer.
      Estava paquerando com ele. Estava sendo uma repugnante egosta.
      -Tenho defeitos, Shannon.
      OH, por que seus olhos a atraam corno se fossem dois ms gigantescos? E por que no parecia ter fora suficiente para resisti-lo?
      -Quais so seus defeitos?
      -Sairia correndo se lhe dissesse isso.
      Shannon sacudiu com a cabea e viu admirao nos olhos de Damien quando sua juba voou ao redor de seu rosto.
      - preciso muito para me assustar. No  tenho medo de  voc.
      Damien elevou a mo, que pareceu elevar-se como por arte de magia, e a posou em seu cabelo, vacilante, insegura.
      -Talvez me devesse ter isso.
      Shannon se balanou para diante. Seu crebro parecia ter deixado de ter influncia sobre as aes de seu corpo. Fechou os olhos, inclinou o rosto e pressionou
os lbios de Damien com os seus. Sentiu-os tremer ligeiramente, pareciam a ponto de apartar-se. Ento pressionou mais forte, entreabrindo os lbios em um delicado
convite.
      O suspiro de Damien a encheu. Shannon se embebeu nele enquanto Damien afundava a mo em seu cabelo, posava-a em sua nuca e sustentava seu rosto contra o seu.
Abriu os lbios e deslizou a lngua entre eles para lamber o interior de sua boca. Shannon a abriu mais para lhe permitir todo o acesso a seu corpo que ele pudesse
desejar.
      Mas Damien a apartou. Levantou-se e ficou de costas a ela. Passou-se a mo pelo cabelo e inclinou a cabea enquanto fixava o olhar no fogo. Os tremores que
Shannon sentia sacudindo seu corpo eram reflexos da postura inquieta de Damien e de sua respirao agitada.
      -Sinto muito, Shannon.
      Shannon permaneceu onde estava. Se levantava, jogaria-se em seus braos como uma mulher sedenta de amor.
      -Eu no. Jamais me tinham beijado dessa maneira.
      -Ento, os homens aos que conheceste eram uns estpidos.
      No a olhava. Shannon sorriu ante aquele completo. Um quente prazer fluiu por suas veias.
      -Nunca me importou. Eu no desejava a nenhum deles.
      Advertiu que esticava as costas. No podia ter passado por cima sua insinuao.
      Damien se voltou lentamente e a olhou.
      -Shannon me acredite, no quer perder o tempo comigo, sobre tudo se no ter estado nunca com nenhum homem. Isso  algo muito precioso como para...
      -Pelo menos seja sincero -Shannon se levantou frustrada, zangada e ferida. Voltou-se disposta a partir.
      Damien a agarrou por ombro e a obrigou a voltar-se para enfrentar-se a ele.
      -Shannon, sinto muito...
      -No o sinta. Sobreviverei -sacudiu a cabea com dureza, fazendo cair o cabelo sobre seu rosto como se fosse uma cortina-. Jamais acreditei que pudesse chegar
a desejar a um homem.  irnico, no te parece? Que quando por fim o fao, esse homem no me deseja.
      As mos de Damien tremeram sobre seus ombros. De repente, estreitou-a contra seu peito e pressionou seus seios contra ele. Cobriu sua boca, apanhou-a e afundou
a lngua nela para embeber-se e acariciar seu interior. Cada vez mais rpido, mais forte, mais profundamente. Shannon lhe rodeou o pescoo com os braos e afundou
os dedos em seu cabelo azeviche ao tempo que acariciava sua lngua. Deus tinha um gosto to bom... Desejava-o tanto que o desejo era como uma fora viva em seu interior.
Sentiu seus quadris balanando-se contra as suas e se arqueou em resposta contra ele. Sentiu no ventre a presso de sua ereo, uma presso dura, forte e insistente.
      Um ligeiro tremor a sacudiu, acompanhado de lembranas aos que estranha vez se permitia acessar. Lembranas de outras mos torpes e grosseiras. E do medo.
Damien pareceu advertir sua vacilao, porque elevou a cabea.
      -Shannon?
      -S... Me prometa que no me far mal.
      Damien fechou os olhos e se afastou ligeiramente dela.
      -No te farei mal, Shannon. Jamais. E esse  o motivo pelo que esta loucura no pode continuar.
      -Loucura?
      Damien a fez voltar-se ento para a porta e a urgiu a caminhar at as escadas.
      -Vete  cama, descansa. E no te ocorra pensar nem por um instante que no te desejo Shannon. Desejo-te muito.
      Shannon se voltou e procurou seu rosto. No compreendia nada. Damien tinha acendido um fogo em seu sangue e ela queria que ele mesmo o apagasse.
      -Vamos, agora -eram palavras duras, pronunciadas com aborrecimento ou desespero.
      Shannon correu para as escadas lutando para no chorar antes de chegar ao dormitrio. No queria que Damien advertisse sua frustrao. Havia dito que a desejava.
Mas se assim fora, teria passado com ela aquela noite. Shannon se tinha humilhado atuando como uma prostituta, oferecendo-se como se fora algo que fizesse cada dia.
Damien no tinha forma de saber o quanto havia sido duro abrir-se a ele daquela maneira. Assim que fechou a porta de sua habitao, deslizou-se at o cho enquanto
os soluos lhe rasgavam o peito.

      O vaso estalou em pedacinhos. Damien esticava e relaxava os punhos lutando contra o desejo que ameaava devorando. Jamais tinha desejado a ningum como desejava
a Shannon. O desejo lhe destroava o crebro, rugia em seus ouvidos como se fora um drago incendiando sua alma e lhe devorando a mente.
      Nem mesmo Inanna poderia ter inspirado uma paixo como aquela.
      -Damien?
      Damien girou sobre seus ps e descobriu ao Eric Marquand frente a ele.
      -Est bem?
      -No, maldita seja, no estou bem. Tenho aspecto de est-lo?
      Marquand se voltou como se queria esquent-las mos na chamin, mas Damien suspeitava que o que realmente pretendia era ocultar sua expresso.
      -J te apaixonaste por ela?
      -Essa  a pergunta mais estpida que...  obvio que no. Acha que sou idiota?
      -No, no acredito que seja idiota Damien.
      - desejo fsico, nada mais. E  s porque estou passando muito tempo com ela -Damien saiu a grandes pernadas ao vestbulo e tomou um casaco que tinha pendurado
em um cabide-. Preciso andar e tomar um pouco de ar fresco.
      -No  s desejo, Damien -Marquand continuava a seu lado-.E andar no vai servir te de nada.
      -Ah, no? E o que  o que poderia me servir? -imprimiu a sua voz o suficiente sarcasmo como para que no passasse despercebido.
      -Fazer o amor com Shannon.
      Damien ficou completamente quieto de costas para Marquand. Quando falou, sua voz no era mais que um suspiro enrouquecido pela dor e a frustrao.
      -No posso fazer isso. Tenho medo de... -no pde terminar a frase.
      -Tem medo de mat-la, sei amigo.
      -Hei-te dito que no me chame assim.
      -Me continua dizendo isso possivelmente algum dia te faa caso -Marquand vestiu o casaco e se grampeou com calma os botes, um a um-. Damien, eu no acredito
que tenha matado a nenhuma dessas mulheres e tampouco acredito que pudesse machucar a Shannon, mas suponho que  melhor que te reprima at que esteja seguro. De
momento, iremos dar um passeio, se voc acha que isso pode ajudar.
      Damien se voltou lentamente, procurou seu rosto e sentiu, pela primeira vez, o vnculo invisvel que os unia. Eram irmos. Marquand queria ajud-lo a superar
aquela tortura infernal. E sab-lo o comoveu profundamente. Tinha evitado durante tanto tempo aquele tipo de proximidade que no sabia como atuar, o que dizer. Tragou
saliva e sacudiu a cabea.
      "Eu isto no o quero, maldito seja. No quero apreciar a este homem... Nem a Shannon".
      -Muito tarde -sussurrou uma voz que no soube de onde tinha sado.
      Procederia da mente de Marquand? Voltou-se para ele procurando resposta. Mas Eric se limitou a sorrir vagamente e abriu a porta.


      Shannon fingiu dormir quando ouviu a chave de Damien na fechadura justo antes do amanhecer. Sabia que se aproximaria de v-la. Sentiu as gemas de seus dedos
nas bochechas, lhe apartando o cabelo da cara. Cheirou-o, sentiu seu calor, ouviu sua respirao. E desejou abrir os olhos e alargar os braos para ele. Deus, queria
sentir seus braos a seu redor, estreitando-a com fora contra ele. Que lhe fizesse sentir que queria t-la mais perto dele, mais perto do que dois seres tinham
estado jamais. Queria sentir seu corao pulsando ao mesmo ritmo que o seu, queria...
      Fechou sua mente a aqueles pensamentos. Resistiu  tentao de mover o rosto contra sua mo. Quase podia sentir os pensamentos de Damien tentando alcan-la,
ouvir sua mente lhe dizendo que descansasse durante todo o dia, que permanecesse na cama at que ele fora a procur-la.
      Eram estranhas as coisas que sua mente conjurava. Fechou-a ao Damien, negava-se para ouvir aquelas coisas que imaginava estava lhe dizendo. Uns segundos depois
sentiu o roce acetinado de seus lbios no rosto. E quase imediatamente, Damien se foi.
      Shannon no se levantou at que a casa parecia estar anunciando a gritos sua solido. Tomou banho, vestiu-se e baixou correndo as escadas. Chamou o Damien,
no caso de, mas no obteve resposta.
      Tinha sido uma estpida, naquele momento o compreendia. A atrao que sentia por aquele homem a tinha distrado de seu objetivo e tinha perdido um tempo precioso.
      Mas no voltaria a ocorrer. Damien lhe estava ocultando dados, dados que tinham que ver com o assassino de Tawny e com o Bachman. E tinha que averiguar o que
era.
      Dirigiu-se  biblioteca e olhou a seu redor antes de fechar a porta. Rodeou a escrivaninha, deteve-se depois da gaveta e, utilizando um abre cartas, abriu-o.
Tirou dali a pastas que procurava e o levou a habitao circular. Jogou dois troncos sobre as brasas da chamin e esperou a que o fogo cobrasse vida. Por um momento,
o resplendor das chamas lhe recordou o incndio que se produziu em seu apartamento, a sensao de estar apanhada, o medo. Mas o lugar no que se encontrava era justamente
o contrrio a aquele inferno.
      Sentou-se entre os almofades e almofadas que havia no cho, mas o resplendor de um objeto que refletia as chamas a fez deter-se. Ajoelhou-se e viu vrias
peas do que em outro tempo tinha sido um vaso de nix.
      Franzindo o cenho, reuniu os diferentes fragmentos que foi encontrando sobre o tapete e os tirou da habitao.
      Tentou no imaginar como se quebrado aquele vaso. Tentou no perguntar-se se Damien se haveria posto furioso, ou se sentiria frustrado, ou se, simplesmente,
tinha sido uma estupidez. E, pela primeira vez, perguntou-se se possivelmente Damien no estaria lhe dizendo a verdade quando confessava que a desejava. Possivelmente
fossem outras as razes pelas que a rechaava, mas quais?
      J estava bem. Tinha chegado  concluso de que pensar no Damien s servia para distrair a de seu propsito, de modo que se sentou, abriu a pastas e comeou
a ler.































 Captulo 12

      Damien despertou quando chegou  noite no dormitrio do terceiro piso, situado depois de uma porta dissimulada. Abriu os olhos e seus sentidos foram aguando-se
gradualmente em resposta aos estmulos habituais. A suavidade dos lenis de cetim que acariciavam sua pele nua. Amaciada-a travesseiro de plumas sobre a que apoiava
a cabea. O calor do fogo na chamin. A msica do estreo que se acendia automaticamente ao anoitecer.
      Aquela habitao tinha sido especialmente desenhada para proporcionar conforto a uma existncia pouco confortvel. Damien obtinha prazer ali onde podia encontr-lo.
Nos objetos, em vez de nas pessoas. Rodeou-se das mais modernas tecnologias, dos tecidos mais caros, das fragrncias mais agradveis e dos sons mais melodiosos.
Mas quando esteve completamente acordado, compreendeu que nada daquilo era suficiente. J no. Desejava  Shannon.
      Desejava o calor de sua pele contra a sua, em vez do frio do cetim. Desejava que sua ertica fragrncia o enchesse. Queria que o rodeassem seus suspiros de
prazer.
      Sentou-se lentamente na cama enquanto ia recuperando as foras. Limpou sua mente e foi ento quando percebeu uma sensao de vazio na casa. Shannon se tinha
ido.
      Saltou da cama e tentou abrir a mente de Shannon  sua, mas sua mente se negava a concentrar-se. Seu crebro lhe estava pedindo ao e ele obedeceu. Vestiu-se
rapidamente e baixou ao primeiro piso.
      Netty o estava esperando ao p da escada.
      -Deixou uma nota -disse, como se lhe estivesse lendo o pensamento-. Na biblioteca, em cima da escrivaninha.
      Damien passou por diante dela para dirigir-se  biblioteca. Netty correu a seu lado.
      -Estava em casa quando se partiu, Netty?
      -No. Passei o dia entrando e saindo, fazendo compras e indo pagar algumas contas. Quando entrei em sua habitao, ainda estava dormindo.
      Damien se aproximou da escrivaninha a grandes pernadas e abriu o sobre no que Shannon tinha rabiscado seu nome. Damien comeou a ler. Olhou a Netty por cima
do papel, esta assentiu imediatamente e se voltou para deixar a habitao. Quando fechou a porta, Damien continuou lendo.

       No podia ficar depois  de ontem  noite. No sei se serei capaz de voltar a verte depois de meu comportamento, sinto muito. Equivoquei-me ao te pr nessa
situao e no quero que se sinta culpado ou responsvel pelo ocorrido. Voc no tem feito nada, salvo me cuidar.  o homem mais amvel que conheci nunca, Damien.
Possivelmente seja essa a razo pela que te desejo.
       Espero que possa compreender por que preciso passar algum tempo a ss. Por favor, no me busque. Quero estar sozinha e espero que possa respeitar meu desejo.

      No havia nada mais. S seu nome rabiscado ao final da folha. Mas Damien lia o que havia detrs de suas palavras. Sua dor. A dor que lhe tinha causado. Shannon
estava envergonhada de seus atos, envergonhada de desej-lo. Maldita fora, isso era quo ltimo ele pretendia! E algo mais; havia algo em suas palavras que soava
como uma espcie de advertncia e que no podia ignorar.
      Shannon no tinha ido a nenhuma parte. Estava convencido disso inclusive antes que Marquand chegasse quase sem respirao e lhe tendesse uma folha de papel.
      -Tem que sair daqui -lhe disse sem prembulos-. Falo a srio, Damien. Aqui no est a salvo.
      Damien o ignorou; continuava tentando averiguar a verdade que se escondia depois das mentiras de Shannon.
      -Damien, est-me ouvindo? Bachman sabe onde descansa. Tentar vir a por ti durante o dia, quando est completamente indefeso.
      Por fim, as palavras do Marquand puderam abrir-se passo no meio da dor.
      -Impossvel ningum sabe onde descanso.
      Marquand lhe tendeu ento um pedao de papel e Damien baixou o olhar para aquela breve nota.

       Bachman, dorme em uma habitao escondida no terceiro piso. A entrada tem que estar na habitao de convidados do segundo piso, embora no sei onde exatamente.

      No havia assinatura e era uma nota datilografada, de modo que no havia maneira de analisar a letra. Damien sacudiu a cabea com incredulidade.
      -Netty?
      - possvel.
      -No posso acreditar que tenha sido capaz de...
      -No sei do que outra forma esse canalha pde conseguir essa informao, mas j nos preocuparemos com isso mais tarde. De momento, tem que procurar outro lugar
no que descansar.
      Damien continuava olhando a nota com o cenho franzido.
      -Como a conseguiste?
      -Quo nico tive que fazer foi ir procurar as mensagens que lhe tinham deixado ao Bachman -inclinou a cabea-. Damien tem que aprender a utilizar seus poderes
mentais para influir nas aes humanas. Fiz que a recepcionista abandonasse o mostrador durante uns minutos e retirei estas mensagens. Muito singelo.
      -Se for to singelo, onde est Shannon?
      Eric arqueou uma sobrancelha com expresso interrogante.
      -Disse-lhe que descansasse at meia noite. Mentalmente. Outras vezes tinha funcionado, mas esta vez no. Quando me despertei, partiu-se.
      -Interessante.
      -Interessante?  perigoso.
      - possvel que tenha decidido te fechar sua mente.  um truque que inclusive os humanos podem aprender, embora poucas vezes acontea. Mas, em qualquer caso,
no tem nenhum motivo para faz-lo, posto que no tenha a menor idia do que . Porque no o h dito, verdade?
      - obvio que no o hei dito.
      -Ento, tem-na feito zangar de algum jeito?
      -Olhe, neste momento, no me importam nem o como nem o por que. Shannon se foi e tenho a sensao de que est em perigo. E o nico que deveramos estar fazendo
neste momento  procur-la.
      -Adiante, busca , o que te detm?
      Damien assentiu com dureza e alargou a mo para a porta. Comearia com o carro. Seria mais fcil lhe seguir o rastro. Uma mo firme no ombro o deteve.
      -Sente-se, Damien. Esclarece sua mente. Abre-a, procura  Shannon...
      -Mas se ela me fechou sua mente...
      -No pode influir nela, mas deveria ser capaz de sentir sua presena, de sentir o que a rodeia, de discernir se estiver a salvo.
      -No estou seguro de que possa faz-lo. Meu deus, Eric, voc no o entende. Nunca utilizei minhas habilidades psquicas. Nunca quis faz-lo -elevou o olhar,
como se de repente lhe tivesse ocorrido algo- por que no o faz voc?
      -Escolhidos conectam quase sempre com um s vampiro, Damien. E, se por acaso no te deste conta ainda, voc  esse nico vampiro para  Shannon. Eu poderia
senti-la ternamente, sobre tudo se estivesse em perigo. Mas a ti tem que te resultar muito mais fcil. Por favor, tenta-o.
      Damien assentiu. Retornou ao salo, sentou-se em um sof e tentou relaxar-se e deixar a mente em branco. Fechou os olhos.
      -Agora j s nos falta Rhiannon com o incenso e as velas -murmurou Eric. Damien abriu os olhos e arqueou as sobrancelhas-. Nada, estava falando comigo mesmo.
Te concentre, Damien. Te concentre em Shannon. Coloca sua imagem frente a seus olhos. Faz-a viver em seu interior at que possa senti-la.
      Damien fechou os olhos outra vez e encontrou assombrosamente fcil levar  Shannon a sua mente. Bastava-lhe recordando o sabor de sua boca e seu quente interior.
Moveu-se incmodo em seu assento, mas continuou concentrado. A sensao de perigo se incrementava com cada um de seus pensamentos.

      Era absolutamente incrvel. Nenhuma pessoa em seu so julgamento podia acreditar que aquilo fora verdade.
      Mas parecia certo. Shannon tinha lido as notas sobre a DIP. A Diviso de Investigaes Paranormais. Era uma organizao secreta e a nica razo de sua existncia,
segundo as notas de Marquand, era localizar e destruir vampiros, utilizando o libi de querer descobrir seus segredos atravs da investigao. Marquand sustentava
que a organizao era responsvel por assassinatos, seqestros e torturas de vampiros.
      Dizia que sua prpria esposa, no, companheira, esse era o trmino que utilizava, tinha sido seqestrada por aqueles cientistas desumanos. E isso tinha ocorrido
quando ainda era mortal. Antes que tivesse sido transformada.
      Quando terminou de ler aqueles documentos, Shannon estava tremendo. Marquand estava to louco como Bachman. Inclusive acreditava que ele mesmo era um vampiro.
Realmente acreditava.
      E, ao parecer, tambm Damien acreditava. Em caso contrrio, no teria contnuo mantendo nenhum tipo de relao com aquele homem.
      Mas tinha que deixar de pensar nisso. Tinha que manter-se alerta.
      Tinha deixado  manso de Damien em seu carro e tinha estado conduzindo durante um par de horas com inteno de chamar a ateno do assassino. Depois, dirigiu-se
a seu escritrio.
      Uma vez no interior, assegurou-se de que tinha a pistola carregada e se sentou a esperar.
      A morte tinha sido uma sombra que durante muito tempo tinha estado espreitando-a, mas aquela noite a sentia mais perto que nunca.
      Por isso tinha que acabar com aquele canalha essa mesma noite.
      No demorou muito em ouvir passos nas escadas. Levantou-se e elevou a pistola enquanto via girar o trinco da porta.
      Mas no foi o assassino o que entrou em seu escritrio, a no ser Bachman.
      Em qualquer caso, Shannon elevou a pistola, apontando para a lapela esquerda de sua jaqueta cinza. Bachman caminhou at seu escritrio e tomou assento.
      -J est disposta a ficar de meu lado, Mallory? Ou pensa esperar a converter-se em sua prxima vtima?
      Shannon pestanejou. Bachman a estudou com firmeza, limitando-se a esperar.
      -Pelo menos sei que no  um deles. Esteve conduzindo seu flamejante carro  luz do dia.
      -E voc esteve me seguindo.
      - uma garota inteligente. Me diga, por que o deixou? Ao final foi o suficientemente sensata para ter medo?
      -No sei do que me est falando.
      -Estou falando de monstros, Shannon. De animais sedentos de sede e de morte. Agora conhece o Damien, sabe quem  realmente. Os humanos no significam nada
para ele, para nenhum deles -se inclinou para diante-. Teve sorte de poder partir.
      -Est louco se pensar que me acredito uma s palavra de todo isso.
      -A que se refere?
      -J sabe. A que supostamente Eric Marquand e Damien so... Vampiros. Essas tolices no existem e voc est louco se crie o contrrio.
      -No acredito, sei -inclinou a cabea-. Assim que o recm-chegado  Marquand. Me imaginava, mas nunca o tinha visto to perto. Em uma ocasio, estivemos a
ponto de apanh-lo. Ao Damien no o conhecamos. Mas o pus sob vigilncia o dia que apareceu o primeiro cadver.
      Shannon soltou uma gargalhada, ignorando o n que tema no estmago.
      -Viu-o alguma vez  luz do dia, Shannon? -a tutear- Lhe viu comer? H algum espelho em toda sua casa?
      -Em sua casa h comida. Eu comi ali...
      -Mas ele no comia.
      -O horrio que faz  s uma questo de imagem. Uma imagem que cultiva para seus admiradores, nada mais.
      -Shannon, foi um vampiro o que assassinou a seu amiga, e se no tomar cuidado, sofrer o mesmo destino... Ou algo pior.
      -Algo pior?
      Bachman se encolheu de ombros, levantou-se e caminhou at a janela.
      -Se tivesse querido, Damien poderia te haver matado, mas acredito que tem outros planos.
      -Fala Bachman. O que est insinuando?
      Bachman a olhou por cima do ombro.
      -Acredito que quer te converter em um deles. Te conservar a seu lado para satisfazer seus repugnantes prazeres. Eternamente. Ser sua prisioneira durante toda
a eternidade.
      -Como chegaste a estar to louco, Bachman? Supe-se que tenho que me tragar todas essas estupidez? No crie que me convertendo em vampiro Damien faria fracassar
seu prprio plano? Faria-me to forte como eles e, nesse caso, como ia poder me manter prisioneira?
      -Sabe muito pouco sobre tudo este tema. Os poderes aumentam com a idade. E Damien  to velho que ainda no pudemos descobrir suas Orgenes. O do Marquand
sim os conhece.  de origem francesa e foi transformado durante a Revoluo.
      Shannon era consciente de que tinha os olhos arregalados. Mas era uma estupidez, porque em realidade no acreditava uma s palavra do que lhe estavam dizendo.
      -Est-me dizendo que Eric tem mais de duzentos anos?
      Bachman a olhou como se pensasse que era estpida.
      -Para eles, isso  ser jovem. O mais ancio que temos nos arquivos procede do Egito, era a filha de um fara. E suspeitamos que Damien seja inclusive maior
que ela.
      -Est louco -caminhou at o Bachman, situando-se perto da janela-Agora me diga o que  o que pretende conseguir desta visita. Por que te tomou a molstia de
me contar tudo isto?
      -Por que crie que o fao?
      Shannon franziu o cenho e deu um passo para trs. Mas Bachman a deteve posando a mo em seu ombro.
      -Eu gosto Mallory. Eu gosto de sua guelra. Por no mencionar que certamente  a mulher mais condenadamente sexy que vi em toda minha vida.
      Mentiras. Eram todas as mentiras, e to bvias que adivinh-lo era um jogo de meninos. Bachman queria algo dela, e no era seu corpo.
      -Nem sequer me conhece.
      -Sei que est doente. Que inclusive  possvel que esteja morrendo.
      Shannon elevou o queixo.
      -Como sabe?
      -Graas a seus relatrios mdicos. Mas voc j sabia que os tnhamos. Estavam em uma das pastas que me roubou da habitao do hotel.
      Seus relatrio mdico estavam entre esses documentos? Ela no os tinha visto. Teria-os Damien? Teria sabido durante todo aquele tempo seus problemas de sade
e o teria oculto?
      - um estranho espcime, Shannon. Tem o antgeno e uns Orgenes que lhe convertem em uma das poucas pessoas que pode chegar a converter-se em um deles. Desgraadamente,
isso tambm significa que morrer jovem. Todos morrem jovens. Mas na DIP estamos fazendo uma investigao, Shannon, uma investigao que poderia te ajudar.
      Investigao. Shannon tinha lido algo sobre essas investigaes nas notas do Marquand. Tmara tinha estado atada a uma maca, em um laboratrio secreto, e tinha
sido torturada at que Marquand tinha ido resgatar la.
      Possivelmente no tudo fora fico.
      -Se vier comigo, se puser em minhas mos, poderemos encontrar a maneira de te manter viva. Poderamos inclusive encontrar um remdio...
      -Ir aonde?
      -Ao complexo do White Plains.  um laboratrio.
      White Plains. Eric o mencionava em seu relatrio. Deus poderia ser certo?
      -Ali estar a salvo, Shannon. Temos os melhores mdicos e os melhores cientistas nesse campo.
      -Ento me converteria em sua prisioneira? Parece que no tenho muito onde escolher, verdade?
      -No seria uma prisioneira. Seria nossa protegida,  muito distinto.
      De repente Shannon teve medo. Medo a que Bachman no aceitasse um no por resposta.
      -Olhe, sou perfeitamente consciente do pouco tempo que fica, mas no penso pass-lo convertida em uma cobaia. E no me acredito uma s palavra sobre o dos
vampiros. Quo nico quero  encontrar ao assassino de Tawny e, diga o que diga, no acredito que seja Damien.
      -Sinto ouvir lhe dizer isso.
      -Por qu? O que pensa me fazer?
      Bachman sacudiu a cabea lentamente.
      -Ao final vir comigo.
      -Est pensando em me obrigar?
      -No, ainda no. Sabendo que h dois vampiros soltos, no aspiro a terminar como alguns dos cientistas que utilizaram essa ttica. Mas te aconselho que no
te aproxime dele, Shannon.  um assassino. E assim que tudo isto termine, voltaremos a nos ver outra vez -cedeu ligeiramente a dureza de seu rosto-.E no me importa
o que possa pensar, Shannon. Fao-o por seu bem.
      Shannon negou com a cabea e o acompanhou at a porta.
      -Tudo isto  uma loucura, Bachman. Damien no  o que diz. Juro-te que...
      -Voc no sabe, mas eu sim -abriu a porta-. Terei que acabar com ele. No fica outra opo.
      Shannon comeou a protestar, mas lhe estava falando com uma porta vazia. Bachman j se partiu.


      Damien a encontrou sentada no cho de seu desvencilhado escritrio, frente  porta e pistola em mo. Seus olhos eram dois poos de absoluta confuso. E estavam
cheios de lgrimas.
      -Pensava que havamos ficado de que esperaramos at a prxima funo, Shannon -deu um passo para o interior do despacho.
      -No pensava que me encontraria to logo. Suponho que  muito inteligente para mim.
      Damien franziu o cenho ao advertir a palidez de seu rosto. Deu um passo para ela e o corao lhe encolheu ao v-la retroceder.
      -Agora me tem medo? -perguntou-lhe brandamente-. O que passou?
      -No, no te tenho medo. Mas quero estar sozinha, isso  tudo.
      -No posso te deixar sozinha e sabe.
      Shannon lhe deu as costas e sua juba loira se balanou com aquele movimento. Damien queria acarici-la, enterrar seu rosto nela, inalar sua fragrncia.
      -No suporto que decidas por mim.
      -Eu no...
      -Claro que sim! -caminhava pelo escritrio evitando olh-lo-. Decidiu que tinha que ficar em sua casa depois do incndio. E agora decidiu no me deixar aproveitar
minha ltima oportunidade de apanhar a esse canalha. Olhe, fui uma mulher muito independente durante muitos anos para deixar que agora algum se faa cargo de mim.
Minha vida  minha, sou eu a que decide o que fazer e aonde ir. Quero estar aqui e quero estar sozinha.
      -Por qu?
      Shannon sacudiu a cabea e baixou o olhar para o cho.
      -Maldita seja. No vou daqui sem obter uma resposta.
      Damien cruzou a habitao e Shannon se encolheu, lhe provocando uma pontada de dor. Agarrou-a pelos pulsos e as sustentou a ambos os lados de seu corpo. Permaneceu
olhando o um ao outro, com a janela como cortina de fundo.
      Shannon se negava a responder, mas o medo que Damien via em seus olhos era toda a resposta que necessitava. Quando Shannon desviou o olhar, seu medo pareceu
aumentar. Abriu os olhos de par em par e ficou branca como o papel.
      -Meu deus...
      -O que...?
      Damien seguiu o rumo de seu olhar e viu a imagem de Shannon refletida no cristal da janela. Embora ele continuasse a seu lado, sua imagem no estava ali.
      Shannon tremia como se estivesse a ponto de morrer congelada.
      -Bachman... Bachman me h isso dito, mas eu no lhe acreditei...
      -Bachman. Deveria haver-me imaginado. Ento esteve aqui?
      Shannon assentiu. Que sentido tinha mentir?
      -Meu deus, Damien, me diga que no  verdade. Tudo isto  uma loucura.
      -Shannon...-Damien tentou dizer algo, mas nenhuma palavra abandonava seus lbios. O que podia dizer?
      -Nem sequer o nega? -o impacto convertia sua voz em um sussurro-. Desmaiei, verdade? Isto s est ocorrendo em minha mente. Voc nem sequer est aqui... Estou
sozinha. Ao melhor nem sequer existe e eu...
      -J basta, Shannon -Damien lhe rodeou os ombros com o brao e a encaminhou para a porta-.Vamos, saiamos daqui.
      -No penso ir a nenhuma parte contigo.
      -Claro que vais vir.
      Shannon tirou a pistola da pistoleira, deu um passo para trs e o apontou. Com um movimento vertiginoso, Damien lhe arrebatou a arma e a apertou at convert-la
em uma bola de metal que deixou cair ao cho.
      Shannon sacudiu a cabea e retrocedeu. Tinha-a aterrorizado. No deveria ter feito isso.
      -Eu jamais te faria nenhum dano, Shannon, sabe. Tem que sab-lo. No poderia te fazer nenhum dano embora quisesse. No posso te deixar aqui sabendo que o assassino
pode te encontrar. E tampouco posso deixar que Bachman te encadeie em um desses laboratrios de mxima segurana -viu que Shannon pestanejava quando o dizia e se
perguntou se Bachman j o teria sugerido-. Sei por que Eric me advertiu isso. Shannon vem comigo, lhe tentarei explicar isso tudo...
      Shannon se equilibrou para a porta, mas Damien a agarrou pela cintura e a obrigou a retroceder. Shannon terminou estreitada contra ele, com o corao palpitante
e as bochechas ruborizadas. Olhou-o fixamente, com lbios trementes, e sacudiu a cabea de lado a lado.
      Todos os sentidos de Damien ficaram em alerta. Seu corao pulsava a tanta velocidade como o de Damien.
      -Shannon, mata-me que me tenha medo. No compreende que jamais te faria nenhum dano? No sabe que...? -ento viu que  Shannon lhe tinha umedecido o olhar.
      Inclinou a cabea e tomou sua boca com um frenesi que no era capaz de dobrar. Movia as mos por todo seu corpo, incapaz de saciar-se. Desenhava suas costas,
afundava as mos em seu cabelo, acariciava a delicada curva de seu pescoo... Muito lentamente, chegou a ser consciente de que Shannon no se estava resistindo.
O tremor no tinha cessado, mas parecia ter trocado. A jovem elevou as mos timidamente antes de abra-lo e inclinou a cabea para trs em resposta  invaso de
Damien. O fogo de Damien se avivou. Jogou os quadris para diante para mostrar-lhe a Shannon e ela continuou acariciando seus ombros. Quando se arqueou contra ele,
Damien posou as mos sobre seu redondo e firme traseiro e a estreitou com fora contra ele, deleitando-se no suave gemido de Shannon.
      Louco de desejo retrocedeu at se chocar contra a escrivaninha. Com um movimento de brao, limpou-o e colocou Shannon sobre sua superfcie. Sentia sua respirao
clida e agitada no rosto. Rasgou-lhe a parte dianteira da blusa. Os botes voaram e apareceram seus seios escondidos depois do encaixe do prendedor, encaixe que
tambm destroou para despi-los ante seus olhos famintos. Com um gemido, inclinou-se para embeber-se deles e alimentar aquela sede que ia mais  frente do puro desejo.
Sugou com fora o mamilo sentindo-o esticar-se ante aquele contato. Tomou o rosado pico entre seus dentes brancos e o acariciou at que Shannon gritou seu nome e
se aferrou a sua cabea com ambas as mos. Ento repetiu a tortura com o outro.
      Damien elevou a cabea e observou o rosto de Shannon enquanto alargava a mo para o boto e o zper de seu jeans. Tirou-lhe as calas, acariciando seu corpo
ao mesmo tempo.
      Continuando, endireitou-se e se colocou entre suas pernas com uma ereo to tensa que resultava quase dolorosa. Olhou fixamente  Shannon, nua para ele, e
se disse a si mesmo que no podia faz-lo. No deveria...
      -Se te detiver outra vez, pegarei-te um tiro -sussurrou Shannon-. No quero ouvir mais tolices. S quero a ti.
      Damien sabia que no estava bem. Sabia que Shannon estava to assustada como excitada. Mas mesmo assim, afundou os dedos nos midos cachos de entre suas coxas.
Abriu as dobras e explorou seu sexo tenso e mido. Procurou o diminuto boto e tomou entre dois dedos. Shannon fechou os olhos e gritou.
      -Shannon, eu...
      -No me importa! O que tenho que perder Damien? Maldito seja, faa amor comigo!
      Damien rezou para que Shannon no se arrependesse nunca daquela ordem, ao tempo que se desabotoavam as calas para liberar sua palpitante ereo. Viu que o
olhar de Shannon voava para aquela parte de seu corpo, sentiu o contato de seus olhos abrasando-o. Posou ento as mos na parte interior de suas coxas e se deleitou
no saboroso bocado que tinha frente a ele. Guiou a mo de Shannon at seu sexo e atirou delicadamente dela. Shannon o guiou a sua vez para sua lubrificada feminilidade.
Tombou-se sobre o escritrio e arqueou os quadris para ele, lhe sustentando em todo momento o olhar.
      Damien foi afundando-se lentamente nela at que Shannon j no teve nada mais que lhe oferecer. Pressionou-se contra ela. Shannon deixou escapar um suspiro
rouco e prolongado e se aferrou a seu traseiro ao tempo que Damien fechava as mos ao redor de sua cintura. Quando retrocedeu, Shannon o apertou com fora e, naquela
ocasio, Damien no foi absolutamente delicado quando voltou a afundar-se nela. Retrocedeu uma vez mais, mantendo-a prisioneira com suas fortes mos enquanto investia
de novo. Shannon esticou os msculos a seu redor, como se queria ret-lo para sempre dentro dela. Elevou a cabea e os ombros da escrivaninha e procurou seus lbios.
Damien respondeu inclinando-se sobre ela e beijando-a, fazendo amor com sua boca com a mesma intensidade com a que o fazia com seu corpo.
      E ento Shannon ficou muito quieta. Todo seu corpo se esticou, apertou os punhos e deixou de respirar durante uns segundos interminveis. Damien sentiu seu
corpo esticando-se a seu redor. Um segundo depois, Shannon se estremecia ao alcanar o clmax e Damien derramava sua essncia em seu interior sentindo-se como se
estivesse esvaziando seu corpo inteiro.


      Enquanto observava ao casal da escada de incndios, Anthar amaldioou em babilnio, em sumrio e em ingls. Tinha esperado uma eternidade a que Damien cedesse
a seu desejo e fizesse o amor com aquela mulher. E ao final o tinha feito, mas no tinha bebido de seu corpo. Um instinto mais capitalista que a mesma natureza tinha
conseguido det-lo. Maldito fora!
      Depois daquilo, teria que esperar outra oportunidade. E, a julgar pela sade da garota, possivelmente no a houvesse. E se a garota morria, a oportunidade
da vingana perfeita morreria com ela. Teria que induzir ao Damien ao suicdio. Era a nica maneira de aplacar a fria agnica que sentia.
      Ao fim e ao cabo, assim era como tinha morrido Siduri.
      Siduri. Ah, que formosa tinha sido, e quanto a tinha desejado! Ele tambm poderia hav-la tido. Anthar a tinha visitado freqentemente na casa que tinha junto
ao mar. Mas, hei a que o Grande Gilgamesh se deteve ali, meio morto, ao bordo da loucura, esgotado e faminto. Deteve-se em meio de sua busca da imortalidade durante
o tempo suficiente para destroar a vida de uma donzela. Siduri o tinha acolhido em sua casa. Tinha-o alimentado, tinha-o vestido e o tinha sustentado entre seus
braos para aliviar sua dor. E quando se recuperou Gilgamesh a tinha abandonado. Nem sequer se tinha informado do muito que Siduri o tinha amado, nem sabia como
tinha morrido.
      Siduri se tinha entrado no mar e, ao igual  Gilgamesh, no havia tornado a olhar atrs.
      Mas Anthar sabia. Porque Siduri o tinha deixado gravado em pedra com aquela escritura que as mulheres tinham proibido aprender, mas que ela tinha aprendido.
Porque o prprio Anthar lhe tinha ensinado.
      Era to formosa, to brilhante. E tinha morrido por culpa do Gilgamesh.
      Mas Gilgamesh teria que pagar por isso.










 Captulo 13

      Shannon se aconchegou em seus braos, tremendo, enquanto Damien a vestia. No era fcil. Quando tentava apartar-se dela, Shannon se aferrava a ele para no
deix-lo partir.
      -Ah, Shannon... -Damien a ps de p e a estreitou contra seu peito.
      Mas as pernas de Shannon pareciam de borracha. Comeou a cair, mas conseguiu esticar os joelhos. Emoldurou o rosto de Damien com as mos e o escrutinou com
seu profundo olhar.
      -No  verdade, sabia. Nenhum monstro poderia ter feito amor comigo como acaba de faz-lo voc. Diga-me isso Damien, diga-me isso. --O beijou na boca, nas
bochechas, nos olhos-. Jamais me havia sentido assim, Damien. Com ningum. S contigo, assim tem que me dizer que tudo  mentira -voltou a lhe beijar o pescoo,
o queixo... O desespero o fazia tremer-. Me Diga que tudo  uma iluso, igual a quando atua. Diga-me isso Damien.
      Os tremores se incrementavam e Damien sentia o calor de seus lbios, um calor que naquela ocasio no procedia da paixo, mas sim da febre.
      Tomou seu rosto entre as mos. Sua pele resplandecia como o leite branco e o rubor cobria suas bochechas.
      -Maldita seja -murmurou Damien-. No, outra vez no...
      -S... Me abrace -sussurrou ela-. Enquanto me abrace, estarei bem -e se derrubou contra seu peito.
      Damien fechou os braos a seu redor e sentiu que o corao lhe estalava em mil pedaos. No podia suport-lo. No podia v-la sofrer daquela maneira, no podia
v-la morrer.
      Apertou os punhos enquanto a sustentava entre seus braos e gritou sua dor. Gritou seu nome, e o do Enkidu, e amaldioou aos deuses e ao mundo,  vida e 
morte. Depois, enterrou o rosto em seu cabelo e o encheu de lgrimas amargas.
      Sentiu o cetim das mos de Shannon em suas bochechas.
      -No chore. Eu no queria que isto ocorresse... No queria te amar... No queria...
      Damien elevou a cabea e Shannon sorriu ligeiramente.
      -Eu gostaria... No ter que morrer... No ter que te deixar assim -e fechou os olhos.
      -Damien.
      Damien se voltou lentamente para olhar ao Eric Marquand, mas logo que podia apartar os olhos de Shannon.
      -Damien, tem que tirar a daqui. Isto  perigoso.
      -Olha-a, Eric -Damien sacudiu a cabea-. Esta vez  diferente.
      Eric se aproximou e se inclinou para ela. Quando voltou a endireitar-se, tinha o semblante sombrio.
      -Sinto muito, Damien. Sinto muito. Entrar em coma antes que acabe a noite. E me temo que no desperte. O fim est perto.
      -No... -os joelhos j no o sustentavam. Caiu ao chosustentando a Shannon contra ele.
      -Vamos, Damien, leva a casa que aluguei. Bachman lhes segue a vs, no a mim -mas Damien no se movia-. Vamos, pelo menos podemos lev-la a um lugar no que
estar quente.
      Damien assentiu mudo de dor.
      "Canalha isto  menos do que merece!"
      Deteve-se de repente, inclinou a cabea e olhou para o Eric lhe pedindo silencio. Uma raiva absoluta enchia sua mente, eram pensamentos carregados de dio...
Mas de onde procediam? De quem?
      "Quero que a veja morrer, co, e que deseje sua prpria morte, porque logo chegar Gilgamesh".
      To repentinamente como tinha chegado, desapareceu aquela sensao.
      -Ouviste-o? -perguntou- Damien ao Eric.
      -Perfeitamente. Essa mensagem ia dirigida a ti.
      -Quantos outros... H aqui?
      -Nenhum, Damien. Saberamos se assim fora. No tm nenhum motivo para ocultar sua presena.
      -Mas poderiam? Nos poderiam ocultar isso se quisessem?
      Eric assentiu arqueando uma sobrancelha.
      -Era um vampiro, Eric, estou seguro. Um vampiro que me conhece... -centrou ento sua ateno no Shannon e sua dor fez empalidecer qualquer outra sensao-.
Nem sequer posso lev-la a minha casa sabendo que Bachman quer ir por mim.
      -No ir te buscar at o amanhecer. Ainda  logo. Pelo menos esta noite estaremos seguros, e amanh j faremos outros planos. Vamos.
      Segundos depois, Damien estava acomodando Shannon em uma das poltronas da habitao circular. Sentia que ela preferia descansar ali, perto do fogo. Eric acrescentou
lenha ao fogo enquanto Damien se sentava a seu lado e lhe acariciava o cabelo.
      -OH, Meu deus! O que lhe passou?
      Damien elevou o olhar e ao ver a expresso preocupada de Netty, esqueceu sua possvel traio.
      -Est doente, Netty. Muito doente.
      -Necessita um mdico... -Netty correu para ela, procurou sua mo e a levou o peito.
      -J no podemos fazer nada por ela.
      -Quer dizer que se est morrendo?
      Damien se mordeu o lbio at faz-lo sangrar. Eric desviou o olhar do fogo.
      -Netty, poderia nos trazer umas mantas? Tem que conservar o calor e...
      Netty retrocedeu lentamente com o rosto convertido em uma mscara de sentimentos confusos.
      -No senhor, isto no est bem -sacudiu a cabea com ferocidade-. Ele me disse que ficaria bem. Que tudo tinha sido culpa de seu feitio... -interrompeu-se
de repente e arregalou os olhos. Quando Damien elevou a cabea, procurou seu rosto-. Mas voc no a enfeitiou. Agora o entendo. OH, Meu deus, o que tenho feito?
      Eric deu um passo adiante e se interps entre o Netty e Damien quando este ltimo se levantou.
      -Est falando de Bachman?
      -Disse-me que tinha que salvar a Shannon. Que vocs eram... -estremeceu-se e baixou o olhar para o cho-... Diabos. Disse que ela morreria se no a ajudava.
      -E voc lhe disse que a habitao secreta estava no terceiro piso -Damien logo que podia conter sua raiva.
      Netty se mordeu o lbio. As lgrimas empapavam seu rosto.
      -Bachman me disse que ela morreria se no o dizia. Eu s queria ajudar  garota!
      -Deveria te arrancar o corao.
      -Te cale, Damien! -ordenou-lhe Eric-. Netty, ainda no  muito tarde para que corrija seu engano. Interceptei a nota que deixou no hotel.
      Netty gemeu brandamente.
      -Mas eu o chamei mais tarde. Ele sabe... Sabe.
      -Nos conte o que est planejando Bachman -lhe pediu Eric.
      -Eu tinha que lhe deixar entrar em amanhecer. Queria ver a habitao em que voc dorme.
      -O que ele quer  me assassinar enquanto durmo, estpida.
      -Eu no sabia! O juro!
      Damien a fulminou com o olhar, voltou-se e reatou sua viglia de Shannon.
      -Agora no sou capaz de pensar com claridade. Eu... -interrompeu-se e sacudiu a cabea.
      -Ento  verdade?  verdade o que Bachman diz que so?
      -Netty, que classe de idiota poderia acreditar-se essa tolice? -perguntou Eric-. Bachman  um louco, um admirador que perdeu a razo. Certamente ter ouvido
falar de casos parecidos -se interrompeu e Netty assentiu-. O caso  que Bachman se convenceu a si mesmo de que a identidade de Damien em cena  a da vida real e
se crie um caa vampiros -Eric deu um passo adiante e posou a mo no brao de Netty-.  perigoso, Netty. Esse homem quer matar realmente  Damien.
      -E eu estive a ponto de ajud-lo a faz-lo! -chorou Netty-. O sinto senhor Namtar.
      Mas Damien nem sequer foi consciente de sua desculpa. Estava muito absorto em sua prpria dor.
      -Fora. Fora os dois. Deixem-nos sozinhos.
      Netty estalou em pranto e saiu correndo da habitao. Eric se aproximou dele e se ajoelhou a seu lado.
      -S estaro a salvo at o amanhecer, sabe.
      -Tirarei-a daqui antes que amanhea.
      -E aonde ir?
      -No sei. Mas isso agora no importa.
      -Voltarei a te buscar.
      -No, voc j tem feito suficiente. Tenta te manter a distncia, Eric. No necessito pblico nem ajuda para suportar esta tristeza.  uma velha companheira.

      Estava to viva... Nunca tinha conhecido a ningum to vital como ela. Fazia muito tempo que Damien no ria com ningum. E Shannon lhe tinha feito sorrir uma
e outra vez. Havia tornado a levar a ternura e a alegria a sua existncia.
      E se estava morrendo. Ia deixar o sozinho, como Enkidu. E justo quando estava a ponto de encontrar ao assassino. Justo quando tinha descoberto a existncia
de outro vampiro furiosamente zangado na cidade. Um que o odiava... Pestanejou lentamente quando se deu conta das implicaes de seus prprios pensamentos. Outro
vampiro. Um que odiava  Damien alm da razo.
      Algo pareceu iluminar a negra noite de sua alma. Ele no era um assassino! A sede no tinha sido capaz de domin-lo. Fazia o amor com  Shannon de uma forma
frentica, apaixonada, mas no tinha provado seu sangue.
      Seus motivos para no transform-la eram singelos. Sofria ao pensar que podia ser um assassino e no podia suportar a idia de que Shannon tivesse que sofrer
algum dia pelo mesmo. Essa razo j tinha desaparecido. No queria am-la. No queria arriscar-se a sofrer uma dor similar ao que tinha suportado antes. Mas j era
muito tarde para evit-lo. E se Shannon fora imortal, no teria que perd-la.
      Mas teria aceitado ela essa escura magia? Seria capaz de viver renunciado  luz do dia, ao beijo do sol? Poderia assimilar a idia de viver eternamente?
      Damien amaldioou e deu meia volta. No podia tomar aquela deciso por ela. No podia! As lgrimas alagaram seus olhos. Enterrou o rosto nas mos e deixou
que os soluos sacudissem seus ombros. E ento, Shannon elevou a mo e a posou em suas costas.
      Damien se ajoelhou a seu lado. Tomou sua mo e a beijou depois se inclinou para beijar seu rosto.
      -O... Sinto-o -sussurrou Shannon-. Deveria te haver advertido...
      -Isso no teria trocado nada, Shannon.
      -Tenho tanto medo...
      Damien no sabia o que dizer. O que podia dizer para consol-la?
      -Tentei neg-lo, sabe? Fingia ser valente, mas no o sou -as lgrimas fluam livremente por seu rosto-. No quero morrer Damien. No quero seguir sendo valente.
Importa-me um cominho a dignidade.
      Damien a olhou fixamente aos olhos.
      -Est-o dizendo a srio, Shannon?
      Shannon baixou as plpebras e Damien soube que estava chegando o final.
      -Eu... Daria algo... Qualquer... -sussurrou-... Para poder viver...
      Fechou os olhos. Damien lhe emoldurou o rosto entre as mos e a sacudiu ligeiramente. Mas Shannon estava afundando-se no coma que Eric tinha prognosticado.
No voltaria a despertar. Mas tampouco precisava faz-lo, acaso no acabava de expressar sua deciso?
      Por muito que tentasse dizer-se que deveria haver dado a opo a Shannon quando ainda estava em condies de tomar uma deciso, no podia enfrentar-se  idia
de perd-la. No podia maldito fora! No podia viver sem ela. No podia v-la morrer quando Shannon acabava de lhe suplicar que a salvasse.
      Levantou-a nos braos. Sua juba loira caiu para trs como uma cortina de seda. Era como a Bela Adormecida. E ele ia lhe dar o beijo que despertaria de seu
sonho. Inclinou a cabea, roou sua pele com os lbios e sussurrou:
      -Inanna, me perdoe. Enkidu me ajude. E Shannon, meu doce Shannon, fica a meu lado.


      Anthar rugiu furioso. Acabavam de lhe arrebatar a possibilidade de ver sofrer ao Gilgamesh pela morte daquela jovem!
      Todos seus planos arruinados...
      Mas no ia renunciar to facilmente  vingana. Siduri se merecia ser vingada e ele a vingaria. Quo nico tinha que fazer era matar ao Gilgamesh. Antes a
mataria a ela, para aumentar sua dor eterna. Sim, possivelmente resistisse, mas inclusive com sua nova fortaleza, seria muito fraco comparada com ele.
      Anthar tambm tinha algum medo de Gilgamesh, mas no muito. Era quase to velho como ele, a diferena era de s uns minutos.
      Anthar tinha seguido Gilgamesh depois do suicdio de Siduri. Tinha-o seguido para vingar-se. E o tinha descoberto em meio de seu encontro com o Utnapishtim
o Iluminado. Dizia-se que aquele ancio sbio tinha sido feito imortal pelos deuses, mas no tinha direito a compartilhar aquele dom.
      Entretanto, algo no jovem Gilgamesh devia ter comovido ao ancio porque, depois de muito pens-lo e de uma tortuosa discusso, fazia realidade o desejo de
Gilgamesh. Tinha intercambiado seu sangue, aquele ato tinha debilitado ao Utnapishtim e tinha fortalecido Gilgamesh.
      -Agora viver para sempre, meu jovem amigo -tinha sussurrado o sbio antes de lhe pedir que partisse.
      Anthar se tinha deslizado em sua casa atrs dele e se aproveitou da debilidade do ancio para repetir o ritual. Se Gilgamesh vivia, tambm deveria faz-lo
Anthar. Devia viver eternamente para poder levar a cabo sua vingana.


      Shannon abriu os olhos e se sentiu ao princpio ligeiramente dormitado, como se tivesse a cabea cheia de algodo. Tentou sentar-se, mas os ossos no lhe respondiam.
      Umas mos fortes a ajudaram e olhou a seu redor com o cenho franzido. No estavam na casa de Damien. Elevou o olhar para ele, recordou como tinham feito  amor
e sorriu.
      -Quanto tempo estive dormindo?
      -Toda a noite e todo o dia.
      -J  de noite outra vez?
      Damien assentiu. Parecia preocupado Shannon no tinha a menor idia de por que, a no ser que estivesse sofrendo por sua enfermidade. Elevou a mo para seu
rosto; teria que prepar-lo para o que  larga era inevitvel.
      Naquele momento, um morcego se deslizou entre eles e elevou seu vo atraindo seu olhar. Shannon inclinou a cabea e o olhou. Distinguia at o ltimo milmetro
de seu corpo com absoluto detalhe apesar da escurido. Podia contar os ossos que recortavam suas asas. Seus olhos pareciam estar trabalhando a toda velocidade, porque
eram capazes de distinguir cada movimento daquelas asas apesar de que as batia a uma velocidade que o fazia impossvel. Mordeu-se o lbio e arregalou os olhos: no
s podia v-lo, mas tambm podia ouvir seus gritos penetrantes, e podia cheir-lo. Sacudiu a cabea lentamente.
      -No  possvel.
      -O que no  possvel? -Damien se inclinou para diante e tomou a mo. Shannon podia contar todas as linhas de sua mo s pelo tato. Olhou-o aos olhos e viu
o brilho de seus olhos como no o tinha visto nunca at ento. E tambm seu cabelo, que lhe desejava muito de um negro muito perfeito para ser humano.
      -Damien, por que estamos aqui fora?
      -Bachman queria vir a nos buscar, assim tive que te trazer aqui.
      -E onde estamos exatamente?
      Damien sorriu e olhou a seu redor.
      -Em uma cova, no meio do bosque e nos subrbios da cidade.
      -Tudo me resulta muito estranho...
      -Me fale disso.
      -No, agora tenho que te contar um pouco mais importante. Eu... -Shannon se umedeceu os lbios-... Estou-me morrendo.
      -No, Shannon, voc no est morrendo -respondeu Damien sem olh-la-. No morrer jamais.
      Shannon piscou surpreendida.
      -O que quer dizer?
      "Damien quer te converter em um deles. Ser sua prisioneira eternamente". No podia deixar de recordar as palavras de Bachman.
      -Damien, o que me est dizendo? O que pensa me fazer?
      -J o tenho feito.
      -O que  o que tem feito?
      Damien se inclinou para ela e afundou os dedos em seu cabelo.
      -Lembra-te da outra noite, quando tinha a morte to perto que quase podia sentir seu flego na nuca? Lembra-te de que me disse, chorando, que faria algo para
sobreviver? No o sente, Shannon? No sabe?
      Shannon conteve a respirao. Logo que recordava o que tinha ocorrido depois de que fizessem o amor. No tinha decidido ela que todo aquilo dos vampiros era
uma loucura?
      Levantou-se, sentindo uma fora estranha em seu interior. A nvoa de seu crebro parecia ter desaparecido. Sentia-se enrgica, forte, saudvel.
      Baixou o olhar, abriu a mo, fechou-a e a estudou enquanto o fazia. Por que se sentia diferente? Ao final, levou-se a mo ao pescoo, cedendo a um repentino
impulso. E sentiu as duas punes que tinham cicatrizado rapidamente.
      Seu olhar voou para  Damien e sacudiu a cabea com incredulidade.
      -No passa nada, Shannon. No h nada do que deva ter medo -deu um passo para ela e elevou a mo- J nunca voltar a estar doente. No morrer. No morrer
nunca.
      -Meu deus! -Shannon retrocedeu, mas Damien seguiu avanando-. Meu Deus,  verdade! ... Um vampiro.
      -E voc tambm.
      -No! -mas inclusive enquanto o gritava, sabia que era certo-. Como pudeste Damien? Como pde me fazer algo assim?
      -Shannon, tinha que faz-lo. Estava-te morrendo. No podia permitir que morresse depois de que me houvesse dito o muito que desejava viver.
      -No pode me fazer isto, maldito seja!
      -J parece.
      -E agora, o que ocorrer? Reter-me para sempre a seu lado? Era isso o que pretendia Damien? Claro, sabia que dessa maneira seria incapaz de sobreviver por
minha conta. Essa era a idia? -Estava aterrada.
      Damien sacudiu a cabea, confundido.
      - obvio que pode depender de mim.
      -E um inferno! -gritou, com uma voz muito potente para ser natural-. Que coisas podem nos matar, Damien?
      Damien pestanejou brandamente antes de responder.
      -A luz do sol. O mais ligeiro roce de uma chama. Qualquer ferida pode nos provocar uma hemorragia severa. Se no conseguir det-la... -lhe quebrou a voz-.
Shannon, por que me est perguntando estas coisas?
      -Porque preciso as saber. Porque no sei o que  viver desta maneira. Por que...
      Cobriu-se o rosto com as duas mos e se voltou. Estava mentindo como uma covarde. Ela no queria morrer e sabia. Mas  que alternativa ficava? Soluando, deu
uns passos para a boca da cova.
      -Aonde vai?
      -Vou, simplesmente, vou.
      Damien a agarrou pelos ombros.
      -Shannon, no pode sair sozinha. Por favor, sente-se, date algum tempo para te acostumar. Me deixe te explicar o que significa tudo isto.
      -Me deixe em paz! -voltou-se para ele, estava to furiosa que lhe faltava a respirao- Te juro Por Deus que se no me deixa partir, odiarei-te durante toda
a eternidade -se voltou de novo e entrou no bosque, em meio da noite.


      Damien no foi atrs dela. No podia. A tristeza e a dor o paralisavam. Sofria por ela. Por sua confuso, por seu medo. E mesmo assim, no se arrependia do
que tinha feito. No podia deixar de alegrar-se de que estivesse viva. De modo que no se arrependia. Quo nico desejava era ter feito s coisas de forma diferente,
ter podido explicar-lhe antes de ter que tomar uma deciso. Haver-lhe permitido escolher.
      Comeou a caminhar atrs dela, mas descobriu seu caminho bloqueado por uma forma slida. Seus olhos se encontraram com os de Eric e encontrou neles compreenso,
compaixo, inclusive.
      -Deixa-a, Damien. Necessita tempo.
      Damien apartou  Eric de um empurro e caminhou a grandes pernadas.
      -Como vou deixar que se v? Crie que quero v-la convertida em objeto de estudo desse animal do Bachman? E o que me diz desse vampiro que est fazendo estragos
na cidade?
      -Eu no hei dito que no possamos vigi-la. No a perderemos de vista, mas manteremos a distncia. Damien tem que deixar que aceite sua nova identidade, no
te d conta?
      Damien se deteve, voltou-se e olhou fixamente ao outro homem.
      - muito perspicaz, Eric. Isso tem que reconhecer em voc.
      -Me alegro de que o pense. Porque tenho algumas outras coisas que comentar com voc. No quis envolver a minha companheira neste assunto porque me parecia
muito arriscado.
      -Arriscado?
      -A primeira vez que me aproximei de voc, no tinha a menor idia de qual era seu carter, Damien.
      -E agora?
      -Agora no acredito que seja pior que a maioria. E acredito que Tmara poderia lhe servir a Shannon de ajuda.
      -Poderia ser -Damien continuou caminhando, mas tinha diminudo o ritmo de seus passos-. Mas continua existindo Bachman, e esse vampiro ao que temos descoberto.
      -Se tivesse podido escolher, no teria trazido para c Tmara. Mas, eu goste ou no, j est vindo para aqui. Dentro de uma hora chegar  casa que aluguei.
      Damien se limitou a olh-lo com expresso interrogante.
      -Est preocupada comigo. Inteirou-se da presena de Bachman e j nada pde evitar que se rena comigo.
      - um homem afortunado, Marquand.
      -Sim, sou-o.
      -Vete a sua casa a esper-la. Eu irei  manso  vigiar Shannon -ao ver o cenho franzido de Damien, acrescentou-: A distncia.


















 Captulo 14

      Quando chegou a casa de Damien, Shannon saltou a taipa assombrada por sua prpria agilidade e suas novas foras. Entrou em seu interior e estava comeando
a cruzar a habitao circular quando algo que no acabava de entender fez que lhe arrepiasse o plo da nuca. Ficou muito quieta, tentando encontrar a fonte daquela
sensao. Girou lentamente. Seu olhar se dirigiu para o arco da porta. Imediatamente, saiu Bachman de detrs de uma cortina, assinalando-a com a pistola.
      -Bachman, o que est fazendo aqui?
      -Onde est, Shannon?
      Shannon se encolheu de ombros.
      -Aqui no, mas suponho que isso j sabe.
      Bachman franziu o cenho e escrutinou seu rosto. Shannon se esticou, perguntando-se o que estaria vendo. Esperou, contendo a respirao.
      -Estiveste chorando, por qu?
      Shannon pestanejou e esteve a ponto de gritar de alvio. Bachman no tinha percebido a mudana.
      -OH, Bachman. Por que no te terei feito conta? -Deixou que as lgrimas empanassem seus olhos- Eu pensava que o queria, sabe? Mas me deixou. Foi-se.
      -E no sabe aonde foi?
      Shannon sacudiu a cabea com tristeza.
      -Agora o odeio.
      Bachman assentiu, mas no apartou a pistola.
      -Shannon, vem comigo ao instituto. Ali poderemos  ajudar voc.
      No era certo. Shannon soube no instante no que as palavras saram de seus lbios. No estava segura de que Bachman soubesse realmente que era mentira, mas
ela sabia.
      -Ali h outros como eu?
      Bachman assentiu e, por um instante, Shannon visualizou uma imagem aterradora. Homens e mulheres encerrados em celas e maos a macas, com a desolao refletida
no rosto.
      -No sei. Tenho que pens-lo. Me deixe at manh.
      Bachman entrecerro os olhos e sacudiu a cabea.
      -No, Shannon, vais vir comigo agora. No penso ir daqui sem ti. Queria esperar at apanh-lo, mas ele se foi. E no penso voltar para o White Plains com as
mos vazias -sacudiu a cabea-. Alm disso, no estou seguro de que no saiba onde est.
      -J lhe hei isso dito. No sei. Foi-se. E no voltar -defendia Damien sem vacilar.
      -Voltar se souber que tem problemas. No quereria fazer as coisas deste modo, Shannon, mas sei que se te disparasse, Damien estaria aqui em questo de minutos.
Desde segundos, possivelmente -lhe tirou o seguro  pistola.
      O medo a invadia e sua mente procurava desesperadamente uma resposta. Mas o sexto sentido que minutos antes tinha percebido em si mesmo parecia hav-la abandonado.
Elevou as mos.
      -No, no dispare. Direi-te onde est de verdade...
      Bachman assentiu.
      -Imaginava que trocaria de opinio. No se preocupe por ele, Shannon. No sofrer. Isso no caso de que dita lhe deixar viver o tempo suficiente. Porque possivelmente
no o faa.  um assassino. Algum tem que det-lo. Algum tem que det-los todos.
      De modo que havia outros. Outras pessoas como Damien s que perseguiam tipos como Bachman. Possivelmente inclusive os matavam como explicava Eric em suas notas.
      Baixou a cabea e fingiu soluar. Deu um passo para Bachman, como se os joelhos no a suportassem, e depois outro. Balanou-se para os lados e se aferrou 
mesa.
      Bachman caminhou a grandes pernadas para ela e a agarrou pelo brao sem nenhuma delicadeza. Doeu-lhe. Shannon no acreditava que fora essa sua inteno, mas
sua pele parecia mais sensvel que antes.
      Elevou a outra mo e a apoiou no ombro de Bachman, como se necessitasse seu apoio. Afundou ento os dedos em sua carne, elevou o joelho e lhe golpeou com ela
na virilha. Esperava que Bachman se dobrasse sobre si mesmo pela dor, para assim ter ela tempo para escapar. Mas saiu disparado e caiu a uns trs metros de distncia.
      Shannon levou a mo  boca; os olhos estiveram a ponto de sair-se o das rbitas.
      -Eu tenho feito isso? -sussurrou.
      Bachman lutava para levantar-se, com os olhos cheios de raiva.
      -Voc  um deles.
      -No porque o tenha elegido -murmurou ela-. Olhe, Bachman, por que no vai daqui antes de que te faa mal de verdade?
      Bachman olhou para a pistola que tinha perdido em sua queda. Shannon deu um salto de gazela e se interps entre Bachman e a arma. Mas Bachman colocou a mo
no bolso e tirou um canivete.
      -Vamos, Shannon. Aproxime-te e volta a tent-lo -estava ofegando, sem respirao e evidentemente dolorido.
      Shannon elevou a mo para lhe pedir que se detivera.
      -No o faa -disse brandamente-. No...
      -Acreditar que quero faz-lo? -continuou aproximando-se dela, agitando o canivete. Shannon retrocedeu, mas ele continuava avanando-. Poderia matar voc, sabe.
Um pequeno corte e voc sangraria at morrer. Te renda, Shannon. No me faa fazer isto.
      Equilibrou-se para ela com o canivete, mas Shannon retrocedeu e Bachman falhou, deliberadamente possivelmente, pensou a jovem. No podia estar segura, mas
de repente se encontrou apanhada contra o suporte da chamin. J no tinha escapatria. Bachman permanecia frente a ela, com o semblante sombrio.
      Elevou o canivete e  a posou em seu pescoo.
      -Vir comigo, Shannon. No me faa te fazer dano.
      Shannon preferia morrer a ir-se com ele. Tinha que fazer algo. Dissimuladamente, muito devagar para no alert-lo, jogou a mo para trs e tomou um dos cubos
de cristal que encerravam os apreciados objetos de Damien. Elevou o cristal, deixou-o a um lado e fechou o punho sobre a pedra que protegia.
      Nesse mesmo instante, sentiu o fio do canivete afundando-se em sua pele e soube que Bachman estava disposto a mat-la se no cooperava. E ela s sabia uma
coisa, que no queria morrer. Damien tinha razo nisso.
      Com uma fora nascida do pnico, golpeou-o com fora na cabea.
      Bachman se cambaleou e caiu no cho com tanta violncia que Shannon pensou que ia romper o mrmore. Shannon correu para a porta, abriu-a de par em par... E
chocou contra uma dura parede de msculos.
      -Shannon...
      Damien a abraou e Shannon se aferrou a seu pescoo, soluando.
      -Acredito que o matei. OH, Meu deus, acredito que o matei...
      -Sinto muito, Shannon. Vim assim que sentido que algo andava mau... -interrompeu-se para levant-la em braos, subiu-a a habitao em que ele descansava habitualmente
e a deixou na cama.
      -Shannon, sinto muito. Sinto-o muito. No sei que mais posso te dizer.
      Shannon procurou seu rosto. Seu adorado rosto, e tampouco soube o que dizer.

           Quando Damien baixou  habitao circular, Bachman tinha desaparecido. De modo que Shannon no o tinha matado. Certamente seria um alvio para ela sab-lo.
      A voz do Eric lhe chegou do marco da porta.
      -Est bem?
      Antes de que Damien tivesse podido responder, a companheira do Eric deu um passo adiante com a graa de uma bailarina. Tirou um frasco do bolso interior de
seu casaco e o ofereceu.
      -Toma, Damien. Est branco como o papel. Bebe.
      -Tmara, amor, essa no ... -comeou a dizer Eric, mas se interrompeu ao ver a expresso de Damien-. O que te ocorre, meu amigo?
      Damien se sentia como se tirou um enorme peso de cima.
      -O desejo. A sede Pelo amor da Inanna, trocou. J no o sinto.
      Sorriu brandamente e tomou o frasco que Tmara lhe tendia. Esvaziou-o e sentiu sua sede satisfeita como no a tinha sentido desde fazia milhares de anos.
      Eric estudou seu rosto.
      -Assombroso -murmurou Damien.
      -No  to assombroso -Tmara inclinou a cabea, sacudindo ao faz-lo seus cachos azeviches-. Sabia de seus problemas com a alimentao, Damien. Eric e eu
no temos segredos. Mas, sinceramente, os homens so to obtusos com algumas coisas... Todas as espcies procriam, a natureza urge a isso. No  estranho que tambm
ns sintamos a necessidade de faz-lo. A necessidade de beber se vai fazendo mais demandante at que se cumpre com o ritual e se cria a outro de ns. Ento desaparece.
      Damien se aproximou do sof e se sentou.
      -Um problema menos ao que nos enfrentar. Mas por que mesmo assim continuo me sentindo fatal?
      -Deveria descansar. Est a ponto de amanhecer. E  Shannon deveria tirar a desse dormitrio com as janelas to enormes -Tmara enrugou o nariz-. Embora no
acredito que esteja preparada ainda para despertar em um atade.
      -No. Acredito que hoje estaremos seguros em minha casa. Mas eu gostaria de saber o que passou ao Bachman.
      -No teremos que nos preocupar com ele durante uma temporada -disse Eric-. Saiu  rua cambaleando-se e se deprimiu. Um grupo de adolescentes o viu e chamou
a uma ambulncia. Mas embora Bachman comece a falar, no lhe emprestaro muita ateno. Um homem com uma ferida na cabea e falando de vampiros no  muito de confiar.
Por certo, o que passou com Netty?
      -Comprei-lhe um bilhete para um cruzeiro e lhe paguei o suficiente como para que o pense duas vezes antes de voltar a me trair.
      -Estupendo. Seus problemas esto desaparecendo, amigo -disse Eric alegremente-. De momento ficaram reduzidos a dois: Shannon e esse vampiro criminal que anda
pela cidade.
      -J nos ocuparemos disso esta noite -Tmara atirou do brao de Eric-. Se houvssemos trazido para o Rhiannon, esse vampiro estaria aqui  hora do caf da manh.
      -E essa  precisamente a razo pela que te pedi que no lhe comentasse isto nem a ela nem ao Roland. Tmara, no temos idia nem da fora nem da idade que
pode ter esse renegado. Rhiannon se lanaria  por ele sem nenhum medo e possivelmente terminasse morrendo.
      -Acredito que merece a pena conhecer essa mulher -comentou Damien com uma meia sorriso.
      -S se estiver de bom humor, me acredite -respondeu Eric.

      Damien voltou, tal e como Shannon tinha imaginado que faria. Ao parecer, no era capaz de compreender que necessitava tempo para ela. Deu meia volta na cama
e o olhou. Imediatamente desejou no hav-lo feito. Havia uma dor imensa em seus olhos quando a olhava.
      Shannon se esticou e se sentou.
      -Antes me sentia mais forte, mas agora comeo a me debilitar. A fora  s temporria?
      -J quase  de dia -lhe explicou Damien-. Os dias nos debilitam. Descansa at a noite e despertar to forte como sempre -se aproximou lentamente para ela
e se sentou na cama-. Suponho que tem milhares de perguntas que me fazer.
      Shannon assentiu.
      -Mas j est a ponto de amanhecer -se umedeceu os lbios nervoso-. Shannon, j deixaste muito claro que no quer acontecer a eternidade comigo. Que no quer
depender absolutamente de mim. H outros que podem responder a suas perguntas.
      Shannon tragou saliva e baixou a cabea. Tinha-o ferido ao lhe dizer todas aquelas coisas.
      -Eu gostaria que amanh ficasse comigo. No tive tempo de procurar outro lugar para descansar. No pretendo te obrigar a estar comigo, prometo-lhe isso. S
quero que esteja a salvo. H outro vampiro na cidade. Foi ele o que matou ao Tawny. Eric e eu o encontraremos e depois poder ir aonde queira.
      -Eu no pretendia...
      -Bachman no est morto -a interrompeu-, mas estar fora de combate durante algum tempo. Mesmo assim, h outros. A organizao para a que trabalha pretende
nos erradicar. E esse outro vampiro me odeia por razes que no entendo. Eric e eu sairemos ao anoitecer para busc-lo. E depois poder partir.
      Shannon fechou os olhos sabendo que o tinha ferido alm do que era possvel reparar. Damien lhe tendeu a mo. Ela se levantou da cama. Sem dizer uma s palavra,
Damien a conduziu para as escadas e de ali at uma porta situada no primeiro piso. Meteu-se com ela em um armrio e, para assombro de Shannon, a parede interior
do mesmo resultou ser outra porta. Assim que a cruzaram, Damien fechou a porta, pressionou um boto e se acenderam as luzes. Comeou a msica. Sting, o cantor favorito
de Shannon.
      -Pode ficar na cama -disse Damien com voz rouca-. Eu dormirei no cho.
      -Estar incmodo.
      -No, de verdade, eu durmo em qualquer parte.
      Deus, o que lhe estava ocorrendo? No era aquele o mesmo homem do que se apaixonou? Shannon tentou julgar seus sentimentos para Damien. Quando tinha feito
o amor com ela, soube-se profundamente apaixonada por ele. No tinha nenhuma dvida. Mas, depois do que lhe tinha feito, seria capaz de am-lo?
      Sabia que no queria morrer, mas queria viver daquela maneira?
      Sentou-se no bordo da cama. Damien se ajoelhou frente a ela e tomou as mos.
      -Me odeie se quiser, mas no odeie a ti nem o que . No trocaste, de verdade. Continua sendo a mesma mulher vibrante e maravilhosa de antes.
      -Troquei -desviou o olhar-. Pensava que tinha matado  Bachman. Me alegro de que no tenha sido assim, mas poderia hav-lo feito, Damien.
      -No lhe teria feito nenhum dano se no te tivesse  obrigada a isso. Ainda desconhece a extenso de sua fora, Shannon. E nada disso teria acontecido se eu
tivesse sido mais rpido. Portanto, sou mais culpado que voc. Shannon, Bachman vai recuperar-se. No mataste a ningum, tenta esquec-lo.
      -Mas voc no tem que matar para viver? -sacudiu lentamente a cabea-. No, no poderia. Nem sequer foi capaz de matar a um camundongo.
      -Eu desprezo a morte, Shannon. A morte se levou o meu amigo mais querido e tentou  levar tambm a ti.
      Enquanto o escutava, Shannon sentia a cabea pesada, como quando se despertou. Olhou para a pedra que sustentava ainda na mo e pestanejou.
      Damien a estava tombando na cama. Shannon o olhou fixamente e recordou a histria que lhe tinha contado, o final da epopia de Gilgamesh.
      -Assim ao final encontrou o segredo. Mas no o converteu em um deus, nem devolveu Enkidu -aventurou-. S o condenou a uma existncia eterna, a contemplar a
morte uma e outra vez -elevou a mo e a posou em sua bochecha-. Sim, Gilgamesh foi voc.
      Ele fechou os olhos, tombou-se a seu lado e a abraou.
      -Sentiu a fora do vnculo entre o Enkidu e eu desde a primeira vez que o leste. Chorou por isso, recordo-o. Sabe o que sinto por ele, verdade? -fechou os
olhos e escapou deles uma lgrima-. Mas por muito que o quisesse, Shannon, te amo ainda mais. Como ia deixar morrer quando tinha o poder de salvar voc? Equivoquei-me,
agora sei. E soube ento. Mas Shannon, tinha que faz-lo. E o faria outra vez.
      Abraou-a com fora, como se estivesse revivendo o momento no que tinha decidido ret-la a seu lado. Shannon deveria ter os olhos arregalados ante aquela nova
revelao, mas sentia as plpebras pesadas e a chamada do sono. Se aconchegar contra ele e lhe rodeou a cintura com os braos.
      -Gilgamesh -sussurrou, e ficou dormida.

      Quando despertou, Damien tinha desaparecido. Sentou-se lentamente e arregalou os olhos ao ver uma mulher no marco da porta. Era pequena, magra e tinha uma
cascata de cachos azeviches que lhe chegava at a cintura. Sorriu e deu um passo adiante.
      -Sou Tmara.
      -A mulher de Eric?
      -Bom, no a mulher exatamente. No celebramos umas bodas na igreja nem nada parecido.
      Ia vestida com uns jeans ajustados, uma blusa de seda verde e umas sapatilhas brancas. Shannon a olhava muito fixamente.
      -Sei, no pareo um vampiro, verdade? Rhiannon sim.  alta, elegante e altiva. Mas acredito que era assim quando era mortal.  uma princesa, sabe? E eu...
S sou eu.
      -No pretendia  olhar voc dessa forma.
      Tmara se sentou na bordo da cama.
      -S levo uns quantos anos vivendo na escurido, Shannon. Sei o que est passando. Bom, em parte. Em meu caso, virtualmente supliquei ao Eric que me convertesse.
No sei como me teria enfrentado a isso se o tivesse feito sem me consultar.
      Shannon  umedeceu os lbios.
      -Nem sequer acreditava em sua existncia e de repente me acordado convertida em um de vs.
      - difcil acostumar-se em qualquer circunstncia, mas se quiser, ajudarei-te -sorriu e elevou a mo para lhe acariciar a juba-.  muito bonita, sabe? Nunca
tinha ouvido falar de um vampiro to loiro. Deve ser to estranha como um diamante sem mcula.
      Shannon se ruborizou ante aquele completo. Olhou para a porta e se mordeu o lbio.
      -Damien e Eric saram a procurar a esse vampiro que anda por a.
      Shannon voltou a assentir. Teria-lhe gostado de despertar antes que Damien se foi. Tinha-lhe feito mal. Damien pensava que queria afastar-se dele. E no era
isso absolutamente o que queria. J no estava segura do que desejava, s sabia que compreendia Damien. Compreendia sua dor, sua perda. E sabia por que tinha decidido
transform-la quando a estava vendo morrer em seus braos.
      -Ter tempo de dizer-lhe Voltar antes do anoitecer.
      Shannon pestanejou surpreendida.
      -Podemos nos ler o pensamento, Shannon.
      - incrvel.
      "Ensinarei-te a faz-lo. Assim surpreender Damien quando voltar. Agora, por que no toma banho e te veste? Tenho muitas coisas que contar voc sobre ns".
      Shannon ouviu tudo claramente, mas Tmara no tinha pronunciado um s som. Com a cabea lhe girando a toda velocidade, Shannon se levantou e obedeceu.
      Tmara parecia to normal... Emocionou-se ao ver o carro de Shannon, e mais ainda quando esta lhe tinha deixado conduzi-lo. Tinham estacionado e tinham ido
dar um passeio enquanto Tmara animava  Shannon a praticar a telepatia. Shannon tinha comeado a ler os pensamentos das pessoas com as que se cruzavam e os resultados
eram hilariantes.
      Durante horas Tmara esteve ajudando-a a explorar sua nova identidade. E  medida que ia passando o tempo, Shannon comeava a pensar que no estava to mal.
Podia saltar da taa de uma rvore at o cho. Podia ver na escurido. Sentia-se forte, revitalizada. E podia ler as mentes.
      -Se agora te parecer incrvel, j ver quando... J sabe -Tmara se ruborizou ligeiramente.
      -No, no sei. J verei quando... o que?
      -Quando Damien e voc...
      -OH,  diferente?
      -Em certa maneira.
      -No sei quando poderei averigu-lo. As coisas no andam muito bem entre ns.
      -Qu-lo, verdade?
      Shannon pensou nisso e se viu respondendo com nfase:
      -Sim, quero-o. Nunca deixei que quer-lo.
      -Bom, pois ele est louco por ti, assim tudo se arrumar.
      Shannon assentiu e recordou o que Damien lhe havia dito antes que se ficou dormida aquela manh. Havia-lhe dito que a amava inclusive mais que ao Enkidu.
      Retornaram caminhando ao carro, e descobriram ali a um desconhecido. Um vampiro. Por surpreendente que parecesse, Shannon o reconheceu nada mais v-lo. Este
se aproximou lentamente a elas e Tmara agarrou ao Shannon do brao.
      - intil -lhes recordou o vampiro-, tenho seis mil anos. No lhes incomodem em sair correndo.
      E em questo de dcimas de segundo, tinha-as agarrado as duas da cintura.
      "No chame o Eric nem o Damien", advertiu-lhe telepaticamente Tmara, "isto poderia ser uma armadilha para eles".
      -No importa -replicou o vampiro-. Deixei-lhes uma nota em casa. J vai sendo hora de que Gilgamesh se encontre com seu destino.



















 Captulo 15

      Tinham estado tentando localizar o vampiro na cidade. Deveriam ter detectado sua presena nos lugares nos que tinham sido encontradas suas vtimas, mas seus
esforos tinham sido inteis.
      Retornaram a casa e Damien se preparou para enfrentar-se de novo Shannon, para ver o desespero em seus olhos, seu medo, seu aborrecimento. Possivelmente seu
dio. Mas no podia permitir que partisse at que tivesse desaparecido a ameaa.
      Sentiu que Eric se esticava a seu lado. E ele tambm se esticou. Tinha uma forte sensao de perigo. E a convico de que o renegado tinha estado ali.
      Correu para os degraus da entrada e encontrou uma nota cravada na porta.
      Eric a arrancou para l-la, mas sacudiu a cabea.
      -No conheo esta lngua.
      Damien lhe tirou a nota das mos.
      - escritura cuneiforme -e comeou a ler em voz alta-: "Gilgamesh, rei do Uruk, vil traidor dos deuses, imortal, demnio e assassino. Pelo papel que jogou
na morte de algum que te amou, pelo Siduri, minha amada, ser julgado no templo da Inanna. O templo j no jaz enterrado nas areias do Uruk. Est enterrado, sim,
mas no ali. Jamais voltar a ser visto por olhos mortais. Eu o transladei tijolo a tijolo. Ali te espero; e sua amada espera a meu lado. Anthar".
      Damien elevou o olhar da nota para encontrar-se com o medo e o assombro nos olhos do Eric.
      -Gilgamesh -sussurrou-. Meu Deus.
      -Eu no sou o deus de ningum. Sou s um imortal, como voc. E agora temos que nos mover rpido.
      -Mas como? No sabemos aonde foram.
      -Mas Tmara...
      -Erigir uma fortaleza ao redor de sua mente antes de permitir que casse no que certamente considera uma armadilha -Eric fechou os olhos-. O tentarei, mas
se ela realmente no quer me deixar saber onde est...

      -Que demnios  isto?
      Shannon observou desliz-las enormes leva que davam acesso a um elevador no que caberia um elefante e atirou das mos que a agarravam. Deus, que forte era
aquele homem. Sujeitava-a com tanta fora que tinha a sensao de que ia romper lhe o brao. As lgrimas se deslizavam por seu rosto e tinha a garganta to fechada
que logo que podia respirar.
      Tinha medo. Tinha medo do que aquele homem podia lhe fazer e do que j tinha feito. A Tmara. Tinha-as miservel para o cu a uma velocidade impossvel. Tinham
pirado to alto que viam o cho a convertido em uma mancha imprecisa. E de repente, tinha soltado a Tmara. Tinha-a solto!
      E a estava ela, naquele elevador, descendendo a uma velocidade de vertigem para as vsceras de uma espcie de estrutura que parecia estar em meio de nenhuma
parte.
      Comporta-as se abriram e Anthar a conduziu a uma estadia do tamanho de um estdio, em que o eco multiplicava em som de seus passos. No centro da sala viu uma
imponente estrutura de tijolo branco, resplandecente, imaculada. Percorreu com o olhar as rampas angulares e os degraus que conduziam para a parte superior. Era
uma torre circular de mais de doze metros de altura, elevada pelo que parecia um templo.

      -Quem  Anthar?
      Damien sacudiu a cabea.
      -Deve ser algum de minha poca, posto que saiba quem sou. E suponho que me conhecia, posto que ouvisse falar do Siduri.
      -Uma mulher?
      -Sim, j lhe explicarei isso. Agora temos pressa.
      Estava sintonizando sua mente com a de Shannon e quo nico sentia era seu medo. Uma sensao que fazia empalidecer a todas as demais. Tinha tambm uma ligeira
noo da direo em que se dirigiam e se estava deixando guiar por aquela intuio.
      Anthar. Quem demnios era e a que se deveria sua necessidade de vingana? Damien no sabia. Quo nico sabia era que se aquele canalha o fazia algum dano
Shannon, mataria-o.
      Eric levava algum tempo em silncio e quando Damien interrompeu o curso de seus prprios pensamentos para olh-lo, viu o torvelinho de emoes que retorcia
seu rosto. Deteve-se e se voltou para ele.
      -Marquand, o que ocorre?
      Com a mandbula tensa e os olhos brilhantes, Eric continuou avanando mais rpido. E um segundo depois, ajoelhava-se no cho e embalava a Tmara, tremendo
de raiva.
      -Tmara!
      Damien correu para eles. Tmara jazia no cho com a perna dobrada em um ngulo impossvel e o brao retorcido sob seu prprio corpo. Evidentemente, o tinha
quebrado. O corao de Damien se converteu em gelo ao ver o sofrimento do Eric. Tmara bateu suas negras pestanas e olhou ao homem que a sustentava entre seus braos
com tanto amor que  Damien doa v-lo.
      -Me... Me alegro de verte.
      -Tmara... -Eric se inclinou para diante e beijou seu rosto.
      -Cuidado, Eric... Di-me.
      -Matarei-o pelo que tem feito -sussurrou Eric.
      Ao Damien o engasgavam as lgrimas. Quando demnios tinha comeado a sentir-se to unido a aquela gente?
      -Tem que mov-la, Eric. Tem que procurar um refgio para quando chegar o amanhecer.
      Eric assentiu e olhou a seu redor.
      -Onde demnios estamos?
      -Em algum lugar de Ohio, acredito. H casas, posso...
      -No -Tmara tentou elevar a cabea-. Damien, tem que encontrar Shannon antes de que essa besta lhe faa algum dano. Mas tome cuidado.  a ti a quem busca.
      -Sei -Damien se endireitou e fixou o olhar na distncia.
      -Adiante, v busc-los -disse Eric-Eu me encarregarei da Tmara.
      -Est seguro?
      Tmara assentiu.
      -Porei-me bem assim que passe um dia descansando. Procuraremos reforos e nos reuniremos contigo.
      Eric apertou os dentes.
      -Tmara, no haver...
      - obvio que sim. Temos que pr fim s loucuras desse canalha e necessitamos toda a ajuda que possamos conseguir. E compadeo a esse tipo se Rhiannon o encontrar
antes que Damien.
      -Eu no estaria to seguro -respondeu Eric, olhando  Damien.
      -Eu tampouco -respondeu este.

      Viu-se obrigado a procurar um refgio ao amanhecer, mas reatou sua busca assim que anoiteceu. E soube imediatamente o momento no que a tinha encontrado.
      A melhor pista foi quela estrutura situada em meio de uns terrenos ermos que em outro tempo tinham servido para armazenar msseis e que o governo tinha terminado
vendendo a particulares. Aproximou-se das portas e estas se abriram. De modo que aquele canalha sabia que tinha chegado. Damien se meteu no que parecia um elevador.
E quando voltaram a abrirem-se suas portas, ficou paralisado ante a sensao de ter retrocedido no tempo. Aquela torre escalonada e piramidal permanecia to imaculada
e altiva como quando tinha sido construda. Era o mesmo templo que tinha sido o centro da que milhares de anos atrs tinha sido sua cidade. Um templo ocupado por
sua gente, por seus deuses. Um monstro branco de escadas e rampas. O habitculo dos deuses, no que lhes ofereciam sacrifcios.
      Damien subiu o primeiro lance de degraus, seguindo o mesmo caminho que tinha percorrido milhares de vezes tantos anos atrs. Mas seus passos eram mais rpidos,
mais desesperados. Em questo de segundos, estava na entrada do templo. Ergueu as costas e acessou a seu interior.
      Uma figura como a de um esqueleto andante saiu a receb-lo com uma tocha na mo. Damien deu um passo adiante, maravilhado pela preciso com a que aquele lugar
tinha sido restaurado. As figuras de pedra que representavam aos adoradores eram tais como as recordava. Homens e mulheres de olhos enormes com as mos dobradas
em atitude de prece.
      Damien passou por diante delas, obrigando-se a apartar o olhar daquelas figuras que representavam a sua gente e se concentrou no homem de aspecto gasto que
acabava de deter-se no outro extremo da habitao.
      -Estou aqui, Anthar. Fiz o que me pediste. Onde est Shannon?
      Anthar se limitou a esboar um sorriso. Apartou-se para um lado e alargou a mo para uma esttua do deus Anu. O cabelo dourado do Anu e sua barba tinham sido
abrilhantados at faz-los resplandecer. A seus ps, sobre o altar sacrifical, estava Shannon tremendo, com as bonecas e os tornozelos atados. Ia vestida com uma
tnica branca que se sujeitava o um dos ombros com um broche e deixava o outro ao descoberto.
      Damien sentiu seu medo, sua absoluta tristeza. Tentou lhe transmitir fora, confiana, consolo. Anthar deu um passo adiante para acender as tochas que emolduravam
sua cabea e seus ps. Shannon se encolheu e lanou um gemido de terror. Damien se equilibrou para ela, mas Anthar se interps em seu caminho.
      -Olhe a seu redor, Gilgamesh. Olhe aos deuses aos que traste ao tentar te converter em um deles -elevou a tocha para iluminar s deidades-. A deusa Inanna,
cujo nome amaldioaste da morte de seu amigo. Ea, o deus dos mananciais, inclusive o ofendeste. E ao Enil, o bom deus da terra e o vento, cujo nome sujou. E Ninurta,
deus da guerra, que tambm est furioso contigo.
      Damien tinha que fazer um grande esforo para no perder a pacincia.
      -Parece-me, Anthar, que o nico ao que ofendi  voc. Os deuses no atuaram contra mim em todo este tempo. E no acredito que sua justia seja to lenta.
      -A justia est a ponto de fazer-se.
      -Se isso for certo, ento estou disposto a isso, Anthar, mas agora libera a essa mulher. Supe-se que quer me fazer sofrer, no a ela.
      -Ainda no, Gilgamesh.
      Damien deu um passo adiante com inteno de liberar Shannon, mas Anthar alargou a mo para uma pequena prateleira de pedra e tomou uma adaga ritual. O fio
era to penetrante como o de uma gilete. Colocou- frente  garganta do Shannon. Ela gritou e olhou  Damien  desesperada.
      -Se te mover, blasfemo, farei-lhe sofrer. Farei-lhe sofrer terrivelmente. Provavelmente  sangrar antes que voc possa fazer nada para impedi-lo.
      -Sou muito velho -respondeu Damien-. Mais velho que ningum, exceto o prprio Utnapishtim, que me transformou. Deveria procurar no me zangar.
      -Utnapishtim tambm me fez, tambm, grande rei do Uruk. S uns segundos depois que a ti.
      -Mas ele no haveria...
      -No teve outra opo. Seu intercmbio de sangue com um jovem enlouquecido o tinha debilitado. Eu o obriguei a repetir o ritual, queria viver para poder ver
sua morte.
      A voz do Eric chegou  mente de Damien e soube ento que seu amigo estava a par de tudo o que estava acontecendo.
      "Quando Anthar fez o intercmbio, o sangue estava diludo, voc continua sendo mais forte", advertiu-lhe.
      Damien assentiu; tinha a sensao de que Eric estava protegendo seus pensamentos de Anthar e ele tentou fazer o mesmo.
      -Que crime cometi para te zangar tanto?
      -Lembra-te de Siduri? Minha formosa Siduri, que entregou o corao a uma besta?
      Damien assentiu e deu um passo adiante, mas viu que Anthar pressionava a gilete contra o pescoo de Shannon.
      -Responde em voz alta para que os deuses conheam seus pecados.
      Damien se umedeceu os lbios.
      -Naquele estava louco de tristeza pela morte de Enkidu, meu melhor amigo. Continuei procurando a imortalidade com a esperana de lhe fazer voltar para a vida.
Quando cheguei  casa de Siduri, estava faminto, sedento e virtualmente louco. Ela me alimentou, vestiu-me e me ajudou a recuperar parte de minha prudncia.
      -Isso foi o nico que te deu?
      -Ofereceu-me seu consolo. Compartilhamos seu leito.
      -Siduri era minha amada! -gritou Anthar-. A utilizou e depois reatou sua busca. Ela te suplicou que ficasse, mas voc foi surdo a suas splicas.
      -No, ela sabia que me partiria desde dia que cruzei a porta de sua casa. Sabia que...
      -Matou-a. Ela pensava que estava apaixonada por ti e lhe demonstrou isso, apesar de que era minha prometida.
      -Isso no  nenhum delito! -Damien voltou a avanar-. Sabe to bem como eu que naquela poca um rei tinha direito a tomar a virgindade de uma donzela antes
que o fizessem seus maridos. Assim era a lei. Como pode dizer que cometi um crime ao me deitar com sua amada? -era um argumento muito dbil, mas no o ocorria nada
mais naquele momento.
      -Ela perdeu sua alma quando voc a deixou. Mas no sabia, verdade? Nunca olhou atrs. No soube nunca que ao dia seguinte, ao amanhecer, afundou-se no mar.
afogou-se pelo amor de um rei indigno que queria converter-se em um deus.
      A voz do Eric chegou de novo at ele.
      "No foi tua culpa, Damien. No deixe que te distraia".
      Mas para Damien foi um duro golpe.
      -Eu... No sabia. Siduri foi muito amvel comigo, Anthar. Eu a apreciava. Sinto muito. Sinto-o muito mais do que posso expressar com palavras.
      -Sua tristeza no  suficiente, Gilgamesh. Deve sofrer tanto como sofri eu.
      "Incinera-o".
      Damien sacudiu a cabea rapidamente e respondeu a Eric em silncio.
      "No estou seguro de que funcione e  necessria uma quantidade incrvel de energia. Se fracassar, ficarei virtualmente indefeso".
      -Vou tomar a sua mulher como voc tomou  minha -Anthar olhava  Shannon enquanto falava-.E depois a sangrarei e a deixarei morrer. E voc vai presenciar ,
Gilgamesh, porque quero verte sofrer antes de te matar.
      -No tem fora suficiente para me matar.
      -Logo o comprovaremos.
      Com a adaga na mo, inclinou-se para  Shannon e esta gritou.
      Nesse mesmo instante, ouviu-se um profundo estrondo seguido por uma chuva de passos na entrada. Sem necessidade de voltar-se, Damien soube que acabavam de
chegar os imortais. Ouviu-se uma voz feminina to potente como a da prpria Inanna.
      -Exatamente, de que classe de morte voc gostaria de desfrutar?
      Anthar teve ento um momento de distrao e aquilo foi tudo o que Damien necessitou. Girou em crculo a uma velocidade de vertigem e, um instante depois, um
enorme lobo se equilibrava sobre aquele vampiro perverso.
      Shannon tentou aferrar-se a sua escassa prudncia enquanto observava horrorizada a aquele lobo que se equilibrava sobre a garganta de Anthar e retrocedia no
instante no que este ltimo se transformava em uma cobra. O lobo deu um salto no ar e se converteu em um falco que se inclinou sobre ela para afastar  serpente.
Shannon rodou sobre o altar de pedra, endireitou-se sobre os ps e saltou por volta das duas bestas enfrentadas. A serpente tinha encurralado ao falco e ela tinha
que impedir que o atacasse.
      Mas de repente, um puxo a obrigou a deter-se. Uma mulher alta e esbelta, rgia como uma rainha e com o cabelo da cor do bano, agachou-se a seu lado para
lhe desatar os tornozelos.
      -Sou Rhiannon -disse no mesmo tom no que teria anunciado que era uma rainha.
      Apartou Shannon para uma esquina em que estavam esperando Eric, Tmara e outro homem  que Shannon no conhecia. A seus ps descansava uma pantera negra que
observava aos animais em combate com os olhos de um depredador.
      -Nenhum deles  para ti, Pandora -a mulher acariciou a cabea do felino carinhosamente, mas no apartava o olhar do campo de batalha.
      Shannon girou mdio esperando encontrar  Damien agonizando no cho, mas viu um leo e a um jaguar rodando em um n de garras e dentes.
      -Faam algo! -gritou.
      Tmara posou a mo em seu ombro.
      -No sei o que podemos...
      Interrompeu-se quando Shannon viu a adaga que tinha ficado tiragem no cho e se atirou para ela caindo de joelhos. Levantou-se lentamente com o olhar fixo
nos combatentes, elevou a adaga por cima de sua cabea e soltou um grito com uma voz que jamais se ouviu si mesmo.
      A mulher alta a agarrou pelos ombros.
      -Mataro-lhe, fica conosco! Damien quer que lhe levemos a um lugar seguro.
      Shannon se voltou para ela.
      -No penso ir a nenhuma parte. Tenta me obrigar e desejar no hav-lo feito.
      Tmara arregalou os olhos e os dois homens ficaram em completo silncio. A mulher olhou fixamente  Shannon.
      -Perdoarei-te, mas s por esta vez, novata.
      Shannon ignorou o tom imperioso de suas palavras e se voltou de novo. Os animais haviam tornado a recuperar sua forma humana e permaneciam o um fronte ao outro
ofegando e sangrando por diferentes feridas. Eric e o homem desconhecido se lanaram para eles, mas Damien os deteve elevando a mo.
      -Tirem  Shannon daqui, pelo amor da Inanna!
      -No me penso ir! -gritou ela.
      -Anthar, isto para de uma vez. No pode voc enfrentar a todos ns -advertiu Roland.
      -Quer que lhe demonstre isso? -sussurrou Anthar.
      Endureceu seu olhar, intensificando a de uma maneira espetacular. Era como se desde seus olhos surgisse uma fonte de energia.
      -Roland! -Rhiannon se jogou contra aquele homem, fazendo-o cair ao cho justo no momento no que estalava uma bola de fogo no ar.
      Rhiannon se levantou e se enfrentou  Anthar furiosa.
      -OH, agora me pagar isso.
      Anthar riu zombador, empurrou  Damien e se agachou para tirar de sua bota uma gilete. Elevou a mo com inteno de afund-la na garganta de Damien.
      -Noo!
      Foi o grito de batalha de Shannon, que se atirou contra as costas daquele homem e lhe sujeitou a boneca com as duas mos, tentando apartar- o de Damien com
todas suas foras.
      Anthar se desfez dela como o teria feito um co de uma pulga. Shannon se sentiu voar no ar e aterrissou brutalmente no cho. Golpeou-se a cabea contra o altar
e, em que pese a sentir como se intensificava a dor e seu corpo se debilitava, obrigou-se a manter os olhos abertos.
      Damien bulia de raiva. Apartou  Anthar dele e concentrou seu olhar naquele canalha enquanto tentava incorporar-se.
      O homem pareceu sentir o dio de seu olhar. Ficou quieto durante um instante e se voltou para  Damien.
      -Pode faz-lo, verdade? -arqueou as sobrancelhas e avanou para ele com expresso ameaadora. A pantera grunhiu-. Mas tenho uma pergunta melhor: pode faz-lo
suficientemente rpido?
      Anthar estendeu o brao, fazendo um arco mortal e aproximando a gilete do pescoo de Damien. O ia decapitar!
      Damien permaneceu em seu lugar, endurecendo seu olhar, e Anthar ficou paralisado. Comeou a tremer e a vibrar da cabea aos ps. De seus olhos saa um fio
de fumaa que serpenteava at seu cabelo. Um tremor sacudiu o cho do templo e um rugido acompanhou o momento no que Anthar estalou convertido em uma bola de fogo.
E de repente o silncio. Anthar tinha desaparecido.
      Damien se deixou cair ao cho como se aquele ato lhe tivesse roubado toda sua energia. Shannon correu para ele e embalou seu rosto entre as mos. No podia
falar, limitava-se a gemer brandamente e a balan-lo contra ela enquanto deixava que flussem as lgrimas. Deus, amava-o. No se tinha dado conta de quanto at
que tinha pensado que ia morrer por tentar salv-la.
      Damien lhe rodeou a cintura com os braos e posou a cabea em seu ventre.
      -Tudo terminou Shannon. Agora est a salvo -sussurrou, enquanto se incorporava para beijar suas bochechas empapadas em lgrimas-. E livre de mim. Pode ir com
outros. Um dia mais, Shannon, e te recuperar. Depois poder ir onde queira. S espero que possa encontrar alguma satisfao nesta vida que te condenei a viver.
      Shannon pestanejou e as lgrimas cessaram bruscamente.


















 Captulo 16

      -Teremos que ficar aqui durante todo o dia -observou Tmara.
      Estava sentada no cho e observou  Eric aproximar-se de Damien. Shannon se tinha retirado repentinamente depois de que Damien lhe houvesse dito que podia ir-se
logo. Damien no podia v-la, no sabia se estava feliz pela notcia ou zangada ao saber que teria que esperar um dia mais. Eric lhe tendeu a mo e Damien a aceitou,
deixando que o ajudasse a levantar-se.
      -Temo-me que no fui que muita ajuda -comentou Eric em voz alta, e em silncio acrescentou: "por Deus, Damien, saltou sobre esse vampiro para te salvar".
      -Ajudaste-me mais do que criem.
      E era certo. No s sua chegada tinha tirado o Anthar de sua concentrao, mas tambm eles haviam sentido seu apoio. O calor da amizade. Algo que no havia
tornado a sentir desde fazia sculos.
      "Tentou me ajudar porque sentia que me devia isso por lhe haver salvado a vida".
      -Bom, pelo menos posso te curar o pior dessas feridas.
      Normalmente, Damien teria rechaado a ajuda e teria insistido em cuidar de si mesmo. Mas no naquele momento. Permaneceu muito quieto enquanto Eric se arrancava
uma manga da camisa e comeava a rasg-la para fazer ataduras com ela.
      -Tmara tem razo, sabe? -observou Damien em voz suficientemente alta como para que todo mundo, Shannon includa, pudesse ouvi-lo. Queria que compreendesse
que no estava prolongando sua estadia ali deliberadamente-. No poderamos ir muito longe antes do amanhecer.  prefervel que fiquemos, descansemos e vamos amanh
ao anoitecer.
      Olhou  Shannon para ver se esta o tinha compreendido. Viu-a ajoelhar-se ao lado da Tmara para abra-la.
      -Pensava que tinha morrido -sussurrou Shannon.
      -Quando aterrissei, quase o teria preferido, mas agora estou bem.
      Shannon sacudiu a cabea lentamente. Roland, o recm-chegado, permanecia apoiado contra uma parede enquanto Rhiannon tirava uma tira da prega de seu vestido
de cetim e a empregava para lhe fazer uma tipia. Devia haver-se ferido ao cair no cho. Fez uma careta de dor e Damien viu que a mulher se doa com ele. A preocupao
escurecia seus olhos quando o olhava. Damien sentiu a pontada do cime. Por que no poderia olh-lo Shannon daquela maneira?
      "Tem-no feito faz uns segundos", disse Eric.
      -Deveria ir ao mdico -sussurrou Shannon. Olhou Damien, que estava tentando conter a hemorragia de uma pequena ferida no brao-. E tambm voc, Damien.
      Tmara lhe aconteceu  mo pelo cabelo a sua amiga.
      -Todas as feridas sanassem enquanto descansamos durante o dia. No lhe explicou isso ningum ainda? -olhou  Damien com expresso acusadora.
      Damien se limitou a encolher-se de ombros.
      -Shannon ainda tem muito que aprender. E tempo mais que suficiente para faz-lo. Acredito que agora vou procurar uma habitao mais pequena. Depois da briga,
s gosta de descansar.
      Evitou o olhar de Shannon. No queria v-la mais. Doa-lhe saber que logo o abandonaria.
      Rhiannon se separou do Roland para aproximar-se de Damien no momento no que este se movia para partir. Estava sorrindo. Parecia flutuar sobre o cho, mais
que caminhar, at que se deteve frente a ele com o queixo alta e olhar resplandecente.
      -No at que tenhamos sido apresentados. Assim que voc  o grande Damien, do que tanto ouvi falar.
      -E voc  Rhiannon, princesa do Egito. Eu tambm ouvi falar de ti.
      -Meus amigos estiveram a ponto de morrer por ti.
      -No foi culpa dela, Rhiannon -a voz da Tmara no conseguiu aplacar o fogo de seus olhos, mas Roland fechou a mo sobre seu ombro e suas palavras sim o conseguiram.
      -Acredito que no so minhas imaginaes, Damien. O lobo ao que vi lutando me resultava terrivelmente familiar. Esse lobo e eu nos vimos antes, verdade?
      Damien desviou o olhar e Rhiannon olhou ao Roland com o cenho franzido.
      -Lobo? Quer dizer que...?
      -Na Frana, meu amor, quando fui capturado por Luden e estava imobilizado, temendo a chegada do amanhecer, veio um lobo para me buscar e me ps o resguardo
em uma cova. Esse lobo tinha um olhar inteligente...
      Damien se limitou a assentir e se transladou  habitao mais prxima. Ao ajudar Roland tinha trado sua prpria promessa de isolamento. Mas estava de gira
por aquela zona e havia sentido claramente o desespero daquele homem. E inclusive ao tomar a deciso de ajud-lo, tinha decidido fazer o de maneira oculta. Ento
no queria a gratido de ningum. Nem a amizade.
      O que equivocado estava. Naquele momento desfrutava da amizade de todos eles. Inclusive do Rhiannon. Sim, contava com sua amizade.
      Mas no tinha o que mais desejava. Shannon. No s a ela, mas tambm seu corao. Seu amor.
      -Procurem encontrar um lugar no que descansar no que estejam seguros de que no pode entrar a luz -se voltou de novo para a escurido.


      Roland baixou a cabea e desapareceu em outra das habitaes. A pantera se separou do Rhiannon para aproximar-se de Shannon e comear a brincar com sua mo.
Shannon acariciou ao animal, pestanejando surpreendida.
      -Chama-se Pandora. E normalmente lhe d muito bem julgar s pessoas.
      Shannon se voltou para os olhos amendoados do Rhiannon e a viu sorrir ligeiramente.
      -No todo mundo tem o valor de me desafiar. A verdade  que quase ningum se atreve a faz-lo.
      -Sinto-o -se desculpou Shannon-. Sei que s estava tentando me ajudar -olhou para a habitao em que tinha desaparecido Damien com um n na garganta-. Mas
no podia deix-lo partir.
      -Equilibraste-te sobre uma criatura que poderia te haver matado.
      -Tinha que tent-lo.
      -Sim, uma mulher apaixonada sempre tem que tent-lo -respondeu Rhiannon com um sorriso, e se dirigiu  habitao pela que Roland tinha desaparecido.
      Shannon baixou o olhar para o cho, onde permaneciam sentados Eric e Tmara com as mos entrelaadas. Tmara olhou Shannon e assentiu. Umedecendo-os lbios,
esta ltima quadrou os ombros, voltou-se e entrou na habitao a que Damien tinha ido.

      Damien soube que estava ali inclusive antes de ouvi-la chegar. Gemeu para si, mas havia outra voz em seu interior que se emocionava ao saber que ia poder desfrutar
de uns minutos a ss com ela antes que partisse.
      Estava sentado no cho. Shannon cruzou a habitao e se sentou a seu lado.
      -J perdi a conta do nmero de vezes que me salvaste a vida.
      Damien no respondeu. Shannon estava muito perto dele, mas no o roava. Ele morria por lhe acariciar sua juba sedosa e saborear sua boca uma vez mais.
      -Estive pensando muito -sussurrou ela-. Principalmente em ti. No homem  que conheci e no que agora conheo. E agora sei que  o mesmo. Damien ou Gilgamesh,
mortal ou imortal. O mesmo.
      Damien a observava enquanto ela tentava encontrar as palavras adequadas, enquanto esperava a que continuasse e lhe dissesse os motivos pelos que ia deix-lo.
      -Tinha medo de algo que no compreendia e estava zangada porque sentia que tinha tomado o controle da situao.
      -Isso se deve a sua infncia -disse Damien brandamente, incapaz de continuar em silncio-.  compreensvel, Shannon. Se o homem que tentou abusar de ti no
estivesse morto, mataria-o eu mesmo -lutou contra a raiva que crescia em seu interior-. Sei como se sentia. No tinha nenhum direito a atuar sem seu consentimento.
      -Pergunto-me qual teria sido minha resposta - tomou ar e o soltou lentamente-. Tambm estive pensando muito nisso. E, sabe?, Acredito que se tivesse sabido
o que agora sei, teria estado de acordo.
      Damien voltou  cabea e a olhou aos olhos.
      -Quando estava lutando com o Anthar... Deus tinha tanto medo de que te matasse... E comecei a me perguntar o que faria como poderia viver sem ti.
      -No tem que depender de mim, Shannon. Qualquer dos outros pode te ensinar o que precisa saber.
      Shannon sacudiu a cabea e o olhou aos olhos.
      -Mas eu no quero que me ensine nenhum deles, Damien. Quero que voc ensine.
      Damien baixou a cabea. Resultava-lhe muito doloroso continuar olhando-a nos olhos.
      -Assim decidiste que pode suportar a idia de ser imortal e que voc gostaria que eu te ensinasse a s-lo. Mas, Shannon, eu... No posso faz-lo. No posso
estar perto de ti sem estar contigo. Desejo-te muito e no sou suficientemente forte para continuar lutando. Amo-te, Shannon -a frustrao o urgia a golpear as paredes
com os punhos.
      Shannon tambm se levantou. Elevou a mo para o broche que sujeitava sua tnica.
      -No, Shannon.
      Um segundo depois, a tnica se converteu em uma nuvem branca que descansava a seus ps.
      Damien fechou os olhos, mas nada podia obrig-lo a voltar-se. Shannon estava to formosa, nua frente a ele e iluminada pela luz da tocha... Alargou para ela
suas mos vacilantes e se deteve. Mas no podia deter-se. J fora gratido ou simples desejo, no podia recha-la quando sabia que seria a ltima vez.
      Posou a mo em seu brao.
      -Shannon...
      -Hei-te dito que teria aceitado esta opo se me houvesse isso dito antes que casse doente -lhe disse-. Mas no me perguntaste por que.
      Damien deslizou a mo pela curva perfeita de suas costas, estreitou-a contra ele e inclinou a cabea para beijar seu pescoo, seu queixo, seu rosto. Tomou
o lbulo da orelha do Shannon entre seus dentes. Aquela mulher parecia querer volt-lo louco.
      -Me pergunte por que, Damien.
      Damien tomou sua boca e Shannon lhe respondeu da mesma maneira. Maldita fora, como a desejava. At sabendo que assim s conseguiria sofrer quando partisse.
Ajoelhou-se para lhe lamber os seios e seu sangue se inflamou quando Shannon o sustentou frente a ela. Riscou um caminho de beijos por seu ventre, lambeu seu umbigo
e continuou descendendo para saborear sua secreta doura. Desejava-a toda, cada milmetro de seu corpo.
      Shannon ofegou, suas mos tremiam sobre a nuca de Damien enquanto este a levava a loucura com as mos e a lngua. Sussurrou seu nome e ele utilizou os dentes,
sorrindo ao sentir que se estremecia.
      Shannon cederam os joelhos e ele continuou acompanhando seu corpo com a boca enquanto se desabotoava as calas. Tinha que fazer amor com ela por ltima vez.
Assegurar-se de que nunca o esquecesse.
      Alargou a mo at seu rosto, entreabriu seus lbios com a lngua e a deslizou em seu interior enquanto a urgia a abrir as coxas e se pressionava contra sua
umidade. Shannon arqueou os quadris para que acessasse a seu interior e Damien o fez com entusiasmo.
      Conduziu-a sem contemplaes pelo caminho do xtase e quando estava chegando a bordo daquele precipcio, sentiu os dentes de Shannon na garganta. Shannon sorveu
a essncia de seu corpo enquanto alcanava a liberao do clmax. O orgasmo de Damien foi uma rplica do dela e Shannon se aferrou a ele como se estivesse afogando.
Depois, relaxou-se sob seu corpo.
      -No se pareceu a nada do que poderia haver imaginado -sussurrou Shannon com assombro.
      Damien se tombou a seu lado e lhe fez elevar a cabea para apoi-la em seu brao.
      -Tem os sentidos mais afinados. Agora sente tudo com muita mais intensidade -lhe deu um beijo na bochecha. Tudo tinha sido muito rpido. Deveria haver tentando
prolong-lo. Mas j tudo tinha terminado. Maldita fora, tudo tinha terminado.
      -Certamente -Shannon abriu os olhos e o olhou muito sria-. Me pergunte por que teria eleito viver, Damien.
      Damien tragou saliva antes de faz-lo.
      -Por que teria elegido viver, Shannon?
      -No porque tivesse medo  morte. Nem porque queria procurar a vida e a juventude eternas. Nem para vingar a morte de Tawny -se interrompeu e elevou a cabea
at que seus lbios estiveram a menos de um milmetro dos seus-. Mas sim porque te amo.
      -Shannon... -Damien emoldurou seu rosto entre as mos e a beijou afundando a lngua em sua boca.
      -Jamais te deixarei Damien, Gilgamesh. Sempre serei tua. Jamais ter que caminhar sozinho. E tampouco eu.
      Damien lhe devolveu o beijo. E naquele instante, comeou a lenta cura de sua mais antiga e profunda ferida.


























 RESENHA BIBLIOGRFICA

      Maggie Shayne
      Aficionada ao gnero de terror desde menina, reinventava as histrias clssicas para lhes dar um final romntico. Para ela Drcula, a Amia ou o Homem lobo
so romances de amor. Leitora voraz e escritora prolfica da infncia, Maggie se encontrou sem um livro que ler enquanto embalava a seu filho doente. De modo que
em seu lugar comeou a inventar sua prpria histria, criando uma trama que se desenvolvia em seus pensamentos at que, uns poucos dias mais tarde, tomou assento
e plasmou a histria em papel.
       Autora de mais de 40 novelas, e ganhadora do prmio Rita. Suas novelas incluem desde westerns caseiros, luxuosas histrias e contos de fadas modernas. Mas
seus melhores livros so os que se enquadram no chamado romance paranormal. A chave para combinar dois gneros to dspares como o terror e o amor,  a redeno
da besta graas ao poder do amor.
       Maggie vive no Otselic Valley, no estado de Nova Iorque com seu marido e suas cinco filhas.




 Iluses ao Anoitecer
 Durante sculos, a solido os acompanhou do anoitecer  aurora. Mas da escurido surgiu  luz da vida eterna... do amor eterno.

 Damien era o mais perigoso da estirpe dos malditos, mas seu oculto poder ancestral estava em perigo por culpa de uma terrvel debilidade: a paixo que sentia por
uma mulher de carne e osso, uma mortal...
 * * *
 (c) Harlequn ibrica, 2005
 Coleo Harlequn oro, n 109
 ISBN 84-671-3243-4
 Titulo original: Twilight illusions


         Maggie Shayne                Iluses ao Anoitecer
